A vida dá razão ao PCP
Presente nas assembleias das organizações regionais de Viana do Castelo e Aveiro, Jerónimo de Sousa referiu-se, em tom crítico, a algo que não sendo novo ressurgiu recentemente, dada a aproximação das eleições para o Parlamento Europeu: «aqueles que são responsáveis pela situação de regressão a que o País e a vida dos portugueses chegaram vêm novamente anunciar boas novas e prometer um futuro melhor, que a vida nunca confirma». É precisamente isso que têm feito nos últimos dias não apenas o Governo do PSD/CDS, mas também os que «têm jogado o jogo da alternância governativa para prosseguir o mesmo rumo de sempre, mesmo que digam e repitam que o seu rumo é novo», acrescentou.
Os casos são mais do que muitos, tendo o Secretário-geral do PCP salientado a «prioridade às preocupações sociais» anunciada pelo Governo (no mesmo dia em que o INE revelou o «escandaloso aumento da pobreza»), os «sinais positivos», a «viragem» ou a «recuperação». Da mesma forma que a novela em torno da «saída limpa» do pacto de agressão ou a retórica sobre a «libertação do País da condição de “protectorado”» tem por objectivo esconder o objectivo de «manter Portugal amarrado à actual situação de dependência, por via dos mesmos ou de outros instrumentos de dominação da União Europeia». Entre estes, conta-se designadamente o Tratado Orçamental, que uma vez mais une o PS aos partidos da maioria governamental.
Para Jerónimo de Sousa, PSD e CDS «chegaram ao Governo pela via da mentira, anunciando o contrário do que tinham realmente no seu pensamento fazer e prometendo o que de antemão sabiam que não iriam cumprir; hoje continuam a usar os mesmos métodos, fazendo de tais práticas e da chantagem a derradeira tábua de salvação de uma governação cada vez mais desacreditada e isolada do País e do povo». A sua verdadeira política, concluiu, «não é aquela que prometem e anunciam para o futuro, é aquela que têm vindo a impor nestes últimos três anos».
Uma verdadeira renegociação
Se algum mérito tem a situação actual do País e a sombria perspectiva que sobre ele paira é, para Jerónimo de Sousa, o facto de permitir ao povo «ver quem lhes falou verdade; quem lhes disse que o pacto de agressão afundaria o País e a vida dos portugueses; quem não ficou apenas pela denúncia, mas que apresentou alternativas à assinatura do memorando da troika». De facto, lembrou, foi o PCP a propor, em 2011 (e foi o primeiro a fazê-lo), a renegociação da dívida pública nos seus prazos, juros e montantes – proposta que foi, então, apelidada de «irresponsável e irrealista».
Passados três anos, sublinhou Jerónimo de Sousa, «a vida está a dar razão ao PCP», pois se na altura a dívida pública atingia 94 por cento do PIB (tendo quase triplicado desde o final de 1998), hoje ela ascende a quase 130 por cento. O dirigente comunista lembrou ainda que a dimensão colossal desta dívida «tem causas e responsáveis», que vão da política de direita seguida ao longo de mais de 30 anos por PS, PSD e CDS ao processo de integração europeia na UE e ao euro.
O Secretário-geral do PCP valorizou o facto de serem cada vez mais os que «se levantam e reconhecem que a dívida é insustentável e que não pode ser paga mantendo as actuais condições», muito embora alguns deles tenham não só combatido a proposta do PCP como defenderam a assinatura do pacto de agressão. Reafirmando a necessidade de renegociar a dívida, o dirigente comunista acrescentou que essa não poderá ser uma qualquer renegociação ou o simulacro de renegociação, antes deverá ser capaz de «garantir o relançamento da economia, promover o emprego, travar a sangria de jovens que aos milhares deixam o País, devolver ao povo o que lhe foi retirado e melhorar as suas condições de vida e de trabalho».
O PCP voltará a apresentar na Assembleia da República a sua proposta de renegociação da dívida, sublinhou Jerónimo de Sousa em Aveiro.