A justiça de Passos
Havendo de reconhecer que já não se apresenta fácil encontrar muitas outras razões para a indignação, tal é o manancial de injustiças e mentiras com que a actualidade nos tem presenteado, o agora revelado caso da prescrição do processo de um conhecido banqueiro abre uma nova excepção na não pouca e causticada capacidade de muitos para se indignarem. É bem verdade que não há como um banqueiro para o fazer. Sendo que no caso presente – o da escandalosa prescrição do processo de Jardim Gonçalves do BCP – difícil é aquilatar sobre o que maior indignação suscita: se o processo que permitiu a Jardim Gonçalves embolsar ilegitimamente mais de um milhão de euros ou a encenada estupefacção de Passos Coelho que, com ar angelical, veio revelar-se surpreendido e chocado com a desigualdade da Justiça. Procurando tomar os outros por parvos, Passos Coelho ignora deliberadamente que, num processo que demorou oito anos a prescrever, quase seis anos foram consumidos na conveniente hibernação que o Banco de Portugal acautelou de garantir sobre os esclarecimentos que atempadamente devia ter prestado. Omissão que tem tanto de curiosa como de conveniente, conhecidas que são as competências de supervisão desta entidade. Sendo verdade que também não está pouco por esclarecer quanto à tramitação judicial e conhecida que é a contrastante demora que a Justiça revela quando se trata de tocar em poderosos se comparada com outros, é de supor que Passos Coelho quando alude a critérios de igualdade de tratamento esteja a pensar em algo bem diferente do que pensará o comum dos mortais. Comprovada que está a descarada protecção dada pelo seu Governo ao grande capital e à promoção dos seus interesses, certo será que quando Passos fala em «igualdade», estará mais a pensar em que seja garantido igual tratamento aos processos contra-ordenacionais pendentes de Oliveira e Costa e João Rendeiro, ou seja que por via dos conhecidos processos dilatórios e conivências políticas outros proeminentes dignitários da Banca possam por via de oportunas prescrições não desembolsar os muitos milhões de euros devidos ao Estado.