Programa

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José Viana da Mota
SIN­FONIA “À PÁTRIA
1.º an­da­mento

Esta sin­fonia é o re­sul­tado de um gesto cri­a­tivo pa­trió­tico de al­guém que es­teve longo tempo afas­tado do seu torrão. Uma ho­me­nagem mu­sical à pá­tria lu­síada.

Ad­mi­rador in­con­di­ci­onal de Ca­mões, Viana da Mota ins­pira-se no Poeta para cons­truir o seu edi­fício sin­fó­nico.

Sabe-se, aliás, que desde a me­ni­nice de­sejou es­crever mú­sica sobre versos do Poeta, tendo che­gado a compor aos 12 anos uma pe­quena peça in­ti­tu­lada Armas e Le­tras ba­seada em versos de Os Lu­síadas. Anos mais tarde, com 27 anos, compõe esta sin­fonia em quatro an­da­mentos sobre versos de Luís Vaz cui­da­do­sa­mente se­lec­ci­o­nados de modo a es­ta­be­lecer uma co­e­rência te­má­tica. Logo aqui per­ce­bemos estar di­ante de mú­sica de ideias. Uma so­no­ri­dade sin­fó­nica que se ar­qui­tecta de modo ra­ci­onal, obe­de­cendo a um es­quema pre­vi­a­mente pen­sado. Isto em 1895, num país onde era moda es­crever mú­sica dei­xando-se levar pela ins­pi­ração ca­sual, exibia uma nova ati­tude com­po­si­tiva, um novo modo de re­a­li­zação da arte mu­sical es­tri­bado no tra­ve­ja­mento ló­gico – ma­te­ma­ti­zação do gesto cri­a­tivo.

O Al­legro he­róico com que se inicia a obra é um an­da­mento es­sen­ci­al­mente bi­te­má­tico — muito em­bora haja também um tema de tran­sição e ou­tras pe­quenas va­ri­a­ções te­má­ticas. São os ins­tru­mentos de corda, vi­o­linos, vi­olas, vi­o­lon­celos, que apre­sentam o pri­meiro tema ou aquilo a que também po­demos chamar a pri­meira ideia mu­sical. O se­gundo tema prin­cipal, de acen­tuado li­rismo, em con­traste com o pri­meiro, é in­tro­du­zido por um ins­tru­mento de sopro – algo que me pa­rece aco­lher uma su­gestão do pró­prio poema ins­pi­rador: a pri­meira trompa, apoiada nas res­tantes três trompas que com­põem a or­questra exi­gida pela par­ti­tura. Tal como todos os ou­tros, este 1.º an­da­mento é a ex­pressão mu­sical de de­ter­mi­nados versos de Os Lu­síadas, eleitos como fonte ins­pi­ra­dora. No caso ver­tente, a mú­sica ex­prime os se­guintes versos:

 

Dai-me agora um som alto e su­bli­mado,

Um es­tilo gran­dí­loquo e cor­rente;

[…]

Dai-me uma fúria grande e so­nora,

E não de agreste avena, ou frauta ruda,

Mas de tuba ca­nora e be­li­cosa,

Que o peito acende e a cor ao gesto

muda.

(Lu­síadas, I-4,5)

 

A sin­fonia À Pá­tria, foi es­treada no Porto, no ano de 1897, dois anos de­pois de ter sido com­posta, e pa­rece ter sido a pri­meira sin­fonia por­tu­guesa a ser edi­tada (foi-o no Brasil em 1908). É a prin­cipal obra com­posta por José Viana da Mota. Com ela, ou prin­ci­pal­mente com ela, o pi­a­nista com­po­sitor ad­quire, na com­pa­nhia de Al­fredo Keil (cu­ri­o­sa­mente al­guém também li­gado à cul­tura alemã), o es­ta­tuto de fun­dador da «es­cola na­ci­o­na­lista de ins­pi­ração fol­cló­rica», para uti­li­zarmos a de­sig­nação pro­posta por Tomás Borba e Lopes Graça.

 

Giu­seppe Verdi
AIDA
Cena final do 3.º acto

Uma gala de ópera é tra­di­ci­o­nal­mente cons­ti­tuída por aber­turas, árias e du­etos, ou seja, partes de um todo em que, de um modo geral, há uma pa­ragem no en­ca­de­a­mento da acção dra­má­tica para nos de­termos num de­ter­mi­nado ele­mento que pode ser, por exemplo o es­tado de es­pí­rito de uma per­so­nagem, o sen­ti­mento que a anima, as dú­vidas com que se de­bate, etc. Uma das ori­gi­na­li­dades deste es­pec­tá­culo de aber­tura da Festa do “Avante!” con­siste na in­tro­dução desta grande cena em que, pelo con­trário, as­sis­timos a uma vi­o­lenta su­cessão de acon­te­ci­mentos que marcam o de­sen­vol­vi­mento da acção te­a­tral.

