Acto de vassalagem

Pedro Guerreiro

Sendo na sua natureza capitalista, o processo de «integração europeia» – a União Europeia – não é reformável

À margem do Conselho Europeu, que se realiza a 1 e 2 de Março, será assinada – sem pompa nem circunstância – a proposta de «Tratado sobre Estabilidade, Coordenação e Governação na União Económica e Monetária», que terá ainda de ser ratificado em cada um dos países signatários.

Uma vez mais, ocultando os inaceitáveis objectivos deste tratado e as suas intoleráveis consequências para o País, procura-se impor aos trabalhadores e ao povo português o reforço do domínio político e económico das grandes potências da UE e dos seus monopólios, colocando Portugal sob a permanente sujeição aos seus ditames.

Esta proposta de tratado, que, pelos seus propósitos, se deveria chamar acto de vassalagem, exige a inscrição dos limites de défice orçamental e de dívida pública estabelecidos pelo Pacto de Estabilidade na Constituição da República ou em lei equivalente e, em caso de incumprimento, a imposição automática de «mecanismos de correcção» – isto é, de medidas determinadas pela «Comissão Europeia» – e sanções financeiras (que só poderão ser travadas por uma «maioria qualificada» de estados).

Este autêntico acto de subordinação determina ainda a imposição de «programas de reformas estruturais» (leis laborais, salários, reformas e pensões, serviços públicos, segurança social, privatizações,…) vinculativos, em caso de défice excessivo, e a apresentação antecipada ao Conselho e à Comissão – isto é, à União Europeia – dos planos de emissão de dívida pública nacional.

Esta nova proposta de tratado representa o prosseguimento do processo de integração capitalista europeia (que as grandes potências e os seus monopólios têm vindo a dirigir a passo acelerado desde 1986), sendo a «resposta» ao aprofundamento da sua crise, à agudização das suas insuperáveis contradições – que são inerentes ao capitalismo.

Quanto maior o poder político e económico das instituições supranacionais da União Europeia, dominadas e ao serviço dos interesses das grandes potências e dos seus monopólios, maior será a consciência dos trabalhadores e dos povos quanto ao carácter de classe desta «integração» e das suas políticas e a resistência e luta em prol da satisfação das suas necessidades e anseios, dos seus direitos, da sua soberania nacional.

Quanto maior a urgência de domínio económico, de mais intensa exploração e espoliação dos trabalhadores e dos povos por parte do capital monopolista das grandes potências da União Europeia, maior a sua necessidade e sofreguidão por instrumentos que imponham e assegurem o domínio político e o esmagamento da soberania dos povos e da independência dos estados.

Sendo na sua natureza capitalista, o processo de «integração europeia» – a União Europeia – não é reformável. Como a realidade demonstra – Mercado Único, União Económica e Monetária, tratado após tratado, política após política –, cada etapa no processo de integração capitalista europeia teve e terá profundas e gravosas consequências para os trabalhadores e os povos e representou e representará maiores imposições e condicionamentos externos e acrescidas dependência e subordinação de Portugal aos interesses do capitalismo monopolista.

A grave situação do País exige uma ruptura com a política que está na sua origem, ou seja, a política de direita realizada ao longo dos últimos 36 anos por PS, PSD e CDS.

O País precisa de uma política patriótica e de esquerda, uma política que rompa com a política de direita realizada a nível nacional e com os seus sustentáculos externos, nomeadamente com uma União Europeia ostensiva e cada vez mais federalista, neoliberal e militarista.





Mais artigos de: Opinião

À medida

Pedro Passos Coelho arranchou um Governo à sua dimensão – e oito meses apenas sobre a tomada de posse, já o todo e os seus vários avultam obra. Começando pelo ministro das Finanças, o impressivo Vítor Gaspar, tudo nele é personalidade: o andar pausado, o...

Empobrecimento forçado

Nove meses passados da assinatura do pacto de agressão, a aplicação das suas medidas está a representar um verdadeiro massacre às condições de vida e de trabalho das classes trabalhadoras e populares. Uns são atirados para o empobrecimento forçado, outros aprisionados a uma espiral de pobreza e de exclusão social. O País é lançado para o retrocesso económico e social.

«Êxitos» de uns<br> desgraça de muitos

A muito mediatizada vinda da troika para avaliar da diligência e capacidade do Governo em desgraçar a vida do País e dos portugueses parece vir confirmar, por inteiro, aquele dito popular que dá por adquirido «ser o contentamento de uns, a desgraça de muitos outros». Pelo que...

«Seguro de vida»

Estamos a viver novo episódio da «oposição construtiva» do PS ao Governo PSD/CDS e à troika estrangeira, a quem, publicamente, Seguro fez saber das suas «discordâncias» quanto aos «prazos do programa de assistência» e ao «peso da...

O atoleiro e o fundamentalismo

O New York Times dedica um editorial ao Afeganistão (18.02.2012). Embora a intenção não seja essa, cada linha desse editorial descreve o atoleiro em que o imperialismo ali se meteu. Em dez anos, 1700 americanos mortos (e quantas dezenas de milhares de afegãos?), 450 milhares de...