Turchinov exige já o julgamento
e proibição do PCU

No caminho das tormentas

Luís Carapinha

Três meses passados do golpe de estado promovido pelos EUA e UE, a Ucrânia continua a caminhar velozmente para o abismo. A guerra civil imposta pela Junta golpista de Kiev é uma realidade, mas o pior ainda pode estar para vir. O fascismo – elemento determinante na execução do golpe consumado em Fevereiro – mostra com crescente desfaçatez o seu rosto e garras. O clima exacerbado de ódio e a violência terrorista parecem ser o último grande recurso do regime da oligarquia no poder, ao fim de 23 anos de livre saque capitalista e ingerência imperialista que conduziram a Ucrânia à presente situação. Há crimes que não enganam e a chacina na Casa dos Sindicatos na cidade heroica de Odessa possui a marca infame do fascismo. Na capital, o presidente interino, Turchinov, exige já publicamente o julgamento e proibição do PCU. Sob assistência do FMI e os cheques-imposição que chegam de Washington e Bruxelas (sem esquecer a «ajuda» da NATO), o poder ilegítimo insiste na realização a ferro e fogo das presidenciais de 25 de Maio, farsa eleitoral com que pretende sacramentar o assalto ao poder e a campanha punitiva no Leste e Sul.

Apesar da intensificação da repressão, dos bombardeamentos diários contra Slaviansk e Kramatorsk, dos desmandos dos bandos expedicionários neonazis e da Guarda Nacional constituída a partir do Sector de Direita, a verdade é que as forças de Kiev não controlam a situação na região mineira e industrial do Donbass. Os referendos de 11 de Maio nos distritos de Lugansk e Donetsk não deixaram dúvidas sobre a rejeição popular do poder nacional-fascista de Kiev. Depois de semanas de ambiguidades, a declaração de guerra do grande proprietário de Donetsk e detentor da maior fortuna da Ucrânia, Rinat Akhmetov, à proclamada República Popular de Donetsk (RPD) constitui mais um elemento de racionalidade e um momento de verdade no sangrento conflito em curso. A afinidade e interesses de classe sobrepõem-se momentaneamente à grande pugna intestina no seio da oligarquia ucraniana. Kolomoiski, o magnata nomeado pela Junta governador de Dnepropetrovsk, sede da indústria militar, patrocina o Sector de Direita e financia um exército privado para combater e aniquilar os «separatistas» e «terroristas». Akhmetov decreta, sob ameaças veladas de despedimento, uma greve diária de três horas nas suas empresas contra o poder da RPD. Por si só, este desenvolvimento mostra que as forças heterogéneas que corporizam o levantamento no Donbass são expressão, ainda que de forma contraditória e não totalmente consciente, de profundos sentimentos e anseios populares de natureza anti-fascista e anti-oligárquica que o golpe reaccionário de Kiev fez extravasar.

Já em plena fase crítica, o conflito ucraniano aproxima-se de momentos decisivos. A resistência anti-fascista no Donbass pode arrastar as restantes regiões do Leste e Sul e conduzir ao fracasso do golpe de Estado. A Junta, o grande capital e mesmo o que resta do Partido das Regiões apostam na derrota ou capitulação do «movimento separatista». Mais do que apoiar o levantamento do Donbass a Rússia tenta moldar a sua direcção, ao mesmo tempo que evita ser atraída para um conflito armado de desfecho e proporções imprevisíveis. A agenda do Kremlin, apresentando na presente conjuntura pontos de contacto com as aspirações populares no Donbass, não é coincidente com os seus propósitos.

O golpe de Estado, a reintegração da Crimeia na Rússia, a divisão e guerra civil na Ucrânia iniciam uma nova fase conturbada no espaço pós-soviético com profundos impactos no contexto mundial.




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