Van Zeller pisa o risco e estatela-se

Francisco Van Zeller deixou de integrar a Comissão Especial de acompanhamento ao processo de privatização dos Estaleiros de Viana do Castelo, a que presidia, depois das indecorosas e ofensivas palavras que proferiu sobre os trabalhadores e suas estruturas sindicais.

Este desfecho, conhecido sábado passado, ocorreu depois de o PCP ter confrontado a meio da semana no Parlamento o ministro da Defesa com a gravidade daquelas declarações do ex-patrão da CIP. Foi no debate da apreciação parlamentar requerida pela bancada comunista ao decreto-lei que aprova a reprivatização do capital social dos Estaleiros.

Depois de saudar os trabalhadores presentes nas galerias do hemiciclo, Honório Novo, dirigindo-se-lhes, afirmou que para o PCP nenhum deles é «mão-de-obra idosa, antiga e desactualizada», como afirmara insultuosamente Francisco Van Zeller. Este foi aliás o mote para desafiar o ministro da Defesa a pronunciar-se sobre outra afirmação de igual calibre proferida por aquela sinistra figura. Que o vencedor da privatização «vai ter que resolver o problema do sindicato comunista, enquistado e que é muito violento», disse Van Zeller. Daí o repto a Aguiar Branco para que este esclarecesse se estas declarações são compatíveis com o exercício público de cargos de nomeação governamental».

Embora dizendo não se rever naquelas afirmações, o titular da pasta da Defesa pouco mais adiantou e, desvalorizando objectivamente a gravidade do que fora dito, alegou que o trabalho daquela comissão «não é de avaliação de mérito» mas «puramente» de «acompanhar o procedimento» do processo de privatização dos Estaleiros.

Não é a natureza da comissão que importa, contrapôs ainda Honório Novo. «O que importa perceber é se aquelas declarações são compatíveis com o exercício de cargos públicos, num país democrático, sejam os cargos públicos quais forem», afirmou o deputado do PCP, antes de lançar um repto final ao ministro: «se eu fosse a si, em defesa do bom nome do regime, demitia o engenheiro Van Zeller – e fazia-o já hoje».

Os acontecimentos subsequentes acabaram por trazer justiça a este lamentável caso.

Repúdio geral

Repúdio por aqueles declarações manifestara também a CGTP-IN numa carta ao ministro da Economia e do Emprego onde afirma que elas «revelam intolerância, são violentas e são incompatíveis com o regime democrático e constitucional vigente». Considerando-as «inaceitáveis» e que «deixam a nu o perfil de quem as profere», tais afirmações são ainda na perspectiva da central sindical esclarecedoras do tipo de pessoas que o Governo designou e mantém em funções tão delicadas como são os processo de privatização, em que o compadrio, o favoritismo e a corrupção são factores que devem merecer uma atenção muito especial».

Com «profunda indignação» reagiu igualmente a Fiequimetal às palavras de Van Zeller. «Vomitam ódio contra os trabalhadores dos Estaleiros de Viana», acusa, em comunicado, onde informa contudo não ter ficado surpreendida face ao que considera ser o «comportamento trauliteiro e antidemocrático» que caracterizou o percurso daquele que foi patrão, gestor e presidente da CIP.



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