Trata-se de uma sequência de mo­mentos de par­ti­cular in­ten­si­dade dra­má­tica que, no seu todo, cons­ti­tuem uma cena cul­mi­nante da ópera. Se pre­ten­dês­semos ex­plicar o que é o génio ver­diano em menos de dez mi­nutos, ad­mi­tindo que tal seja ex­pli­cável, di­fícil seria en­con­trar me­lhor ma­te­rial exem­pli­fi­ca­tivo. Todo o seu sen­tido de te­a­tra­li­dade, o seu inato ta­lento de ar­qui­tecto de mú­sica cé­nica, a clara noção e or­ga­ni­zação dos efeitos dra­má­ticos pre­ten­didos, a mes­tria na gestão do tempo, a ex­pres­si­vi­dade emo­ci­onal, a forma como sen­ti­mentos e emo­ções são mu­si­cados através do canto assim como das so­no­ri­dades or­ques­trais, tudo isso aqui en­con­tramos. Não sem al­guma cru­el­dade, julgo poder-se afirmar haver mais drama mu­sical nestes mi­nutos ver­di­anos do que em toda a obra ope­rís­tica de al­guns ou­tros com­po­si­tores no­ta­bi­li­zados.

Nesta cena as­sis­timos ao con­flito que actua como ele­mento con­dutor de toda a acção e em que ger­mina o drama. A im­pos­si­bi­li­dade de con­ci­liar duas pai­xões: o amor à pá­tria e o amor con­jugal. Con­tra­dição também entre o in­te­resse pú­blico, co­lec­tivo, e o in­te­resse pri­vado, pes­soal e ín­timo.

Neste final de acto Amo­nasro (ba­rí­tono), pai de Aida que nin­guém sabe ser o rei etíope, evoca o amor à pá­tria e os su­pe­ri­ores in­te­resses da li­ber­tação do seu povo em guerra com os egíp­cios para tentar con­vencer a filha a servir-se do amor que a une a Ra­damés, chefe do ini­migo exér­cito Egípcio, para obter pre­ciosa in­for­mação sobre a ba­talha que se avi­zinha; a con­fi­ança que o amor gera faz com que, sem he­si­tação, Ra­damés re­vele o se­gredo mi­litar à sua amada; nesse mo­mento Amo­nasro que, es­con­dido, es­cuta a con­versa, apa­rece e re­vela a sua ver­da­deira iden­ti­dade.

Ra­damés per­cebe ter traído in­vo­lun­ta­ri­a­mente a pá­tria egípcia e, em de­ses­pero, diz estar de­son­rado (“Io son di­so­no­rato…”). Amo­nasro e Aida que já antes lhe pe­dira para ir viver na sua com­pa­nhia longe do Egipto onde ela é es­crava, tentam con­vencê-lo a fugir, ce­dendo ao amor con­jugal em de­tri­mento do amor pá­trio. Mas en­tre­tanto chega a prin­cesa Am­neris, filha e Ranphis, sumo-sa­cer­dote egípcio, que se aper­cebem do su­ce­dido e acusam Ra­damés de traição à pá­tria.

Ra­damés acaba por se en­tregar como traidor: «sa­cer­dote io resto a te».

 

Esta obra-prima re­sultou de uma en­co­menda, lon­ga­mente ne­go­ciada, des­ti­nada a ce­le­brar a cri­ação do Te­atro Ita­liano do Cairo e coin­ci­dindo com a aber­tura do Canal de Suez (1969). Mas não foi en­co­men­dada ex­pres­sa­mente para a inau­gu­ração do canal, como muitas vezes, mas er­ra­da­mente, se ouve dizer. Trata-se de uma ópera de grande efeito, exi­gindo imensos re­cursos cé­nicos, o que di­fi­culta a sua pro­dução. A acção de­corre no an­tigo Egipto, nas ci­dades de Mênfis e Tebas, numa al­tura em que a nação egípcia está em con­flito com os etíopes. Ra­damés é no­meado co­man­dante su­premo dos exér­citos egíp­cios, de­vendo pre­parar a guerra contra a Etiópia. Am­neris, filha do Faraó, está apai­xo­nada por Ra­damés que em breve se tor­nará um herói na­ci­onal de­pois de ter der­ro­tado os etíopes. Só que o co­ração do he­róico guer­reiro foi con­quis­tado pela bela es­crava etíope Aida, a es­crava pre­fe­rida de Am­neris.

O drama de­sen­volve-se em torno destes sen­ti­mentos con­tra­di­tó­rios, no­me­a­da­mente o con­flito entre o amor à pá­tria e o amor in­ter­pes­soal. A con­fi­ança que a paixão le­gi­tima, faz com que Ra­damés re­vele a Aida os seus fu­turos planos mi­li­tares sem saber que o pai dela, que está ali es­con­dido, é Amo­nasro, o pró­prio rei da Etiópia.

Ra­damés con­fessa a sua im­pru­dência e é con­de­nado à morte pelo Tri­bunal de Mênfis. Quando já se en­contra no sub­ter­râneo onde foi en­ter­rado vivo, Ra­damés é sur­pre­en­dido pelo som de um sus­piro: é Aida que, num ad­mi­rável gesto de amor, vem morrer a seu lado.

