O Plano
O senhor Papadimitriou, economista grego nos EUA e actual presidente do Levy Economics Institute, em Nova Iorque, opinou no Público que «nesta altura é já mais do que evidente que as políticas da União Europeia na Grécia falharam».
Diz também que «o primeiro Plano Marshall não foi um acto de caridade [dos EUA] nem um resgate: foi uma eficaz estratégia de investimento para criar um mercado económico europeu dinâmico e evitar a desintegração política». Esqueceu-se de dizer que a temida «desintegração» significava a tomada do poder pelos Partidos Comunistas em vários países europeus, saídos da hecatombe da II Guerra Mundial como os heróicos antifascistas que afrontaram a bestialidade nazi, organizaram a resistência e, na hora da libertação da Europa pelo Exército Vermelho e a URSS, granjearam o respeito e a gratidão dos seus povos, enquanto Estaline se tornava um herói à escala planetária. Não foi por acaso que o incensado Churchill perdeu as eleições no final da guerra que «ganhara», nem que os governos sociais-democratas do pós-guerra da Europa capitalista foram compelidos a lançar as bases do famoso Estado Social, imitando o irrecusável exemplo da URSS vitoriosa.
Pois o sr. Papadimitriou informa que o seu Instituto já elaborou «um modelo macroeconómico» com um «plano de recuperação do tipo Marshall» a aplicar «na economia da Grécia», rematando que «para se poder aplicar uma nova versão há que rever teorias de austeridade desacreditadas – ou as instituições da zona euro que a promovem».
Lá que as actuais teorias de austeridade estão «desacreditadas», não restam dúvidas, mas parece que o sr. Papadimitriou esquece que o tal «Plano Marshall», aplicado pelos EUA na Europa do pós-guerra, está igualmente desacreditado, e desde a sua implementação. O Plano resumiu-se na imposição da compra aos EUA de todo o género de produtos norte-americanos indispensáveis à sobrevivência e à reconstrução, a troco de empréstimos que tiveram duas consequências imediatas.
Uma, que os pagamentos internacionais passavam a ser em dólares e não em libras, como até à guerra, e que os países europeus «ajudados» se esforçaram para se livrarem, depressa, da canga dos empréstimos e do «monopólio exportador» dos EUA.
Outra, que os EUA viveram, nas duas décadas do pós-guerra, o período mais próspero da sua curta história e se tornaram a grande potência imperialista, enterrando o império britânico e hegemonizando o capitalismo mundial.
Por isso o sr. Papadimitriou - embora acerte no desastre humanitário a ocorrer na Europa devido à «austeridade» a todo o custo – erra quando procura vender a demagógica «alternativa» do plano Marshall.
Aliás, os próprios EUA nem têm hoje hipóteses de impor tal Plano, enterrados que estão na «crise global» que os próprios desencadearam.
E a tal «crise» só pode ser ultrapassada com a mudança de paradigma do funcionamento do capitalismo. O que só revolucionariamente se consegue...