Álvaro Cunhal dixit
Obra do proletariado rural
«A Reforma Agrária foi conduzida fundamentalmente pelos assalariados rurais, pelo proletariado rural. No Alentejo e no Ribatejo isso era necessário, indispensável e inevitável. Por um lado, porque o proletariado rural nessas região já era no tempo do fascismo uma grande força revolucionária, com elevada consciência de classe, com forte combatividade, com sólida organização, com uma larga e heróica experiência de luta. Por outro lado, esse papel do proletariado era condição para a realização da própria reforma, dadas as elevadíssimas percentagens de assalariados rurais na população agrícola activa: mais de 85% nos distritos de Beja, Setúbal e Portalegre e em numerosos concelhos dos distritos de Santarém e Castelo Branco, mais de 90 por cento no distrito de Évora e nos concelhos de Coruche, Alpiarça e outros, no distrito de Santarém. Nos distritos de Évora, Beja, Portalegre e Setúbal os assalariados eram dez vezes mais numerosos que os pequenos e médios agricultores.»
(Álvaro Cunhal, A Revolução Portuguesa – o Passado e o Futuro», 1976)
Reforma agrária é essencial
«O progresso da agricultura, o melhoramento das condições de vida dos trabalhadores do campo e o progresso geral do processo revolucionário exigem que seja realizada a Reforma Agrária e que a terra dos latifúndios seja entregue àqueles que nela trabalham. (…) Enquanto permanecer a actual estrutura agrária não poderá realizar-se o progresso da agricultura, indispensável ao desenvolvimento da agricultura nacional e ao melhoramento das condições de vida do povo português e, em primeiro lugar, da população trabalhadora dos campos. Não poderá haver grande progresso agrícola enquanto a agricultura portuguesa estiver dominada por um pequeno grupo de famílias que tem nas suas mãos a maior parte das terras, enquanto meio milhão de trabalhadores do campo não têm um palmo de seu (…).»
(Álvaro Cunhal, discurso em Alpiarça, 15 de Dezembro de 1974.
Não esperar e sobreviver
«Dizem alguns que estariam de acordo com a Reforma Agrária e com a liquidação dos latifúndios, mas se tudo tivesse sido feito depois de publicada a lei, depois de uma decisão governamental, depois de estudado um plano, depois de traçada à régua e compasso a nova estruturação agrária e distribuídos superiormente os trabalhadores pelas terras que lhes fossem destinadas. É evidente que se os trabalhadores, em vez de procederem às ocupações “selvagens”, esperassem tais processos, morreriam de fome antes disso, pois, nem hoje, nem daqui a um século, nem nunca teriam a Reforma Agrária.»
(Álvaro Cunhal, A Revolução Portuguesa – o Passado e o Futuro», 1976)
Libertar Portugal de amarras
«O imperialismo quis manter Portugal bem amarrado à dependência dos Estados Unidos e dos países imperialistas da Europa e afastado da amizade e da cooperação com os países socialistas.
A reacção mundial temia o que pudesse significar a passagem de uma situação em que não existiam quaisquer relações com os países socialistas (salvo Cuba) para relações de amizade com países que apoiariam decerto a Revolução portuguesa.
As forças reaccionárias, conservadoras e oportunistas internas, activamente apoiadas pelo imperialismo, procuraram impedir, dificultar, atrasar, diminuir, reduzir a meras relações formais as relações de Portugal com os países socialistas. Apesar porém dessa resistência conjugada, as relações diplomáticas foram estabelecidas e deram-se importantes passos nas relações comerciais, culturais e mesmo de cooperação.»
(Álvaro Cunhal, A Revolução Portuguesa – o Passado e o Futuro», 1976)
Cortar com a vergonha
«Portugal libertado do fascismo, cortando com um passado de vergonha nacional, apareceu desde a primeira hora como um país amigo e solidário dos países até então vítimas do colonialismo e da guerra movida pelo governo fascista.
A contribuição do Portugal do 25 de Abril para a independência dos povos até então submetidos ao colonialismo português tem um alto significado histórico. Foi para o nosso próprio povo uma atitude dignificadora e redentora. Respeitando as outras pátrias, marcou o fim de uma época da vida nacional manchada pelo colonialismo e abriu possibilidades reais da construção de uma nova vida, livre, democrática, independente, na nossa própria pátria.»
(Álvaro Cunhal, A Revolução Portuguesa – o Passado e o Futuro», 1976)