Ópera em 4 actos, foi re­pre­sen­tada pela pri­meira vez no Cairo, no dia 24 de De­zembro de 1871. Cons­titui um acon­te­ci­mento so­cial com re­per­cussão mun­dial, a que as­sis­tiram reis, prín­cipes, em­bai­xa­dores, ban­queiros, etc. Mas Verdi não es­teve pre­sente. De­pois ex­plicou: «Temi que os egíp­cios me mu­mi­fi­cassem». O li­breto é da au­toria de An­tónio Ghis­lan­zoni , com base num texto an­te­rior de Ca­mille du Locle. Também os textos do cé­lebre egip­tó­logo Au­guste Ma­ri­ette Bey ser­viram de base. Aliás foi este quem su­geriu o tema da ópera ao que­diva Is­mail Pacha, autor da en­co­menda. A ver­da­deira con­sa­gração da obra deu-se no Scala de Milão, no dia 8 de Fe­ve­reiro de 1872. Essa me­mo­rável ré­cita foi di­ri­gida pelo pró­prio Verdi que no fim foi cha­mado ao palco 32 vezes!

 

Éti­enne Ni­colas Méhul
LE CHANT DU DÉPART

Des­co­nhecem-se com rigor as cir­cuns­tân­cias em que no início de 1794 o Co­mité de Salut Pu­blic da Re­vo­lução Fran­cesa terá en­co­men­dado ao poeta Marie-Jo­seph Ché­nier (1764-1811) uma peça mu­sical de exal­tação para o es­forço de guerra face à ameaça - que se con­cre­ti­zaria - dos exér­citos para cuja cons­ti­tuição a aris­to­cracia exi­lada con­se­guira o apoio das mo­nar­quias eu­ro­peias e que se mo­bi­li­zavam nas fron­teiras. Re­pu­bli­cano da pri­meira hora e de toda a vida, Marie-Jo­seph atra­ves­sava con­tudo na al­tura uma si­tu­ação me­lin­drosa: o seu irmão mais velho André (1762-1794) en­con­tra­vase preso sob a falsa acu­sação de cons­pi­ração contra a re­pú­blica, ex­pli­cada con­tudo pelas suas po­si­ções fa­vo­rá­veis a uma mo­nar­quia cons­ti­tu­cinal e os seus vi­ru­lentos epi­gramas contra Ro­bes­pi­erre que, de resto, igual­mente con­si­de­rava com sus­peita a ami­zade de Marie-Jo­seph com Danton e ou­tros gi­ron­dinos.

Se­gundo a tra­dição, o poeta su­jeitou o es­crito ao seu amigo Éti­enne Méhul, então no auge da fama, e terá sido sobre a pedra da la­reira da sala que, num rasgo, o com­po­sitor ali­nhou o tema mu­sical, en­viado ao Ins­ti­tuto Na­ci­onal de Mú­sica, apenas com o nome de Méhul e três as­te­riscos no do autor da letra... Con­tudo, ao ser-lhe apre­sen­tada, Ro­bes­pi­erre elo­giou en­ti­sas­ti­ca­mente a com­po­sição e o pró­prio poeta e deve-se-lhe a de­sig­nação de­fi­ni­tiva: Ché­nier cha­ma­ralhe Hymne de guerre¸ o In­cor­rup­tível achou pre­fe­rível Le Chant du dé­part - assim ficou.

O tema não é ex­clu­si­va­mente uma com­po­sição mu­sical, na sua in­te­gra­lidde en­volve uma en­ce­nação te­a­tral (Marie-Jo­seph era também autor te­a­tral), uma vez que os su­ces­sivos versos são in­ter­pre­tadas por di­versas fi­guras (uma mãe de fa­mília, uma cri­ança, um grupo de an­ciãos, sol­dados, um de­pu­tado) a que se acres­centa o coro en­ce­nado en­quanto pú­blico. Foi desta forma que foi es­treada a 4 de Julho de 1794 numa festa re­pu­bli­cana nas Tu­lhe­rias com um ex­tror­di­nário êxi­toque se re­pe­tiria a 21 do mesmo mês quando das ce­le­bra­ções de trans­la­dação de Marat para o Pan­teão.

Nessa al­tura e apesar de todos os es­forços do irmão, André fora gui­lho­ti­nado, dois dias antes da queda de Ro­bes­pi­erre.

A breve prazo Le Chant du dé­part ga­nhou o es­ta­tuto de Mar­se­lhesa nº 2, trans­for­mando-se num dos mais po­pu­lares temas re­vo­lu­ci­o­ná­rios, es­ta­tuto que man­teria com um per­curso pe­cu­liar que a fez ser adop­tada apai­xo­na­da­mente pelos poilus da I Guerra Mun­dial, mas in­te­grar, até hoje e em es­pe­cial no pe­ríodo do Front Po­pu­laire, igual­mente o can­ci­o­neiro re­vo­lu­ci­o­nário e pa­trió­tico francês.

De su­bli­nhar no poema a re­fe­rência ao jovem tambor Jo­seph Bara (1770-1793) morto à bai­o­neta pelos re­vol­tosos mo­nar­quistas ven­de­anos por se re­cusar, após ser feito pri­si­o­neiro, a gritar «Vive le roi Louis XVI» e Jo­seph Viala (1780-1793), sol­dado com 13 anos do exér­cito re­pu­bli­cano da Pro­vença, morto a tiro quando ten­tava cortar as cordas da ponte sobre o rio Du­rance para evitar o avanço do ini­migo. Letra com­pleta:

http://​www.del­jehier.le­vil­lage.org/​textes/​chan­sons_­re­vo­lu­tionn aires/​le_­chant_­du_­de­part.htm

 

Um­berto Gi­or­dano
AN­DREA CHÉNIER

“Ne­mico dela Pa­tria”

É uma das prin­ci­pais árias para voz de ba­rí­tono da his­tória da ópera ita­liana.

