II Sessão: Democracia e Socialismo

Aprender com o passado para projectar o futuro

A Re­vo­lução de Abril ilu­mina os com­bates de hoje e de amanhã

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De­mo­cracia, so­ci­a­lismo, re­vo­lução. Pas­sado, pre­sente, fu­turo. Foi disto, em grande me­dida, que se falou na se­gunda sessão do Con­gresso «Álvaro Cu­nhal, o pro­jecto co­mu­nista, Por­tugal e o Mundo de hoje». Com mo­de­ração do membro da Co­missão Po­lí­tica Ar­mindo Mi­randa, nessa sessão abordou-se a te­o­ri­zação de Álvaro Cu­nhal (e do PCP), nos anos 60 do sé­culo pas­sado, sobre a na­tu­reza da re­vo­lução por­tu­guesa (a partir da co­mu­ni­cação de Maria da Pi­e­dade Mor­ga­dinho, da Co­missão Cen­tral de Con­trolo); re­flectiu-se sobre a Re­vo­lução de Abril, o seu pro­cesso e as suas con­quistas (com base na in­ter­venção de José Au­gusto Es­teves, do mesmo órgão); e pro­jectou-se os ca­mi­nhos do fu­turo so­ci­a­lista de Por­tugal (adi­an­tados por Jorge Cor­deiro, do Se­cre­ta­riado e da Co­missão Po­lí­tica).

Lan­çado o de­bate, muitas e va­li­osas foram as con­tri­bui­ções re­la­tivas estes as­suntos, tão de­ci­sivos para quem se propõe – como os co­mu­nistas e os seus ali­ados – a trans­formar re­vo­lu­ci­o­na­ri­a­mente o País e o Mundo. Se é certo que a His­tória não se re­pete – e não pára –, é também ver­dade que ela deixa en­si­na­mentos pre­ci­osos para com­pre­ender o pre­sente e pro­jectar o fu­turo. Assim sai­bamos, todos, apre­ender-lhe o sen­tido.

Aná­lise con­creta da re­a­li­dade con­creta

Foi um pouco isto que fez, na sua in­ter­venção, Maria da Pi­e­dade Mor­ga­dinho. Re­cu­ando à dé­cada de 60 do sé­culo pas­sado, lem­brou a ines­ti­mável con­tri­buição de Álvaro Cu­nhal para que o PCP de­fi­nisse com exac­tidão a etapa da re­vo­lução, os seus ob­jec­tivos fun­da­men­tais, a via para os atingir e, por con­sequência, as ta­refas que então se co­lo­cavam à classe ope­rária e ao seu Par­tido. Desta con­tri­buição res­salta a «obra ge­nial» que é o «Rumo à Vi­tória», de 1964, que está na base do pro­grama do PCP apro­vado no ano se­guinte no VI Con­gresso, o úl­timo antes do 25 de Abril.

É nessa obra, sa­li­enta Maria da Pi­e­dade Mor­ga­dinho, que se de­fine que a re­vo­lução por­tu­guesa seria uma Re­vo­lução De­mo­crá­tica e Na­ci­onal: de­mo­crá­tica porque aca­baria com a di­ta­dura e le­varia à ins­tau­ração de um re­gime de­mo­crá­tico; na­ci­onal porque poria fim ao do­mínio im­pe­ri­a­lista sobre Por­tugal e ao do­mínio co­lo­ni­a­lista de Por­tugal sobre ou­tros povos, que con­du­ziria à ver­da­deira in­de­pen­dência do País. Esta re­vo­lução seria uma fase de tran­sição do ca­pi­ta­lismo para o so­ci­a­lismo – com­plexa, é certo, como com­plexas «têm sido as fases de tran­sição do ca­pi­ta­lismo para o so­ci­a­lismo que a his­tória mun­dial co­nhece até hoje», acres­centou.

