A união nacional
«Ter a ideia de que, como estamos com um problema muito sério para resolver, temos de fabricar em Portugal uma espécie de União Nacional é uma perversão (…) porque a União Nacional não é desejada em Portugal, nem pelos que têm memória da que já existiu, nem por aqueles que, com prudência, aprendem lições do passado». De certeza que os leitores do Avante! se revêem na citação, ainda para mais numa semana em que o primeiro-ministro apelou a uma «união nacional» sobre o quadro fiscal em Portugal depois de 2015.
Se o Avante! quisesse aderir à moda de Verão da generalidade dos órgãos de comunicação social, podia lançar um concurso em que quem adivinhasse o autor da frase ganhava. Era quase certo que ninguém levava o troféu para casa, porque o autor de tão democrata expressão é… Pedro Passos Coelho, no dia 25 de Abril de 2011.
Na altura, Passos Coelho reagia ao discurso do Presidente da República e desfiava críticas a Sócrates e ao PS. Foi no tempo em que Passos Coelho desmentia veementemente que alguma vez lhe passasse pela cabeça cortar os subsídios de férias, em que vinha compungido à televisão pedir desculpa pelo aumento de impostos dos PEC, em que prometia o governo mais pequeno e eficiente de sempre. Foi no tempo em que faltavam poucos dias para o PSD, com o resto da troika nacional, assinar o pacto de agressão que até hoje condena o País.
Entretanto passaram dois dos mais terríveis anos que Portugal viveu. Se houve quem acreditasse na máscara de Passos Coelho, já não tem ilusões há muito tempo. O primeiro- ministro perdeu a pouca vergonha que lhe restava e assume os seus objectivos de destruição do País para o entregar ao grande capital com cada vez mais clareza. A necessidade de fingir respeito à democracia ficou lá muito atrás, bem distante: se há greves, mude-se a lei da greve, se há protestos limite-se o direito de propaganda, se há direitos acabe-se com eles. E venha a união nacional.
Questionado pelos jornalistas, Seguro confessa que «não gostou da expressão», que é uma maneira mais discreta de dizer que concorda com o conteúdo. Mas Passos Coelho e Seguro sabem que contam com a fortíssima oposição do PCP, dos democratas, de um povo inteiro que sabe que fascismo nunca mais.