III Sessão: O processo de transformação social, o Partido e as massas

Organizar e lutar

Image 14397

Sobre os temas debatidos na terceira sessão do Congresso – intitulada «O processo de transformação social, o Partido e as massas», com moderação de Margarida Botelho, da Comissão Política –, Álvaro Cunhal deixou uma importante reflexão (e prática) que faz dele, incontestavelmente, um dos grandes pensadores e dirigentes comunistas à escala internacional. Das suas contribuições acerca da natureza, identidade e características do Partido Comunista, da sua política de alianças e do carácter estratégico da luta de massas falaram, respectivamente, Francisco Lopes (da Comissão Política e do Secretariado), Graciete Cruz (dirigente da CGTP-IN e membro do CC) e Américo Nunes, antigo dirigente da Intersindical.

Abordando o «imenso legado de Álvaro Cunhal sobre o Partido», Francisco Lopes destacou, em primeiro lugar, a sua adesão ao PCP em 1931 e a «opção pelos explorados, pela emancipação da classe operária e de todos os trabalhadores, pela causa do fim da exploração do homem pelo homem» que lhe está subjacente. A esta opção, acrescentou, seguiu-se a «dimensão da sua participação, o contributo decisivo que deu para a construção do Partido».

Reveste-se de particular importância – disse – a contribuição que Álvaro Cunhal deu para a «definição das características e tarefas do Partido face às exigências das condições em que tinha que actuar»: nos anos 40, no processo de reorganização do PCP; nos anos 60, na correcção da tendência anarco-liberal no trabalho de direcção e no conteúdo dos Estatutos aprovados no VI Congresso (de 1965) onde se respondia à situação de clandestinidade e se apontava já a configuração do que seria o funcionamento do Partido sem esse constrangimento; no processo revolucionário, transformando o PCP num grande partido de massas «não deixando de ser um Partido de quadros». Os conceitos de «trabalho colectivo» e de «grande colectivo partidário» contam-se também entre as reflexões mais profícuas de Álvaro Cunhal no que à definição do Partido Comunista diz respeito.

Alianças estratégicas e tácticas

Graciete Cruz, por seu lado, valorizou a capacidade demonstrada pelo PCP ao longo da sua existência para «apontar caminhos, corrigir soluções e encontrar respostas novas, adequadas a cada etapa histórica, no processo de transformação revolucionária da sociedade». Álvaro Cunhal deu um contributo «notável e fundamental» para que assim fosse.

No que diz respeito ao sistema de alianças sociais e políticas do partido da classe operária e de todos os trabalhadores – tema da sua comunicação –, Graciete Cruz assinalou que, decorrendo do exame da realidade concreta, ela comporta «alianças estratégicas, tendo em vista a edificação do socialismo, e alianças tácticas, adequadas a uma dada etapa ou situação concreta da vida nacional». Citando o próprio Álvaro Cunhal (no prefácio de 1997 à reedição do relatório apresentado ao IV Congresso), acrescentou que «as alianças “estratégicas” não devem ser invocadas como impeditivas de alianças “tácticas”, mas estas em nenhum caso podem pôr em causa as alianças “estratégicas” ou, ainda menos, pretenderem sê-lo». Graciete Cruz acrescentaria ainda que as alianças de um partido revolucionário, tal como o seu Programa, não podem ser imutáveis.

Olhando para a realidade actual, a dirigente da CGTP-IN sublinhou as «profundas alterações» verificadas na composição social da sociedade, garantindo, porém, que elas não alteram o «papel de vanguarda da classe operária nem o sistema de alianças básicas do proletariado». A importância do PCP mantém-se «indispensável à realização da alternativa política necessária», concluiu.

Organizar, organizar, organizar

O antigo dirigente da Inter, Américo Nunes, salientou o papel decisivo da luta de massas para as profundas transformações sociais, tanto no processo revolucionário de Abril como em avanços progressistas futuros. E, remetendo para o pensamento de Álvaro Cunhal, expresso em «A Revolução Portuguesa, O Passado e o Futuro», afirmou que «a acção de massas, a intervenção das massas em todos os aspectos da democratização política, económica, social e cultural da vida portuguesa, constitui o próprio motor do processo revolucionário». Se foram as massas em movimento que, aliadas aos militares revolucionários, transformaram radicalmente as estruturas do capitalismo monopolistas pré-existentes, seriam também elas a assegurar a «consolidação e o prosseguimento da vida democrática».

