Os «pan-europeus»
LUSA
As contradições entre as principais potências da UE agudizam-se. O braço de ferro entre elas acentua-se. Neste período de aprofundamento da crise na e da UE, o processo de concertação e rivalidade entre elas eleva-se a um patamar superior. Os mais recentes desenvolvimentos na zona euro, o plano de «reforçar» a União Económica e Monetária (UEM) e a discussão sobre o quadro financeiro para 2014-2020 traduzem esse evento. A Grã-Bretanha ameaça com a realização de um referendo sobre as condições da sua permanência na UE, ou mesmo da sua saída. Ao mesmo tempo, o seu primeiro-ministro, David Cameron, afirma que «deixar a UE não é do interesse da Grã-Bretanha» já que, sendo a Grã-Bretanha um país comercial, (mais de 50 por cento do seu comércio faz-se com a UE) terá todo o interesse em manter o acesso ao mercado interno da UE. A Alemanha veio à cena colocar água na fervura. Depois das «ameaças» que surgiram de vários países de que a Grã-Bretanha teria que sair da UE, a Alemanha declarou que a «Grã-Bretanha é um importante parceiro da UE». Os EUA avisam que querem «uma Grã-Bretanha com uma voz forte na UE» para continuar a ser a sua porta de entrada na UE.
A concretização do dito «reforço» da UEM na forma como tem vindo a ser anunciado pode colocar a City de Londres(1) perante a ameaça de perder as condições de acesso e domínio sobre o mercado interno de serviços financeiros (especulação) da UE que neste momento ainda detém. Dominada por três ou quatro grandes bancos de investimento americanos, a City de Londres é utilizada como a porta de entrada do grande capital americano na UE. Algumas das maiores empresas que operam na City chamaram a atenção para os custos da saída da UE e de um possível fechar da porta do seu mercado interno, fuga de capitais e investimentos. Apesar das contradições, o grande capital navega sempre à vista e os custos de uma saída da Grã-Bretanha da UE parecem excluir por agora essa opção. Existe um braço de ferro real entre a Grã-Bretanha e as potências da zona euro mas poderá não passar disso mesmo.
Apesar de ter anunciado que não entrará na chamada união bancária (transferência do controlo dos bancos pelas autoridades nacionais para o Banco Central Europeu), a Grã-Bretanha vê crescer a ameaça ao seu domínio neste sector pelo processo de concentração e centralização do capital que a união bancária visa na zona euro – da qual a Grã-Bretanha não faz parte.
O grande capital fala por intermédio de Cameron, Merkel, Hollande e companhia. A união bancária, com um papel central do Banco Central Europeu (BCE), é uma ferramenta importante para a Alemanha e para o grande capital da zona euro e fora dela. Veja-se as declarações do presidente do Deutsche Bank, Juergen Fitschen, que defendeu a criação de «bancos pan-europeus» para rivalizar com as chamadas potências emergentes como a China, a Índia, o Brasil e a Rússia, através da redução dos custos com pessoal (claro!), impulsionando a sua concentração em grandes bancos. Noutro sector, as maiores empresas de telecomunicações da UE (Deutsche Telekom, France Telecom, Telecom Itália e Telefónica), defenderam a criação de uma «rede de infra-estruturas pan-europeia e a união dos mercados nacionais» deste sector, defendendo que um tal desenvolvimento dotaria o mercado europeu de uma dimensão equivalente à dos EUA e da China. Noutra área, a Comissão Europeia anunciou que quer «acabar com os monopólios do sector ferroviário» (leia-se o transporte público ferroviário) e que apresentará uma proposta para liberalizar um sector de 60 mil milhões de euros até 2019. Para competir dentro da UE e internacionalmente, os monopólios necessitam crescer ainda mais. Tornar alguns monopólios maiores poderá implicar o desaparecimento de outros. Essa é a razão das contradições entre as grandes potências da UE.
Da ambição à realidade existe um caminho que pode ser bastante longo, penoso ou mesmo inultrapassável. Para os trabalhadores e os povos a questão central destes processos é o aumento da exploração e o retrocesso nos seus direitos, com despedimentos, redução de salários, de direitos laborais e sociais e de poder de compra. Para que tais processos se tornem possíveis, o grande capital tem de proceder a uma enorme destruição de forças produtivas e aprofundar um processo político de eliminação de direitos democráticos e redução da soberania dos estados. Não se trata de processos simples em que os trabalhadores e os povos estendem a passadeira ao grande capital. Pelo contrário, são complexos económica, política e socialmente, já que se confrontarão com a luta dos trabalhadores e dos povos.
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(1) Maior centro financeiro e de especulação de toda a UE.