Trabalhadores respondem à ofensiva de patrões, governo e capital financeiro

Cerrada luta de classes na Grécia

Mi­lhares de gregos cum­priram na terça-feira, 17, uma pa­ra­li­sação na re­gião de At­tica e ma­ni­fes­taram-se em Atenas contra a es­ca­lada na ofen­siva an­ti­la­boral. Dois dias de­pois, o PAME in­ter­rompeu a farsa ne­go­cial que os sin­di­catos re­for­mistas e o pa­tro­nato le­vavam a cabo e chamou os tra­ba­lha­dores a re­cru­descer a luta vi­sando uma nova greve geral no início de Fe­ve­reiro.

O PAME apela à pre­pa­ração de uma nova greve geral em Fe­ve­reiro

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A marcha que per­correu o centro da ca­pital grega até às portas do par­la­mento foi ex­pressão da gran­diosa pa­ra­li­sação con­vo­cada pela Frente Mi­li­tante de Todos os Tra­ba­lha­dores (PAME) na re­gião de At­tica, jor­nada se­guida, à úl­tima hora, por outra cen­tral sin­dical, a Con­fe­de­ração Geral do Tra­balho (GSEE), con­fron­tada com a adesão dos seus fi­li­ados.

De acordo com a EFE, 80 por cento dos tra­ba­lha­dores da re­gião cum­priram a pa­ra­li­sação. Duas das três li­nhas de me­tro­po­li­tano de Atenas não abriram as portas e a ter­ceira só o fez no início e no fim do dia, ce­nário idên­tico ao ocor­rido nos res­tantes ser­viços de trans­portes.

Os portos do Pireu, Ra­fina e La­vrio es­ti­veram to­tal­mente inac­tivos, assim como es­ta­be­le­ci­mentos de en­sino e uni­dades de Saúde. Na em­presa si­de­rúr­gica grega de As­própyrgos, nos ar­re­dores da ca­pital, os 400 ope­rá­rios man­ti­veram a pa­ragem que cum­prem há mais de dois meses, mas, no dia 17, foram se­cun­dados pelos ca­ma­radas das uni­dades de Volos, para onde a em­presa trans­feriu parte da pro­dução com o ob­jec­tivo de fazer frente à greve dos me­ta­lúr­gicos.

Em Volos, apesar da pressão da ad­mi­nis­tração e do apa­relho re­pres­sivo e ju­rí­dico es­tatal, os tra­ba­lha­dores pa­raram a pro­dução, tal como já ha­viam feito a 12 de Ja­neiro em so­li­da­ri­e­dade para com os gre­vistas de As­própyrgos.

Ad­vo­gados e jor­na­listas, que pro­lon­garam o pro­testo até ao final do dia 18, também se uniram à luta.

A greve em At­tica ocorreu jus­ta­mente quando che­gavam a Atenas os re­pre­sen­tantes do FMI e da UE para, com o pri­meiro-mi­nistro Lucas Pa­pa­demos, con­cer­tarem mais me­didas an­ti­la­bo­rais e novos cortes so­ciais.

Na sexta-feira, 20, também aterrou na Grécia o di­rector do Ins­ti­tuto de Fi­nanças In­ter­na­ci­o­nais, re­pre­sen­tante da banca pri­vada, cujo ob­jec­tivo era acordar os termos do perdão de 100 mil mi­lhões de euros da dí­vida grega. Charles Dal­lara partiu no dia se­guinte sem no­vi­dades, mas ga­rantiu à AFP que as con­versas com Pa­pa­demos vão pros­se­guir via te­le­fone.

FMI, UE e o grande ca­pital fi­nan­ceiro exigem ao go­verno he­lé­nico que aplique mais me­didas de aus­te­ri­dade, sem as quais não será con­ce­dido ao país um novo em­prés­timo de 130 mil mi­lhões de euros, o qual terá de ser des­blo­queado até 20 de Março, data em que a Grécia tem de pagar 14,4 mil mi­lhões de euros de juros da dí­vida.

