«Conversa fiada»

Carlos Gonçalves

Há dias, reagindo à proposta do Governo PSD/CDS para discutir a chamada «reforma do Estado», Seguro rechaçou, «indignado»: «estou farto de conversa fiada», e exigiu do Governo «propostas concretas», mas tanta «indignação» mais parece uma espécie de «agarrem-me senão vou-me a ele», que não assenta no figurão, uma banalidade, uma treta – conversa fiada.

Para além das cenas de Seguro, importa falar da conversa fiada em que se tornou a intervenção do PS, aliás, é evidente o mimetismo entre PS e Seguro e vice versa. O PS vive em gestão de oportunidades, de meias verdades e meias mentiras, manobrismos, incoerências e opacidades, que relevam uma «dupla personalidade», com formas e conteúdos de duas (ou mais) identidades distintas e até conflituais.

Por exemplo, sobre a «reforma do Estado» de Coelho/Portas, Seguro disse que era «um conjunto de ideias vazias» e que nada havia a negociar, mas agora Carlos Silva, do PS, admite o «acordo» da UGT desde que envolva o salário mínimo (há muito negociado) e não seja «contra os trabalhadores»(!!!); sobre um possível «programa cautelar», o PS fez constar que não haveria negócio, mas agora Seguro espera «propostas» para decidir e fez desmentir que possa existir semelhante programa sem o PS estar na discussão; sobre eleições legislativas em 2014, caso haja um «novo programa», o PS fez constar que implicaria eleições, mas agora Seguro foge à questão e diz que, nesse caso, o Governo «tem de explicar porquê».

Assim se confirma – disse Seguro –, que para o PS o importante é o «regresso aos mercados» e que se (e quando) «houver mudança de Governo, o PS garante o cumprimento dos compromissos», isto é, assim se confirma que o PS visa prosseguir o rumo de afundamento do País.

Assim se confirma que a conversa fiada do PS é para que vá passando o tempo, para que o PSD/CDS governem até 2015, para desgraça do povo e do País, e para que o PS se assuma então, mais uma vez, «peça essencial no jogo da alternância», para prosseguir a política de direita.

E assim se confirma que a luta dos trabalhadores e do povo é e tem de ser por uma verdadeira alternativa, patriótica e de esquerda.



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