Sei lá se é

Jorge Cordeiro

Se os nomes de bap­tismo pres­sa­giam algo, di­fi­cil­mente se en­con­traria ape­lido menos con­fiável do que o que dá nome ao chefe des­ta­cado pelo FMI para dar sequência à missão de des­truição do país que aquela en­ti­dade e a União Eu­ro­peia se pro­pu­seram levar a cabo. Se ra­zões mais subs­tan­tivas e fac­tuais não hou­vesse, sempre se diria que bas­tava ouvir citar um tal de Se­lassié para se in­ferir que dali nada de con­fiável pode re­sultar. Ou seja, por mais si­nuosa ar­gu­men­tação que aduza para tentar fazer crer que da re­ceita que estão a impor ao país re­sul­tará algo que não o ir­re­ver­sível de­fi­nha­mento do pa­ci­ente, de­pressa se per­cebe que, para lá dos in­te­resses e ob­jec­tivos de do­mi­nação eco­nó­mica que jus­ti­ficam a in­ge­rência, em ma­téria de re­sul­tados pro­pa­lados, a con­vicção que ali re­side não ven­cerá o ho­ri­zonte de um sei lá se é!

Fa­zendo jus ao nome, para Se­lassié e a or­ga­ni­zação que re­pre­senta é in­di­fe­rente que para o êxito do pro­cesso de ex­torsão dos re­cursos do país e de em­po­bre­ci­mento e ex­plo­ração do povo e dos tra­ba­lha­dores se vá pelo ca­minho da «re­dução da des­pesa ou do au­mento dos im­postos». O que o per­so­nagem tem por certo, tanto quanto o ape­lido lhe per­mite, é que «Por­tugal ainda tem um terço do ajus­ta­mento por fazer». Com tudo o que esta úl­tima afir­mação en­cerra de ameaça, esta sim se­gura e certa, se per­ce­berá me­lhor o que es­pe­raria o país e os por­tu­gueses se pacto de agressão, Go­verno e a po­lí­tica cor­res­pon­dente não forem der­ro­tados. E so­bre­tudo um certo ima­gi­nário sa­la­za­rista das vir­tudes da po­breza e da gran­deza da mi­séria que trans­borda, de Passos Co­elho a Portas e Gaspar, tão bem ilus­trada na­quela tese que estes, e também o tal de Se­lassié, enun­ciam quando exultam com a pre­visão po­si­tiva de uma ba­lança ex­terna que não é mais do que a ex­pressão de um país à beira da ina­nição eco­nó­mica.

Não sou­bessem os por­tu­gueses que entre Se­lassié e Passos Co­elho con­vive a mais pro­funda cum­pli­ci­dade e à per­gunta sobre se quem go­verna o país seria quem seria normal fazê-lo, a res­posta mais pro­vável bem po­deria ser sei lá se é!



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