Escândalo abala Eslováquia
Com eleições legislativas antecipadas para o próximo sábado, 10, um escândalo de corrupção política, revelado pelo relatório «Gorila», desencadeou uma série de manifestações populares que estão a abalar a sociedade eslovaca e fazem antever alterações no xadrez partidário do país.
Os protestos anti-corrupção prosseguem em vésperas de eleições
Em finais de Dezembro, um jornalista canadiano radicado na Eslováquia revelou a existência do chamado «relatório Gorila», que implica destacados membros da elite política, em particular os cristãos-democratas (SDKÚ), do actual ministro das Finanças e antigo primeiro-ministro, Mikulás Dzurinda, que, em coligação com outros partidos de direita, governou o país de 1998 a 2006.
O relatório, trazido a público por Tom Nicholson, revela ligações entre diversos grupos económicos e altos responsáveis políticos. Baseado em gravações de diversas conversas, nomeadamente entre um dirigente da empresa de investimento Penta e proeminentes figuras políticas da época, como Jirko Malchárek, ministro da Economia no governo de Dzurinda, ou Anna Bubeníková, ex-directora do Fundo do Património Nacional, entretanto demitida pela primeira-ministra, Iveta Radičová, também ela cristã-democrata.
Nas conversas são mencionados montantes milionários pagos a políticos e a partidos em troca de favores no processo de privatização de importante empresas, em particular na área da energia e transportes. Entre os casos de privatização considerados mais danosos para o Estado está o da empresa estatal de gás, vendida parcialmente em 2002 à alemã Ruhrgas e à francesa Gaz de France.
Apesar de ser do conhecimento da polícia desde 2006, a autenticidade documento começou por ser posta em dúvida aquando da sua divulgação. Depois, foi o próprio ministro do Interior, Daniel Lipsic, que confirmou a sua existência, o que foi reforçado pela demissão de vários políticos visados no relatório. Mais tarde, a sua veracidade foi reconhecida pelo director dos serviços de informações eslovacos (SIS), Karol Mitrík.
Povo exige justiça
Desde que o escândalo rebentou, dezenas de manifestações com milhares de pessoas tiveram lugar em várias cidades do país, a começar pela capital Bratislava, onde alguns protestos acabaram em violentos confrontos com a política, de que resultaram vários feridos.
A primeira acção teve lugar em 27 de Janeiro, juntando mais de duas mil pessoas. A partir daí os protestos repetiram-se todas as semanas, alargando-se a várias outras cidades, como Kosice ou Nitra.
Os manifestantes exigem a suspensão de todos os políticos referidos no relatório e uma investigação para apurar responsabilidades e julgar os crimes. Para tal reclamam que o parlamento retire a imunidade aos políticos envolvidos. Alguns grupos vão ainda mais longe exigindo a dissolução dos partidos governamentais União Democrática da Eslováquia (SDKU), Movimento Democrata-Cristão (KDH) e os Húngaros Moderados (Most-Hid).
É de esperar que os partidos conservadores actualmente no poder sejam penalizados nas urnas, muito em particular o SDKÚ de Dzurinda, e que o eleitorado venha a beneficiar os sociais-democratas (SMER) de Robert Fico, que já chefiou o governo entre 2006 e 2010.
Outro partido, o SaS (Liberdade e Solidariedade), inexistente à época dos factos, e que provocou a convocação de eleições antecipadas rompendo com o governo de Iveta Radičová, poderia igualmente capitalizar o descontentamento popular com o caso «Gorila», assunto que, aliás, tem vindo a explorar habilmente. Todavia, também este partido ultraliberal se viu ultimamente enredado num escândalo semelhante, e a sua sede foi alvo dos protestos dos manifestantes, na última sexta-feira, 2.