Dentro do es­pí­rito ve­rista a obra--prima de Gi­or­dano põe em cena fi­guras e acon­te­ci­mentos reais do pe­ríodo da Re­vo­lução Fran­cesa.

Adrea Ché­nier é uma fi­gura his­tó­rica, co­nhe­cido poeta pa­triota, ide­a­lista, vi­si­o­nário que par­ti­cipou en­tu­si­as­ti­ca­mente na Re­vo­lução mas que, como muitos ou­tros, acabou por ser ví­tima dela, tendo sido con­de­nado à morte pelo Tri­bunal Re­vo­lu­ci­o­nário e exe­cu­tado na gui­lho­tina. Nesta po­de­rosa ária, cheia de dra­ma­tismo, Gé­rard, que é um chefe re­vo­lu­ci­o­nário pró­ximo de Ro­bes­pi­erre, trava uma luta in­te­rior, in­ter­ro­gando-se sobre se deve de­nun­ciar Ché­nier como sendo um ini­migo da pá­tria («Ne­mico dela pa­tria») quando sabe que o ta­len­toso poeta é um ge­nuíno par­ti­dário da Re­vo­lução. Mo­vido pelo ciúme, re­sul­tante do facto de estar apai­xo­nado por Ma­de­leine de Coigny, com­pa­nheira de Ché­nier, Gé­rard acaba por as­sinar o do­cu­mento con­de­na­tório, mesmo ad­mi­rando o poeta.

A mú­sica ex­prime ad­mi­ra­vel­mente o ín­timo con­flito emo­ci­onal. É um óp­timo exemplo de como o dizer can­tando am­plia a in­ten­si­dade com que as emo­ções se ma­ni­festam no seio da alma hu­mana.

Intei­ra­mente pas­sada na época da Re­vo­lução fran­cesa, ini­ci­ando-se no pe­ríodo que a an­te­cede e aca­bando na fase do terror, com Ro­bes­pi­erre no poder, re­lata al­guns acon­te­ci­mentos ve­rí­dicos da bi­o­grafia do poeta so­nhador, mas também pu­bli­cista po­lí­tico, André de Ché­nier, bem ao es­tilo do ve­rismo da ópera ita­liana do final do sé­culo XIX. Com li­breto de Luigi Il­lica, o mesmo que es­creveu o li­breto da Tosca e da Ma­dame But­terfly, foi es­treada no Scala de Milão em 1896. Para além dos as­pectos so­ciais e po­lí­ticos, o en­redo fo­ca­liza-se também na re­lação amo­rosa do poeta re­vo­lu­ci­o­nário re­pu­bli­cano com a aris­to­crata Ma­de­leine de Coigny, filha da con­dessa de Coigny vi­ti­mada pela ira do povo amo­ti­nado na al­tura da Re­vo­lução. Essa re­lação amo­rosa ro­man­ceada por Il­lica vai des­po­letar em Gé­rard, an­tigo criado opri­mido que de­pois da Re­vo­lução se tornou ci­dadão po­de­roso, um in­con­tro­lável sen­ti­mento de ciúme cau­sador de trá­gica in­jus­tiça: a con­de­nação à morte na gui­lho­tina do poeta Ché­nier que nesse des­tino acaba por ter a com­pa­nhia da sua de­di­cada e amada Ma­de­leine (ele­mento sem base his­tó­rica). Na re­a­li­dade Ché­nier foi gui­lho­ti­nado, como re­fe­rido acima, apenas dois dias antes da queda de Ma­xi­mi­lien Ro­bes­pi­erre, um acon­te­ci­mento que muito pro­va­vel­mente lhe teria sal­vado a vida.

 

Ludwig van Be­ethoven
FI­DELIO
Coro dos Pri­si­o­neiros

Este grande coro dos pri­si­o­neiros é uma das mais con­se­guidas pá­ginas desta ge­nial par­ti­tura be­etho­ve­niana. Para além das ha­bi­tuais agruras do cár­cere, estes pri­si­o­neiros po­lí­ticos são ví­timas do poder des­pó­tico do di­rector da prisão, o te­ne­broso e odiado Piz­zaro, per­so­nagem que sim­bo­liza a imo­ra­li­dade do poder di­ta­to­rial. Neste trecho coral que en­cerra o pri­meiro acto as­sis­timos ao mo­mento em que um grupo de pri­si­o­neiros con­se­guiu obter o di­reito de sair das celas onde de­su­ma­na­mente são man­tidos dia após dia, sem verem a luz solar. Abertas as portas das celas, eles ca­mi­nham len­ta­mente em di­recção ao jardim da for­ta­leza, re­ve­lando o seu de­bi­li­tado es­tado fí­sico e moral. Este trecho, com o seu ele­vado nível de exi­gência téc­nico-mu­sical, serve para pôr à prova as qua­li­dades de qual­quer coro de ópera.

