Azares semânticos
Quando este texto for publicado terá sido aprovada a «moção de confiança» das bancadas do PSD e CDS ao seu Governo. Uma maioria cujo apoio social já não existe confia num governo derrotado cuja claque não chega para encher a nave dos Jerónimos.
Tem sido sublinhado que o texto desta moção é um antológico estendal de hipocrisia e falsidade. Mas terá de se compreender que, mesmo para os deputados do PSD e do CDS, não restaria outra alternativa a manifestar a sua confiança senão naquilo que este Governo não fez, nos resultados que não obteve, e naquilo que não vai fazer.
Já nem se fala na caricata questão do papel «inteligente na Europa e no Mundo» que o Governo diz ir assumir. Começando pela sua primeira figura, não há moções de confiança que consigam suprir as visíveis carências em tal matéria.
Nem se fala também na manifesta imprudência com que o Governo assume ir promover «mais mobilidade social», uma das poucas ocasiões em que, certamente por lapso, fala verdade. Porque na cabeça desta gente – onde o carreirismo é tudo – mobilidade social é ascendente. Mas para os trabalhadores e para o povo, as vítimas da sua política, é de mobilidade social descendente que se trata e essa, enquanto se mantiver o rumo da política de direita, está sempre a ser «promovida».
E há outras questões semânticas que não serão insignificantes no discurso deste Governo, e que constituem uma recuperação da terminologia do fascismo, nomeadamente o «fomento industrial» e a «união nacional». Não são utilizadas por não existirem outras expressões com idêntico sentido. São utilizadas estas, e não outras, precisamente pela sua carga semântica. Para darem o sinal ao grande capital de que este Governo, falando de «fomento industrial», não esquece o «condicionamento industrial» que lhe está historicamente associado: a intervenção coerciva do Estado no processo de concentração e centralização do capital. Para darem o sinal ao PS de que o seu compromisso com a troika é o coroamento de quase quarenta anos de compromisso com a direita e com a política de direita, compromisso com o qual não pode haver rupturas parcelares.
Este Governo é um governo derrotado. Mas, precisamente por isso, é ainda mais perigoso.