Falência de classe

Jorge Cadima

A resposta é urgente. Em Portugal, a próxima grande batalha é a greve geral de dia 22

Durante meses disseram-nos que não se podia mencionar uma renegociação da dívida e que qualquer desvio ao cumprimento dos programas da troika levaria inexoravelmente à falência e à catástrofe. E eis que na semana passada a Grécia formalizou a sua incapacidade de pagar – naquilo que o Financial Times (9.3.12) descreveu como «o maior incumprimento soberano de sempre». É a consequência de dois anos de políticas da troika, que destruíram a economia grega, levaram parte importante da população para a pobreza e fizeram explodir a sua dívida pública – tornando impossível cumprir as respectivas obrigações.

A formalização do incumprimento grego tomou a forma de um acordo com a maioria dos credores privados. A fazer fé nos títulos dos jornais, esta reestruturação da dívida grega implicou perdas importantes para os credores privados – o chamado corte de cabelo. Em vez de falar em catástrofe, os dirigentes da UE do grande capital elogiaram o acordo. Afirma Sarkozy: «estou muito feliz que tenha sido encontrada uma solução para a crise grega. [c] Hoje o problema está resolvido» (Daily Telegraph, 10.3.12). O ministro das Finanças alemão, Schäuble, declarou tratar-se duma «oportunidade histórica» para a Grécia (D.Telegraph, 9.3.12). Mas o Financial Times tem outra opinião: «apesar do optimismo, os mercados estão já a apostar que a Grécia vai entrar de novo em incumprimento no futuro» (9.3.12). Compreender estes aparentes desencontros exige, como de costume, uma óptica de classe.

 

Um economista do sistema – Nouriel Roubini – desvenda parte do mistério, num artigo no Financial Times (7.3.12): «a verdade é que os credores privados obtiveram um acordo bem doce, ao mesmo tempo que a maioria dos prejuízos actuais e futuros foram transferidos para os credores oficiais [públicos – NT]. Porquê? O gcorte de cabeloh de €110 mil milhões nos títulos detidos por privados é acompanhado por um aumento de €130 mil milhões na dívida grega para com credores oficiais. Uma parte significativa deste aumento da dívida oficial da Grécia destina-se a subsidiar [bail out] os credores privados [c]. Empréstimos de pelo menos €25 mil milhões do Fundo de Estabilidade Financeira Europeu ao governo grego destinam-se a recapitalizar os bancos, ao abrigo dum esquema que mantém esses bancos em mãos privadas e permite aos seus accionistas comprar quaisquer injecções de capital público com garantias de preços adocicados. [c] Com três quartos da dívida grega detida por credores oficiais em 2014, a dívida pública grega terá sido quase inteiramente socializada. Os credores oficiais ficarão a arcar com a maioria dos enormes prejuízos ulteriores que continuam a ser prováveis no futuro, dados os níveis ainda insustentáveis da dívida da Grécia». Ou seja, e sempre nas palavras de Roubini: «A realidade é que a maioria dos ganhos nos tempos de vacas gordas [...] foram privatizados, enquanto a maioria dos prejuízos estão agora socializados. Serão os contribuintes dos credores oficiais da Grécia, e não os detentores privados dos títulos, que acabarão por pagar a maioria dos prejuízos».

 

Roubini tem o mérito de falar claro. Mas há mais. A principal vítima de tudo isto são os trabalhadores e o povo grego, que no curto espaço de dois anos, viram os seus níveis salariais cortados em muitos casos para metade pela «Europa connosco», os postos de trabalho evaporarem-se e os direitos sociais e laborais destruídos pela «coesão económica e social». São centenas de milhares de pequenos comerciantes e industriais gregos que já faliram ou estão prestes a sucumbir às negociatas de classe dos «nossos parceiros europeus». Quanto aos «credores privados» – ou seja a grande finança internacional que teve um papel central na explosão da crise – ganha também com as linhas de crédito ilimitado a taxas de 1% que, desde há vários meses, o BCE lhes atribui, deixando em troca como «garantias» títulos da dívida grega cujo valor foi agora tosquiado. Ganha o grande patronato que vê regressar os tempos de trabalho de sol a sol e as novas praças de jorna do século XXI. Ganha o seu instrumento de classe – essa UE imperialista que com os novos tratados se transforma num centro de comando de tipo colonial para as distantes «províncias» periféricas, habitadas por PIIG.

 

O nosso País é a próxima grande vítima (veja-se Evans-Pritchard no Telegraph de 8.3.12). Mas se conseguirem vergar os trabalhadores da periferia, não tardarão em tentar também reconduzir os trabalhadores das grandes potências europeias ao século XIX, em nome da «modernidade» deste capitalismo decrépito. A resposta é urgente. Em Portugal, a próxima grande batalha é a greve geral de dia 22.



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