 

Única ópera es­crita por Be­ethoven nem por isso deixou de ser con­si­de­rada uma das me­lhores de sempre tendo lugar na pri­meira fila do re­por­tório de todos os te­a­tros lí­ricos do mundo. Teve es­treia em Viena no ano de 1805, num mo­mento pouco pro­pício, de ins­ta­bi­li­dade po­lí­tica, em vir­tude de os fran­ceses terem ocu­pado a ci­dade e de o im­pe­rador da Áus­tria e toda a sua corte ter fu­gido. Mesmo assim re­a­li­zaram-se duas re­pre­sen­ta­ções.

A obra es­pelha por com­pleto as pre­o­cu­pa­ções de na­tu­reza fi­lo­só­fica e ide­o­ló­gica do seu cri­ador. É uma es­pécie de ma­ni­festo mú­sico-te­a­tral em de­fesa da de­mo­cracia re­pu­bli­cana e da li­ber­dade in­di­vi­dual. Nela, Be­ethoven expõe também o seu pen­sa­mento sobre o amor e o re­la­ci­o­na­mento con­jugal. A de­di­cação he­róica de Le­o­nora ao seu amado Flo­restan, o amor puro e in­que­bran­tável que os une, está no centro do en­redo. A acção de­corre no in­te­rior de uma for­ta­leza que fun­ciona como prisão, nos ar­re­dores de Se­vilha, no sé­culo XVIII. A for­ta­leza, des­po­ti­ca­mente go­ver­nada por Don Piz­zaro sim­bo­liza a so­ci­e­dade que Be­ethoven pre­tende ver ba­nida. O li­breto já tinha sido uti­li­zado antes por três com­po­si­tores, mas mesmo assim Be­ethoven sentiu-se de tal modo se­du­zido pelo en­redo que quis avançar com o seu tra­balho. Per­cebe-se que Le­o­nora é o seu mo­delo de mu­lher e que es­perou en­con­trar nas ar­ru­elas da vida al­guém que dele se apro­xi­masse. Coisa que nunca veio a acon­tecer. Os ma­nus­critos re­la­ci­o­nados com o tra­balho de pre­pa­ração da ópera, apon­ta­mentos, notas, etc. são cla­ra­mente re­ve­la­dores de como Be­ethoven es­tava pro­fun­da­mente ape­gado a esta sua cri­ação.

 

Ca­mille Saint Saëns
SANSÃO E DA­LILA

Mon coeur s’ouvre à ta voix’’

O tí­tulo não en­gana. É a trans­po­sição para o palco de ópera do bem co­nhe­cido epi­sódio bí­blico, do An­tigo Tes­ta­mento (Juízes 16), sim­bo­li­zando a traição fe­mi­nina per­pe­trada em nome dos in­te­resses pa­trió­ticos dos fi­lis­teus. Com li­breto de Fer­di­nand Le­maire, a obra foi es­treada na Ale­manha, na ci­dade de Weimar, em 1877. Ofe­rece à tes­si­tura de meio-so­prano dos me­lhores pa­péis de todo o re­por­tório.

 

Esta ária é um dos mo­mentos cul­mi­nantes, ou até talvez o mo­mento cul­mi­nante da ópera.

É a ex­pressão mu­sical da se­dução que atraiçoa.

Uma ária de amor/​traição. Em ins­tante de ver­da­deira ins­pi­ração o com­po­sitor in­ventou a me­lodia ideal para tra­duzir o ero­tismo e a força da se­dução amo­rosa. Re­pare-se como Saint-Saëns cons­trói um cres­cendo emo­ci­onal.

A mesma me­lodia base vai sendo re­pe­tida, ga­nhando uma in­ten­si­dade emo­ci­onal cada vez maior. No final, nin­guém se atre­verá a apontar o dedo a Sansão acu­sando-o de fra­queza sen­ti­mental. Que homem con­se­guiria re­sistir a se­me­lhante se­dução?

 

An­tonin Dvo­rák9ª SIN­FONIA
«Novo Mundo» 2º an­da­mento,
largo

Ao chegar a Nova York, em 1892, para di­rigir o Con­ser­var­tório Na­ci­onal de Mú­sica (uma ins­ti­tuição pri­vada apoiada pela mi­li­o­nária Je­a­nette Thurber), Dvorak le­vava pronto um Te Deum para ser in­ter­pre­tado nas co­me­mo­ra­ções do 4º cen­te­nário da des­co­berta do con­ti­nente, que nesse al­tura de­cor­riam.

O con­tacto com a re­a­li­dade ame­ri­cana levou-o con­tudo ra­pi­da­mente a lançar-se ao tra­balho de com­po­sição de uma nova sin­fonia, que fi­caria pronta ainda no início de 1893 e seria es­treada nesse ano no Car­negie Hall, in­te­grada nas mesmas ce­le­bra­ções o que, a par e passo com o es­tron­doso êxito ob­tido, a bap­tizou de Sin­fonia Novo Mundo por que é ha­bi­tu­a­mente iden­ti­fi­cada.

Dvorak ma­ni­festou fre­quen­te­mente o im­pacto cu­lural e mu­sical que a es­tadia nos Es­tados Unidos teve sobre ele, sendo igual­mente ver­dade que a sua acção pe­da­gó­gica e o con­vívio com com­po­si­tores e mú­sicos ame­ri­canos teve de­ter­mi­nante in­fluência no de­sen­vol­vi­mento mu­sical do País.

