O interesse dos contribuintes
Por denúncia do Sindicato dos Enfermeiros Portugueses o país ficou a saber que estão a ser contratados enfermeiros a receber 3,96€ à hora! O governo, em vez de abrir concursos para a contratação destes profissionais – indispensáveis ao SNS - procedeu à realização de «concursos» junto de empresas de aluguer de mão-de-obra tendo como único critério o valor mais baixo proposto. O resultado prático deste paradigmático exemplo da política de exploração e empobrecimento que corre por aí, é o de que estes trabalhadores levariam ao final do mês para casa pouco mais do que metade do salário mínimo nacional. As referidas empresas privadas, cuja única mercadoria que têm para vender é a força de trabalho dos outros, ganhariam o seu quinhão: o valor referência do «concurso» foi de 10€ por hora, pelo que é fácil fazer as contas.
Questionado o responsável da ARS do distrito de Lisboa nomeado pelo governo, este justificou com a necessidade de defender o «interesse dos contribuintes». No limite, segundo este esclarecedor critério, os «interesses dos contribuintes» só seriam cabalmente defendidos quando cada um destes trabalhadores aceitasse trabalhar... de borla.
O cinismo deste exemplo não pode deixar de ser vivamente denunciado: invocam o «interesse dos contribuintes» para levar ao limite a exploração destes enfermeiros, como se não fosse obrigação do Estado – cumprido a própria Constituição da República – respeitar em primeiro lugar os direitos dos trabalhadores; em nome do «interesse dos contribuintes» avançam com a destruição do serviço nacional de saúde, reduzindo valências, encerrando serviços, aumentando os custos de acesso, no fundo retirando esse direito ao povo português, ou seja, aos tais contribuintes que dizem querer defender; mas esquecem, ou melhor, escondem os tais «interesses dos contribuintes», nas grandes negociatas que fazem com os grupos económicos entregando-lhes os recursos que deveriam estar ao serviço do direito à saúde do nosso povo.
No fundo, a utilização deste conceito visa esconder que os verdadeiros interesses que este governo - tal como os seus antecessores- serve, são os interesses do capital. Ou alguém se lembrou dos «interesses dos contribuintes» quando «nacionalizaram» os prejuízos do BPN, ou transferiam mais de 5 mil milhões de euros para o BCP e o BPI, ou fecharam os olhos à fuga aos impostos do grupo Jerónimo Martins? Só para citar três, de uma longa lista de criminosos exemplos.