Os lecas
Os meia lecas e os lecas e meia do Governo empinam-se em poses de Estado compostas ao espelho e os seus fatos e vestidos por medida presumem acrescentar-lhes elegância ao modo e ao tempo em que caracoleiam perante o País a sua importância que, embora efémera, os enche de alegria e orgulho de si próprios.
E já constam na História literária do País há quase 500 anos (há 441, mais exactamente), quando Camões abre o discurso do Velho do Restelo dizendo «Ó glória de mandar! Ó vã cobiça / Desta vaidade a quem chamamos fama!».
Pois contentem-se com este lugar no devir, senhores governantes do XIX Governo Constitucional, que outro não terão – pois outro não cabe a um Executivo servil aos ditames do capital e revanchista militante sobre o regime democrático construído com a Revolução de Abril.
Aliás, prosseguindo o «mano-a-mano» de destruição conluiada com o PS desde 1976.
Acrescente-se – em benefício do sustentáculo deste Governo e desta política, o Presidente Cavaco –, que o supracitado Discurso do Velho do Restelo fecha o IV Canto de Os Lusíadas. Isto partindo do princípio de que o sr. Presidente já aprendeu que a obra maior da Literatura portuguesa tem X Cantos.
Os lecas ultimamente em palco – Helder Rosalino (secretário de Estado da Administração Pública) e Poiares Maduro (ministro Adjunto e do Desenvolvimento Regional) – têm excretado o que esta malta vale.
A empáfia de Rosalino a esmiuçar os cortes e os despedimentos que «prevê» na Função Pública é uma obscenidade. O homem não mostra uma réstea de consciência de que está a falar da vida de dezenas de milhares de pessoas – a quem lhes aponta o desastre eminente do desemprego –, antes exibe um indisfarçável prazer de deus ex machina a encarreirar o formigueiro do «funcionalismo». No aconchego do Banco de Portugal (onde capitalizou uma rendosa carreira de funcionário), a sua vida e a sua cabeça não lhe deram para mais.
Quanto a Poiares Maduro, o «multi-licenciado» que veio substituir o Relvas da licenciatura a fingir, tem sido uma lástima a «coordenar» a propaganda: começou por inventar e liquidar breefings com a Imprensa, agora debita umas farsas sobre «reforma do Estado» e introduz nova invenção, a de uma «entidade independente» para «controlar a RTP».
Entretanto, chegaram esta semana os lecas da troika para mais uns «exames», onde não cedem no aumento do défice para lá dos 4%, enquanto os juros da dívida voltam a subir além dos 7%, a dívida total ultrapassa os 131% do PIB, o desemprego galga os 17% e o desastre desta política se acentua a cada dia que passa.
Os alarmes e as críticas a esta política de austeridade sem fim já reboam de todo lado, seja dos EUA ou da própria UE, mas os patrões do «resgate» não cedem. E a criadagem local exulta, enquanto o PS de Seguro parece apenas saber esperar sentado que destruam o regime saído da Revolução de Abril.
No final, sobre os escombros, os lecas do PS/Seguro assentarão, talvez, os seus felizes traseiros.