Na 9ª Sin­fonia é claro que o com­po­sitor po­curou um diá­logo entre o seu uni­verso es­lavo tra­di­ci­onal com as novas so­no­ri­dades com que se de­fron­tara, sendo ha­bi­tu­al­mente su­bli­nhada a pre­sença de dois temas tra­di­ci­o­nais norte-ame­ri­canos no 2º an­da­mento. Logo no início do 3º an­da­mento, um solo de flauta iden­ti­fica-se cla­ra­mente com o es­pi­ri­tual Swing Low, Sweet Cha­riot, com­posto antes de 1862 por Wallis Willis e di­vul­gadas pelos Fisk Ju­bille Sin­gers no final do sé­culo XIX a par­tirt de trans­cri­ções feitas pelo rev. Ale­xander Reid jun­ta­mente com o igual­mente cé­lebre Steal Away, também de Willis e ambos re­fe­rindo-se ao un­der­ground rail­road que apoiava os es­cravos ne­gros fu­gi­tivos.

Um se­gundo tema tem uma his­tória mais com­plexa: numa en­tre­vista ao New York He­rald em 15 de De­zembro de 1893, Dvorak re­velou que grande parte do 2º an­da­mento se ba­seava num outro pro­jecto em que tra­ba­lhava, uma can­tata (ou even­tu­al­mente uma ópera) sobre o poema épicoThe Song of Hi­awatha de Henry Wadsworth Long­fellow (1807-1882), que co­nhecia de uma tra­dução em checo, ba­seado na fi­gura len­dária do chefe índio mohawk com aquele nome e que terá vi­vido, va­rindo se­gundo as fontes, entre o séc. XII e XVI. Cu­ri­o­sa­mente, Dvorak - que en­tre­tanto se fa­mil­li­a­ri­zara com a mú­sica tra­di­ci­onal ame­ri­cana no­me­a­da­mente através do seu aluno negro Henry Bur­leigh (1866-1949), que se tor­naria aliás no pri­meiro com­po­sitor de mú­sica eru­dita afro-ame­ri­cano, con­si­de­rava exis­tirem claras li­ga­ções entre a mú­sica tra­di­ci­onal de origem negra e a de origem índia (o já ci­tado Wallis Willis era um fre­edman, ou seja, um es­cravo que, após a abo­lição e a Guerra da Se­cessão, se in­te­graram nas tribos Choctaw, que ti­nham com­ba­tido nos exér­citos nor­tistas).

En­tre­tanto, outro aluno de Dvorak no mesmo pe­ríodo, Wil­liam Arms Fis­cher (1861-1948), con­si­de­rando que o 2º an­da­mento da Novo Mundo cons­ti­tuia uma clara base para um es­pi­ri­tual, compôs em 1922 uma peça ca­rac­te­ris­ti­ca­mente afro-ame­ri­cana com o tí­tulo Going Home, que por vezes er­ra­da­mente é con­si­de­rada com um velho es­pi­ri­tual em que Dvorak se teria ins­pi­rado!

 

Gi­a­como Puc­cini
TOSCA

E lu­cevan le stelle”

Estamos no início do 3º e úl­timo acto. O pintor Mario Ca­va­ra­dossi, um pa­triota li­beral, en­contra-se de­tido e con­de­nado à morte por ra­zões po­lí­ticas. É noite. A sua úl­tima noite.

Con­templa então as es­trelas no fir­ma­mento re­cor­dando o tempo pas­sado com a sua amada, en­quanto aguarda o mo­mento do fu­zi­la­mento que terá lugar ao nascer da au­rora. «E lu­cevan le stelle… [Bri­lhavam as es­trelas]… Svani per sempre il sogno mio d’a­more... [Es­fumou-se para sempre o meu belo sonho de amor]».

Não há ne­nhum tenor que se preze que não tenha can­tado esta ária. É um da­queles tre­chos que faz qual­quer pessoa sen­sível, mesmo que só mo­men­ta­ne­a­mente, de­sejar ser cantor de ópera. Porque se o prazer de es­cutar é imenso, maior ainda será, ima­gino eu, o prazer de cantar bem esta exi­gente ária. A sua ar­re­ba­ta­dora linha me­ló­dica faz com que baste ou­vila uma única vez para que a mú­sica nunca mais saia da nossa ca­beça.

Em­bora sendo de curta du­ração, esta ária co­loca vá­rias di­fi­cul­dades ao cantor, exi­gindo um ri­go­roso con­trolo da res­pi­ração no fra­sear a meia voz e, no­me­a­da­mente, nos en­ter­ne­ce­dores di­mi­nu­endos (atente-se nas pa­la­vras “oh, dolci baci…” e “Le belle forme dis­ci­o­gliea dai veli!”). A di­nâ­mica vocal tem que ser muito cui­dada, de modo a re­alçar cada sí­laba e a dar maior ex­pressão emo­ci­onal às frases. Puc­cini sabia, como poucos, es­crever ma­ra­vi­lho­sa­mente para a tes­si­tura de tenor, pelo que em muitas das suas pautas ofe­receu ge­ne­ro­sa­mente a esse tipo de cantor lí­rico a pos­si­bi­li­dade de bri­lhar, exi­bindo todos os seus dotes vo­cais.

Mas há um re­verso da me­dalha: isso impõe ao in­tér­prete a ne­ces­si­dade de pos­suir esses dotes.

