Resistir é a primeira opção
Concluímos nesta edição a publicação dos depoimentos ao Avante! recolhidos no XIX Congresso do PCP, realizado em Almada de 30 de Novembro a 2 de Dezembro
O Estado de Israel funciona como base avançada do imperialismo no Médio Oriente, cujos objectivos são, como sempre foram, muito claros: saquear as riquezas naturais da região e dominar um mercado de 300 milhões de consumidores árabes. Este é o objectivo estratégico, e é por isso que a Frente Popular de Libertação da Palestina (FPLP) não espera que os sionistas e os seus aliados norte-americanos e europeus apresentem uma solução satisfatória para o conflito árabe-israelita nem para a questão palestiniana.
Neste contexto, o recente reconhecimento da Palestina como membro observador das Nações Unidas só se consolidará como uma vitória se a considerarmos no quadro de uma estratégia política nacional palestiniana. Para Israel e os EUA, o reconhecimento significou uma derrota, uma perda de influência. Sobre isso não temos dúvida. Mas ao contrário do que considera o presidente da Autoridade Nacional Palestiniana (ANP), Mahmud Abbas, a FPLP entende que o caminho que se coloca diante do nosso povo não é exclusivamente o da negociação, mas o da resistência como motor da negociação.
Resistência frente ao imperialismo que já mostrou, particularmente nos últimos 20 anos, que os diversos acordos promovidos e a sua violação sem consequências por parte de Israel resultaram, em última análise, em sucessivas vagas repressivas e maior colonização dos nossos territórios.
Não esqueçamos que negociação após negociação, hoje restam-nos somente 10 por cento do território; que administramos, por assim dizer, cidades isoladas no meio de vasta áreas ocupadas por Israel; que os palestinianos saem de casa e encontram pontos de controlo militares e um muro de separação para ir ao mercado ou à escola. Isto é, na sua vida quotidiana, o nosso povo não materializa o reconhecimento de um Estado.
É assim legítimo sublinhar que se a Palestina é um Estado reconhecido pela ONU, tem direitos. Desde logo o direito a contestar este tipo de atrocidades, bem como o de ver reconhecida a sua razão e concretizadas medidas que alterem no terreno a dura realidade vivida pelos palestinianos. Os impostos são recolhidos por Israel, que controla o acesso da ANP a estes. A ajuda internacional doada no quadro das próprias Nações Unidas não é gerida directamente com as autoridades palestinianas. Isto não é próprio de um Estado independente.
Veremos, pois, as consequências ulteriores do reconhecimento da Palestina como membro observador da ONU. Pode a ANP levar Israel a tribunal por genocídio? Em termos formais, pode, no entanto a FPLP alerta para o facto de alguns estados europeus terem colocado a Mahmud Abbas a condição de a ANP não avançar com processos contra Israel nas instâncias internacionais. Essa foi a moeda de troca para votarem favoravelmente o tal reconhecimento da Palestina nas Nações Unidas.
Lutar sem tréguas
Na recente agressão contra a Faixa de Gaza [Novembro de 2012], Israel foi surpreendido com a capacidade de resposta dos palestinianos. A surpresa foi tal que Israel se colocou entre duas opções: ou avançava para uma intervenção terrestre, ou propunha um cessar-fogo. Decidiram-se por este último, também porque a Barack Obama não interessava o prolongamento de uma guerra enquanto estava envolvido na campanha pela sua reeleição.
Da parte do Hamas, prevaleceu a opinião da sua facção política, que aceitou a trégua proposta por Israel em condições que, para nós, Frente Popular, podem implicar a repressão interna da resistência legítima à ocupação, aos crimes e às violações dos direitos humanos permanentemente praticados por Israel.
Aceitar um cessar-fogo neste quadro de agressão permanente é óbvio que permite recuperar uma parte das infra-estruturas de Gaza. Mas a verdade é que o território permanece bloqueado e a sua capacidade de regeneração é muitíssimo limitada. Os palestinianos não podem passar a fronteira com o Egipto e adquirir produtos que, obviamente, devido ao bloqueio, o governo de Gaza não pode comprar. 80 por cento dos palestinianos de Gaza não têm emprego e não podem sair para trabalhar fora do território. Os doentes crónicos e em geral todos os enfermos não podem sair de Gaza para serem tratados no Egipto ou no Chipre. E o que acontece? Morrem em casa porque os hospitais de Gaza estão destruídos. 60 por cento dos campos agrícolas de Gaza encontram-se queimados pelos bombardeamentos israelitas. Qual a possibilidade da sua recuperação para a produção de alimentos nesta conjuntura de isolamento imposto por Israel?
A FPLP entende que qualquer trégua declarada pelos movimentos de resistência palestinianos pode ser positiva se for um passo positivo no efectivo combate e resolução dos graves flagelos que afectam o nosso povo. Caso contrário, se é apenas um exercício político que tem como resultado último converter as autoridades palestinianas numa componente do aparelho repressivo israelita contra os legítimos protestos do povo, então o que mais serve os interesses dos palestinianos é assumirem e exercerem o direito a resistirem às atrocidades sionistas.
Em Gaza, entendemos que a resolução destes problemas estará tão mais próxima quanto maior for a unidade das forças progressistas e de esquerda no território. Unidade que tem um duplo sentido. Em primeiro lugar, fazer frente aos sectores mais reaccionários que têm ganho influência. Unidade dos sectores e das personalidades, do povo progressista de Gaza para contra-balancear o poder de organizações afiveladas a matrizes ideológicas retrógradas.
Em segundo lugar, a unidade das forças progressistas e de esquerda com o propósito de aprofundar o contacto com as direcções da Fatah e do Hamas, visando enterrar de vez a divisão entre os que lutam pela libertação e independência da Palestina. Esta é uma orientação que procura salientar o que une as forças palestinianas e não o que as diferencia. Na recente à agressão israelita contra Gaza, as operações de resistência armada foram, pela primeira vez, coordenadas a partir de um centro único envolvendo todas as organizações independentistas. Foi um exemplo da possibilidade de acção conjunta e de maleabilidade táctica face à ofensiva israelita, o qual, para nós, mostrou a sua validade futura.
* Membro da Secção Internacional da Frente Popular de Libertação da Palestina