A misteriosa expedição de N’Tchama a Bissau
A situação na Guiné-Bissau complicou-se nos últimos dias com o agravamento da repressão contra os democratas e o crescente isolamento internacional do «governo de transição» imposto no seguimento do golpe militar de 12 de Abril, liderado pelo general António Indjai.
O governo golpista exigiu no domingo «explicações» de Lisboa sobre «a expedição terrorista do capitão Pansau N’Tchama à Guiné-Bissau» e ameaçou rever as relações com Portugal. Exigência surgida depois da prisão, dias antes, daquele oficial do exército guineense, acusado de liderar o ataque a um quartel militar, nos arredores da capital, no dia 21, acção classificada como «tentativa de golpe de Estado» e cujo instigador seria Carlos Gomes Júnior, líder do PAIGC e primeiro-ministro deposto, actualmente refugiado em Portugal.
N’Tchama, que foi capturado na ilha de Bolama, tinha estado alegadamente desde Abril em Banjul, capital da Gâmbia, após viver uns anos em Portugal, onde terá frequentado um curso militar. De etnia balanta, como a maioria dos militares guineenses, já foi próximo de Indjai e tornou-se conhecido quando o seu nome foi relacionado com o «esquadrão» que executou em 2009 o então presidente Nino Vieira.
Os golpistas no poder em Bissau acusaram agora a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), em especial Portugal e Cabo Verde, «de uma política de terrorismo de Estado contra as instituições da República da Guiné-Bissau, que visa a criação de um clima de instabilidade política e social, de forma a justificar a intervenção de forças militares sob a alçada das Nações Unidas».
Já antes o governo fantoche tinha acusado Cabo Verde de ingerência nos assuntos internos guineenses, em resposta a declarações do presidente Jorge Fonseca condenando os repetidos actos de violência e a continuada intervenção dos militares no processo político da Guiné-Bissau. O dirigente cabo-verdiano considerou que «sem uma intervenção das Nações Unidas, forte, decidida e interessada, a situação pode deteriorar-se e, depois, poderá não haver um controlo de possíveis soluções para o país» no interesse do povo guineense.
Para as forças patrióticas que se opõem aos golpistas de Indjai – suportados pela Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental (Cedeao), em particular pelo Senegal, Costa do Marfim e Burkina Fasso, próximos da França –, o estranho ataque de 21 de Outubro ao quartel de uma unidade de elite das forças armadas não passou de uma «inventona» das autoridades «de transição».
Dois blogues (ditaduradoconsenso.blogspot.pt e pasmalu.wordpress.com) defendem que o «golpe de estado falhado» foi uma tosca montagem das autoridades de Bissau, que apresentaram à imprensa seis cadáveres de «assaltantes», sem armas, todos da etnia felupe, que na verdade eram os corpos de jovens assassinados noutra zona do país e transportados para a entrada do quartel.
A encenação terá sido feita com o objectivo de, internamente, desencadear nova onda de repressão contra os apoiantes do PAIGC e, no plano externo, justificar a ajuda económica, diplomática e militar de alguns países da subregião, que já não escondem o cansaço pelo foco de instabilidade e de permanentes complicações em que se transformou a Guiné-Bissau.
Na verdade, na última semana sucederam-se em Bissau prisões, operações de busca em bairros da cidade, o cerco à zona das representações diplomáticas, incluindo as Nações Unidas e a União Europeia (para evitar pedidos de asilo), ataques a sedes do PAIGC e agressões a democratas. Como Iancuba Indjai, líder do Partido da Solidariedade e Trabalho (PST) e da Frenagolpe – uma plataforma de organizações e personalidades que se opõem ao golpe de 12 de Abril –, raptado por militares, espancado e largado numa mata em Bula. Ou como o advogado Silvestre Alves, dirigente do Movimento Democrático Guineense (MDG), sequestrado no centro da capital por soldados fortemente armados e também sovado e abandonado numa estrada entre a capital e Quinhamel.
Razão têm pois os que receiam que a ditadura militar chefiada por Indjai, com fortes ligações aos traficantes regionais de droga e com um «governo de transição» corrupto e incompetente, cada vez mais isolado internacionalmente, arraste a Guiné-Bissau para uma situação em que a própria existência como Estado soberano esteja em perigo.
Esperando o apoio inadiável da comunidade internacional (Nações Unidas, União Africana, Cedeao e CPLP incluídas), os democratas e todos os patriotas guineenses continuam a resistir e a lutar pelo restabelecimento da legalidade constitucional, pela paz e democracia, pela unidade nacional, pela defesa da independência tão duramente conquistada.