 

Se reu­nís­semos um con­junto de mu­si­có­logos e de crí­ticos mu­si­cais para tentar ave­ri­guar qual é, na opi­nião dos mais en­ten­didos, a obra-prima de Puc­cini, é bas­tante pro­vável que a res­posta mai­o­ri­tária fosse: a Tosca.

Porquê? Porque é uma muito rara con­ju­gação de no­tá­veis vir­tudes mu­sico-te­a­trais. Uma das prin­ci­pais vir­tudes é a uni­dade. Ou seja, é uma obra sem que­bras. Desde os pri­meiros com­passos – que cons­ti­tuem, aliás, um dos mais fan­tás­ticos co­meços de ópera, com o tema do si­nistro per­so­nagem Scarpia to­cado pela or­questra numa su­cessão de acordes em for­tís­simo – o es­pec­tador fica ime­di­a­ta­mente preso, não mais con­se­guindo deixar de estar in­te­res­sado e atento à su­cessão de acon­te­ci­mentos tanto dra­ma­túr­gicos como mu­si­cais. A par­ti­tura está re­pleta de frases me­ló­dicas ver­da­dei­ra­mente ar­re­ba­ta­doras, or­ga­ni­zadas numa uni­dade de ex­trema per­feição e ser­vidas por uma não menos per­feita e ad­mi­rável ins­tru­men­tação. Boa parte do se­gredo do su­cesso re­side exac­ta­mente aqui, na ins­tru­men­tação. A esse ca­rácter uni­tário adi­ciona-se de­pois outra vir­tude não menos re­le­vante: o es­pí­rito de con­cisão. A parte de tenor, cor­res­pon­dente ao per­so­nagem do pintor Mario Ca­va­ra­dossi, ofe­rece-nos talvez o me­lhor exemplo dessa uni­dade con­cisa: se cro­no­me­trarmos todas as in­ter­ven­ções deste per­so­nagem, ve­ri­fi­ca­remos que o tenor canta pouco tempo (pouco mais de 20 mi­nutos), con­si­de­rando que se trata não só de um dos pa­péis prin­ci­pais desta ópera como também de todo o re­por­tório para esta tes­si­tura vocal. Só que não há pra­ti­ca­mente uma sí­laba ou uma nota can­tada que não seja ar­re­ba­ta­dora. E tudo per­mite ao tenor bri­lhar, desde que possua os dotes téc­nico-vo­cais exi­gidos pela par­ti­tura. Até o sim­ples e bre­vís­simo “son qui”, no início do grande dueto de amor do 1º acto, é en­can­tador, no sen­tido li­teral do termo, ou seja, en­canta quem es­cuta e só por si per­mite ao cantor exibir a be­leza do seu timbre de voz –sendo também quase su­fi­ci­ente para ava­liar se temos a pisar as tá­buas um in­tér­prete à al­tura. De­pois, temos ainda um do­se­a­mento per­feito de con­trastes, sejam eles so­noros, vi­suais, te­má­ticos, te­a­trais, ou ou­tros. O papel de Ca­va­ra­dossi é de novo bem exem­pli­fi­ca­tivo dessa ca­rac­te­rís­tica cen­tral da obra no seu todo: tanto nos ofe­rece uma ter­nu­renta e suave me­lodia as­so­ciada a um epi­sódio amo­roso (p.e. nos du­etos de amor) como in­tensas, vi­o­lentas e dra­má­ticas frases, como no mo­mento em que o pintor é tor­tu­rado pelos es­birros da po­lícia po­lí­tica.

O li­breto, da au­toria de dois dos prin­ci­pais li­bre­tistas da ópera ita­liana, Giu­seppe Gi­a­cosa e Luigi Il­lica, e ba­seado no drama ho­mó­nimo de Vic­to­rien Sardou, ofe­rece-nos ge­ne­ro­sa­mente vá­rios grandes temas uni­ver­sais, como sejam o da li­ber­dade e do com­bate po­lí­tico para a con­quistar, ou o do tri­ân­gulo dra­má­tico amor/​ódio/​poder. Es­tamos pe­rante a mais ve­rista pro­dução puc­ci­niana. Ele­mento que também con­corre para fa­ci­litar ao es­pec­tador o acom­pa­nha­mento da acção dra­má­tica, mesmo que não saiba ita­liano e não tenha acesso a uma tra­dução do li­breto, como agora nor­mal­mente acon­tece nas salas dos te­a­tros lí­ricos. A acção de­corre na ci­dade de Roma, no mês de Junho de 1800. Tudo se passa em menos de vinte e quatro horas, es­tando as cenas ri­go­ro­sa­mente de­fi­nidas no es­paço e no tempo. Todos os lo­cais são reais e bem co­nhe­cidos: o do in­te­rior da Igreja de Sant’An­drea dela Valle (pri­meiro acto), no cé­lebre Pa­lácio Far­nese (se­gundo acto) e no co­nhe­ci­dís­simo Cas­telo de Sant’An­gelo, na pro­xi­mi­dade do Va­ti­cano e da Ba­sí­lica de S.Pedro (ter­ceiro acto). A mais co­nhe­cida versão ci­ne­ma­to­grá­fica da Tosca foi fil­mada nesses lo­cais e nas horas exactas in­di­cadas no li­breto, pro­por­ci­o­nando-nos ima­gens ma­ra­vi­lhosas de Roma vista ao nascer do dia a partir do pátio su­pe­rior do Cas­telo de Sant’An­gelo onde Ca­va­ra­dossi é fu­zi­lado por ordem do si­nistro barão Scarpia, chefe da po­lícia po­lí­tica, e sob a acu­sação de ter pro­te­gido um preso po­lí­tico que tinha fu­gido do Cas­telo na ma­dru­gada do dia an­te­rior. En­tre­tanto, Flora Tosca, cé­lebre can­tora lí­rica que é a com­pa­nheira de Ca­va­ra­dossi, mo­vida pelo ódio, con­se­guiu as­sas­sinar o barão po­lícia sem que nin­guém ti­vesse dado por isso e julga ter ob­tido a ga­rantia de que o fu­zi­la­mento vai ser si­mu­lado, po­dendo de­pois fugir de Roma com o seu amado pintor Ca­va­ra­dossi.

