O pai da política de direita

José Casanova

Mário Soares está todos os dias nos media. Percebe-se: a política de direita, posta em causa pela luta dos trabalhadores, precisa de quem a defenda e ninguém melhor do que ele para o fazer.

Em entrevista ao jornal i, o pai da política de direita diz-se «desiludido com Seguro» pelas supostas hesitações deste na farsa do cavacal «compromisso».

E por que razão queria Soares que o PS não assinasse o «compromisso»?

Porque era objectivo do dito agravar as já gravíssimas condições de trabalho e de vida dos portugueses e desferir um ataque final ao que ainda nos resta de Abril? Não: para Soares, protagonista principal da contra-revolução, essas são questões de lana caprina.

Porque o «compromisso» era mais um acto de entrega de independência e de soberania nacional ao grande capital internacional? Nem pensar!: em matéria de independência e soberania, Soares entregou tudo o que pôde (aliás, por essas e por outras é que os propagandistas do grande capital o alcunharam de «pai da democracia»).

Então porquê essa obsessão de Soares na rejeição de um «compromisso» com conteúdo e objectivos tão ao jeito de… Soares? Ele explica: porque, se o PS assinasse a coisa, o PCP iria subir muito eleitoralmente

Por isso, na entrevista ao i, Soares arrota, farto: «Agora o PCP não vai ter a votação com que sonhava»…

Deixemo-lo mergulhado no seu sonho – que, tudo indica, virará pesadelo em 29 de Setembro – e passemos a outro tema recorrente no discurso soarista: a insistência do homem em afirmar que o PS «é, e sempre foi, um partido de esquerda».

Bom, com Soares é assim: se ele diz que «é e sempre foi»… é porque não é e nunca foi… Na verdade, o partido de «esquerda» de que Soares fala é o partido criador da política de direita com a qual a troika PS, PSD, CDS, coligada ou numa alternância mascarada de alternativa, conduziu o País à situação em que se encontra.

E, como mostra a realidade, cá e lá fora, dizer-se «socialista» e «de esquerda» é a melhor forma de certos partidos, no governo ou na «oposição», cumprirem a tarefa que lhes está destinada de servir o grande capital opressor e explorador.



Mais artigos de: Opinião

À mangueirada

  O «faz de conta» é inerente ao poder, e no poder que se julga absoluto faz-se, desfaz-se e refaz-se ao bel-prazer dos mandantes. O Governo Pedro e Paulo, apesar da ressonância bíblica do arranjo onomástico, chafurdou o postulado anterior ao nível do pilha-galinhas....

O pacto de agressão no País e no distrito de Coimbra

No distrito de Coimbra assistimos a um desemprego crescente que, em dois anos do pacto de agressão assinado por PS, PSD e CDS, subiu de 17 000 para 31 000 desempregados, sendo que 66% não recebe subsídio de desemprego. O número de falências também...

A união nacional

«Ter a ideia de que, como estamos com um problema muito sério para resolver, temos de fabricar em Portugal uma espécie de União Nacional é uma perversão (…) porque a União Nacional não é desejada em Portugal, nem pelos que têm memória da...

Azares semânticos

Quando este texto for publicado terá sido aprovada a «moção de confiança» das bancadas do PSD e CDS ao seu Governo. Uma maioria cujo apoio social já não existe confia num governo derrotado cuja claque não chega para encher a nave dos Jerónimos. Tem sido...

Detroit

A declaração de falência de Detroit é o retrato do capitalismo decadente dos nossos dias. A cidade e a sua indústria automóvel foram símbolo do «século americano». Ainda hoje Detroit é sede da General Motors, durante décadas a maior empresa...