Na sua pá­gina na In­ternet, o Par­tido Co­mu­nista da Grécia (KKE) lembra que as me­didas an­ti­la­bo­rais que a troika es­tran­geira e a troika na­ci­onal (PASOK, Nova De­mo­cracia e LAOS) pre­tendem im­ple­mentar in­cluem maior fle­xi­bi­li­zação da le­gis­lação la­boral, re­dução em 150 a 200 euros dos sa­lá­rios e abo­lição dos sub­sí­dios no sector pri­vado, mais pri­va­ti­za­ções e au­mento da carga fiscal, e sa­li­enta que, nas úl­timas se­manas, os em­pre­sá­rios foram be­ne­fi­ci­ados com novos be­ne­fí­cios e isen­ções.

O KKE lembra ainda que mi­lhares de fa­mí­lias já não estão a pagar a so­bre­taxa apli­cada na fac­tura da elec­tri­ci­dade. No final da ma­ni­fes­tação em Atenas, um di­ri­gente sin­dical dos me­ta­lúr­gicos e membro da di­recção do PAME lem­brou que as or­dens do go­verno para que se efec­tuem cortes de for­ne­ci­mento de elec­tri­ci­dade às fa­mí­lias de­ve­doras vão en­con­trar obs­tá­culos por parte dos tra­ba­lha­dores.

 

Farsa in­ter­rom­pida

 

Já no dia 19, quinta-feira, o PAME in­ter­rompeu o diá­logo entre o GSEE e a con­fe­de­ração pa­tronal SEV que de­corria na sede da Con­fe­de­ração Grega de Pe­quenas e Mé­dias Em­presas e co­mer­ci­antes. Para o PAME, tra­tava-se de uma farsa cujo único pro­pó­sito era «se­pultar os di­reitos la­bo­rais e a ne­go­ci­ação co­lec­tiva e impor sa­lá­rios de mi­séria».

A cen­tral sin­dical de classe lem­brou ainda que a reu­nião era tanto mais inútil e en­ga­na­dora quanto, um dia antes, o mi­nistro do Tra­balho, Kou­trou­manis, de­clarou que se sin­di­ca­listas e pa­trões não con­cluíssem um acordo que agra­dasse ao go­verno, este iria avançar com as me­didas por sua conta.

O PAME chamou ainda os tra­ba­lha­dores a forçar dentro dos res­pec­tivos sin­di­catos o in­cre­mento das ac­ções de pro­testo, vi­sando a cons­trução de uma grande greve geral no prin­cípio de Fe­ve­reiro.

A acção mo­tivou uma feroz re­acção do pa­tro­nato. O SEV «apelou a todas as forças po­lí­ticas e em par­ti­cular às da es­querda de­mo­crá­tica para que con­denem o Par­tido Co­mu­nista e as suas prá­ticas, com as quais nos pre­tendem con­duzir, através do PAME, para um pe­ríodo vi­o­lento».

Em res­posta, o KKE con­si­derou na­tural o ataque do pa­tro­nato tendo em conta a sua po­sição de classe, e lem­brou que «o que pre­tende, com os seus par­tidos e sin­di­catos co­la­bo­ra­ci­o­nistas é sub­meter os tra­ba­lha­dores».

Os co­mu­nistas ga­ran­tiram que não temem as ame­aças pa­tro­nais e ape­lidou os ca­pi­ta­listas de «pa­ra­sitas que im­pedem o de­sen­vol­vi­mento do país».

Já o PAME re­cordou que os lí­deres do GSEE, do SEV e a co­li­gação go­ver­na­mental PASOK-ND-LAOS falam em vi­o­lência ao mesmo tempo que im­põem «o em­po­bre­ci­mento vi­o­lento do povo e a sub­ju­gação dos tra­ba­lha­dores ao ape­tite do ca­pital».



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