Importantes e actuais são, também, os ensinamentos legados por Álvaro Cunhal sobre a organização e direcção das acções de massas, acrescentou Américo Nunes. Sempre ligado à realidade concreta de cada acção de luta ou momento histórico, Álvaro Cunhal salientava a importância de atentar sempre à «evolução dos acontecimentos, de forma a não sermos surpreendidos pelo rápido evoluir da situação, de forma a nunca irmos demasiado atrás nem demasiado à frente das massas».

O orador lembrou também a importância que o histórico dirigente comunista deu sempre, ao longo da sua vida, à organização, sem a qual «não há vitória possível». Sem ela, afirmava Álvaro Cunhal, «podem fazer-se “coisas”. Mas não se podem lançar grandes lutas, dar-lhes continuidade, elevá-las a um nível superior». 




Mais artigos de: Em Foco

Avante! especial

Na quinta-feira, dia 7, é publicado um número especial do Avante!, contendo um suplemento dedicado à vida, pensamento e luta de Álvaro Cunhal, o mais destacado construtor do Partido Comunista Português e figura maior da cena política nacional e internacional do século XX. Com a mesma edição será distribuído um poster comemorativo do centenário de Álvaro Cunhal.

Incentivo à reflexão, à intervenção e à luta

O Congresso «Álvaro Cunhal, o projecto comunista, Portugal e o Mundo de hoje», realizado no fim-de-semana na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, foi um momento ímpar de reflexão em torno do legado teórico e prático do histórico dirigente comunista, que mantém, nos dias de hoje, uma flagrante e inegável actualidade. Nas dezenas de intervenções que preencheram as quatro sessões do Congresso foram abordados diversos aspectos da vida, do pensamento e da luta de Álvaro Cunhal, com especial destaque para aqueles que têm projecção nos combates que os comunistas hoje travam, lado a lado com muitos outros que o não são, pelos objectivos a que tão exemplarmente dedicou toda a sua vida e o melhor das suas imensas capacidades. 

Uma vida e uma obra que iluminam os combates de hoje

Em nome do Partido Comunista Português, quero transmitir as nossas mais calorosas e cordiais saudações a todos os participantes e organizadores do Congresso «Álvaro Cunhal, o Projecto Comunista, Portugal e o Mundo de hoje». Um Congresso que esteve e...

Percurso exemplar

A primeira sessão do Congresso, que decorreu na manhã de sábado, procurou evidenciar os aspectos mais salientes do percurso político, intelectual e artístico de Álvaro Cunhal. Nessa sessão, moderada por José Capucho, membro do...

Entrevista histórica

Fausto Sorini conheceu Álvaro Cunhal em 1991, na Festa do Avante!, onde veio em representação da Refundação Comunista, criada pouco antes na sequência da «dramática auto-dissolução do Partido Comunista Italiano». Desse encontro recorda a...

Aprender com o passado para projectar o futuro

Democracia, socialismo, revolução. Passado, presente, futuro. Foi disto, em grande medida, que se falou na segunda sessão do Congresso «Álvaro Cunhal, o projecto comunista, Portugal e o Mundo de hoje». Com moderação do membro da...

Os exaltantes e complexos caminhos da transformação social

Dos caminhos para a transformação revolucionária da sociedade portuguesa falou, na segunda sessão do Congresso, o membro dos organismos executivos do Comité Central Jorge Cordeiro. Este dirigente começou a sua intervenção a salientar que «é tendo...

Identidade comunista

A definição das características fundamentais de um Partido Comunista foi um dos mais notáveis contributos teóricos de Álvaro Cunhal, ao qual Francisco Lopes se referiu com profundidade na intervenção que fez no Congresso do passado fim-de-semana. No XII, XIII e XIV...

Patriotismo e internacionalismo

As dimensões patriótica e internacionalista da luta dos comunistas, a questão de classe e a questão nacional, o combate contra o imperialismo e a integração capitalista europeia foram alguns dos assuntos em debate na quarta e última...

Contributo essencial

Sitaram Yechury é membro do Bureau Político do Partido Comunista da Índia (Marxista) e foi um dos convidados internacionais do Congresso. Na sua intervenção, na última sessão, o dirigente comunista indiano referiu-se a Álvaro Cunhal como pertencendo...

Contributos preciosos

Para além das intervenções de apresentação dos temas em debate nas diferentes sessões do Congresso, e dos discursos dos convidados estrangeiros, que destacamos nestas páginas, muitos outros participantes deixaram contributos valiosos para a...

Comício no Campo Pequeno

Passado o Congresso (com o êxito que procurámos salientar nas páginas anteriores), as comemorações do centenário do nascimento de Álvaro Cunhal têm o próximo ponto alto no comício de 10 de Novembro, no Campo Pequeno, em Lisboa.