3,96

João Frazão

3,96€, soube-se esta semana, é o montante que os enfermeiros agora contratados para estabelecimentos de saúde ligados à Administração Regional de Saúde de Lisboa e Vale do Tejo, vão levar para casa por cada hora que trabalhem.

3,96€ é muito mais do que três moedas de euro, e mais uma de cinquenta, duas de vinte, uma de cinco e uma de um cêntimo, ou qualquer outra combinação, talvez seja mais fácil voltar-me de troco quatro cêntimos que eu tenho aqui duas moedinhas de dois euros, que assim nem vai com os bolsos tão carregados.

3,96€ é, de facto, uma das mais cabais provas, não do falhanço, mas da injustiça, da iniquidade da política de direita, agora na sua expressão mais brutal do Pacto de Agressão.

3,96€ é a concretização prática do objectivo central desse projecto ultrajante, o de empobrecer o povo e o país. Quem receba essa quantia, levará cerca de 300€ para casa ao final de um mês de trabalho. Ora se o limiar da pobreza é de 434€, aqui temos mais uns quantos para engrossar os já quase meio milhão de trabalhadores portugueses que, apesar de terem trabalho, quase sempre a tempo inteiro, de terem um salário regular, não conseguem ganhar o suficiente para sair desse patamar que deveria ser considerado o mínimo aceitável.

Mas 3,96€ é também a prova provada de que se cumpre o objectivo de transferir para o capital e para os grupos económicos as riquezas do país e o esforço de quem trabalha, acentuando a sua exploração. Porque a ARS contratou uma empresa a quem paga um valor superior, dando assim a ganhar uma parte do bolo à iniciativa privada, essa vaca sagrada que é preciso proteger a todo o custo!

3,96, espécie de coordenadas para o desastre, não conseguirá ser, sequer, numa escala de 1 a 20, o nível de preocupação desta gente com os utentes do SNS. Quem oferece um tão mísero salário, acrescendo o facto de estes serem trabalhadores qualificados, demonstra bem o desprezo que nutre pela dignidade humana.

E, porque no espaço que aqui nos cabe, não se pode ser exaustivo sobre todas as dimensões de uns tão parcos 3,96€, apenas se acrescentará que eles também provam que, na intensa luta que separa patrões e trabalhadores por conta de outrém, o Estado, mesmo quando poderia impor a defesa de direitos mínimos para quem trabalha, não o faz, não se conseguindo afastar do seu papel de instrumento para a imposição coerciva do domínio de uma classe sobre a outra. É, já diriam Marx e Lenine, da sua natureza.



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