Para esta di­ri­gente co­mu­nista, a de­fi­nição com pre­cisão da etapa da re­vo­lução teve como um dos pontos de par­tida es­sen­ciais a de­fi­nição exacta, por Álvaro Cu­nhal, da di­ta­dura fas­cista em Por­tugal: par­tindo da ca­rac­te­ri­zação feita por Ge­orgi Di­mi­trov no VII Con­gresso da In­ter­na­ci­onal (re­a­li­zado em 1935), de­sen­volve-a e adapta-a à re­a­li­dade por­tu­guesa, con­cluindo que o fas­cismo era a forma ter­ro­rista não apenas da parte mais re­ac­ci­o­nária do ca­pital fi­nan­ceiro, como pro­punha o co­mu­nista búl­garo, mas de «todo o ca­pital fi­nan­ceiro, dos grandes grupos mo­no­po­listas apoi­ados pelo im­pe­ri­a­lismo es­tran­geiro, e dos la­ti­fun­diá­rios». Não se trata de um «pre­ci­o­sismo de lin­guagem», ga­rantiu Maria da Pi­e­dade Mor­ga­dinho, mas do pró­prio «cerne da fun­da­men­tação teó­rica da via in­sur­rec­ci­onal para o der­ru­ba­mento do fas­cismo»: a luta de massas seria o motor da re­vo­lução e a li­qui­dação do poder dos mo­no­pó­lios e dos la­ti­fun­diá­rios ga­ran­tias de um Por­tugal livre e de­mo­crá­tico.

Abril con­firmou pers­pec­tivas do PCP

José Au­gusto Es­teves, re­fe­rindo-se ao pro­cesso da Re­vo­lução de Abril, co­meçou por cons­tatar que ela re­pre­senta, em grande me­dida, uma «ex­tra­or­di­nária con­fir­mação das aná­lises e das pers­pec­tivas apon­tadas no Pro­grama da Re­vo­lução De­mo­crá­tica e Na­ci­onal». Se, em re­lação à via, o factor mi­litar as­sumiu, na ponta final, um papel de­ci­sivo, não deixa de ser ver­dade que «será pela ini­ci­a­tiva das massas, com des­ta­cado papel da classe ope­rária, que o he­róico le­van­ta­mento mi­litar se trans­for­mará numa re­vo­lução».

Pas­sando em re­vista as­pectos es­sen­cias da Re­vo­lução de Abril, José Au­gusto Es­teves de­bruçou-se sobre a aná­lise de Álvaro Cu­nhal sobre uma re­a­li­dade em rá­pido de­sen­vol­vi­mento, pa­tente na «cri­a­dora iden­ti­fi­cação, de­fi­nição e pro­jecção, logo aos pri­meiros al­vores da Re­vo­lução, da ali­ança povo-MFA como motor da re­vo­lução e ex­pressão de uma ampla ali­ança de todas as classes e ca­madas não mo­no­po­listas e não la­ti­fun­distas», que de­ter­mi­naria as con­quistas de­mo­crá­ticas e a na­tu­reza da fu­tura de­mo­cracia por­tu­guesa: «uma das mais sig­ni­fi­ca­tivas ca­rac­te­rís­ticas da Re­vo­lução foi terem-se re­a­li­zado pro­fundas trans­for­ma­ções a partir de baixo, sem a exis­tência de um poder re­vo­lu­ci­o­nário». Não se com­pre­en­derá a re­vo­lução sem apre­ender o «ca­rácter ori­ginal da forma de in­ter­venção re­vo­lu­ci­o­nária do MFA e da sua ali­ança com o mo­vi­mento po­pular», acres­centou José Au­gusto Es­teves.

A ali­ança do povo com os sec­tores mais avan­çados das forças ar­madas, «chave» das vi­tó­rias re­vo­lu­ci­o­ná­rias, foi in­ter­rom­pida em fi­nais de 1975, «sem que im­por­tantes ob­jec­tivos de­fi­nidos pelo PCP para a etapa da Re­vo­lução De­mo­crá­tica e Na­ci­onal fossem re­a­li­zados», re­alçou o di­ri­gente co­mu­nista, lem­brando que se salvou a com­po­nente po­pular «que ha­veria de as­sumir, com a sua luta dali para a frente, a de­fesa das con­quistas de uma re­vo­lução ina­ca­bada e fazer frente a um pro­cesso pro­lon­gado de ofen­siva de re­cu­pe­ração ca­pi­ta­lista».

José Au­gusto Es­teves ter­minou ga­ran­tindo que os va­lores de Abril «não só con­ti­nuam a re­flectir os in­te­resses da larga mai­oria dos tra­ba­lha­dores e do povo» como têm ca­pa­ci­dade para «guiar o nosso ca­minho na luta de hoje e na cons­trução do fu­turo do País». 




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