O passo em frente

Ângelo Alves

Há muito tempo que o PCP vem alertando para as consequências sociais das medidas ditas de «austeridade». Os dados do desemprego, da pobreza, da fome, das mortes por doença resultantes das restrições de acesso à saúde, de suicídios, entre outros, demonstram um processo de autêntica «desconstrução» social no continente de consequências imprevisíveis. Também no plano económico os dados da desindustrialização, da recessão cada vez mais associada ao cenário de deflação (uma combinação explosiva do ponto de vista económico), de disparo das dívidas públicas, confirmam a decadência e o caminho para o abismo. As fissuras no edifício da União Europeia aprofundam-se.

É este o quadro que suscita agora declarações e manobras por parte de figuras como Barroso e Merkel que, aparentemente contraditórias, mais não são do que uma tentativa de fuga em frente. Durão Barroso afirmou na segunda-feira que a política de austeridade «atingiu os seus limites», que ela é «fundamentalmente correcta» e que a correcção do défice e da dívida é «indispensável». Cola a este discurso a ladainha do «crescimento e do emprego» que a social democracia associou ao tratado orçamental que apoiou e aprovou. Conclui acenado com o risco de uma divisão na Europa como resultado da crise. Já Merkel fala do mesmo mas em tom diferente. «Temos de estar preparados para aceitar que a Europa tem a palavra final em certas áreas. Caso contrário, não seremos capazes de continuar a construir a Europa». Conclui afirmando que os países do euro devem estar preparados para ceder soberania.

Ora, o que significam neste momento estas afirmações? Simples. O que pretendem é subir um furo acima na concentração do capital e do poder político. Para tal nada como dramatizar o cenário de divisões na Europa para pressionar o salto federalista em preparação. Só que o que Barroso e Merkel vêm defender agora – cada um à sua maneira e não conseguindo esconder rivalidades – não irá resolver rigorosamente nada, apenas irá aprofundar as contradições. O «passo em frente» de que Merkel agora fala para sacudir pressão seria, se não travado pela luta, para o abismo!



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