A re­a­li­dade irá des­mentir essa crença. De­ses­pe­rada di­ante do ca­dáver en­san­guen­tado do seu apai­xo­nado e aper­ce­bendo-se que a vêm prender por já terem des­co­berto o corpo do barão, Flora Tosca corre em di­recção à mu­ralha do cas­telo e, de­sa­fi­ando Scarpia a en­con­trar-se com ela di­ante do tri­bunal de Deus, lança-se do cimo da mu­ralha num acto sui­ci­dário. Um final de grande efeito cé­nico mas também mu­sical, com a úl­tima frase can­tada por Tosca, cul­mi­nando numa bri­lhante nota aguda: “O Scarpia, avanti a Dio!”.

Como úl­tima prova do vin­cado re­a­lismo da acção dra­má­tica será cu­rioso cons­tatar como os li­bre­tistas ti­veram o cui­dado de cor­rigir uma ine­xac­tidão da tra­gédia ori­ginal de Sardou.

De acordo com o texto da peça ins­pi­ra­dora da ópera, Tosca lança-se da mu­ralha do Cas­telo de Sant’An­gelo sobre o rio Tibre, o que não passa de uma pura im­pos­si­bi­li­dade, pois como ainda hoje se pode ve­ri­ficar in loco, em­bora o Cas­telo es­teja si­tuado numa das mar­gens do rio, a dis­tância entre a mu­ralha e a água é su­fi­ci­en­te­mente grande para ser im­pos­sível essa forma de sui­cídio.

 

O charme desta bar­ca­rola traduz toda a am­bi­ência da obra ao mesmo tempo que de ime­diato ca­tiva qual­quer ou­vinte, mesmo que seja pessoa não ha­bi­tuada ao canto lí­rico ope­rista. Es­tamos no início do 1º acto e Lakmé, filha de um sa­cer­dote bra­mante, fica so­zinha com a sua es­crava e con­fi­dente Mal­lika, cha­mando-a para junto de si.

Juntas cantam este dueto en­quanto se pre­param para o banho. Note-se o ca­rácter ori­en­ta­li­zante da me­lodia on­du­lante, bem como a de­li­cada or­ques­tração uti­li­zada. Este

dueto é fre­quen­te­mente can­tado em con­certos e galas onde par­ti­cipam si­mul­ta­ne­a­mente uma so­prano lí­rica e uma mei­o­so­prano, pelo que muitos são os que o têm no ou­vido, re­co­nhe­cendo-o logo que es­cutam os pri­meiros com­passos, mas des­co­nhe­cendo por com­pleto o en­redo da ópera e o todo em que se in­tegra. Creio haver mesmo quem pensa ser esta uma pe­quena peça au­tó­noma, sem li­gação com ne­nhuma ópera. Este cé­lebre dueto para vozes fe­mi­ninas é também co­nhe­cido por Dueto das Flores.

 

Léo De­libes
LAKMÉ

Viens, Mal­lika les li­anes en fleurs...”

Uma pá­tria in­va­dida. Todo o drama as­senta nesse facto po­lí­tico. Na Índia, no sé­culo XIX, o pai de Lakmé, sa­cer­dote brâ­mane, ali­menta um ódio fa­ná­tico em re­lação aos in­va­sores bri­tâ­nicos. Mas um ofi­cial bri­tâ­nico vai apai­xonar-se pela sua filha con­quis­tando o co­ração da for­mosa jovem que, em con­sequência da sua vo­cação re­li­giosa, vive em clau­sura numa ca­bana, im­pe­dida de ter con­tacto com o mundo ex­te­rior.

A mútua paixão vai co­lidir com a in­sa­nável con­fli­tu­a­li­dade entre o pai de Lakmé, o in­fle­xível sa­cer­dote Ni­la­kantha, e o in­vasor da pá­tria que pro­fessa outra re­li­gião. Pe­rante a im­pos­si­bi­li­dade do seu amor, Lakmé sui­cida-se.

A be­leza, a fres­cura e o charme das me­lo­dias que com­põem a par­ti­tura fazem dela a obra-prima de Leó De­libes. Aqui en­con­tramos al­gumas das mais belas árias do re­por­tório francês.

 

Giu­seppe Verdi
DON CARLOS

Io vengo a do­mandar”

Encon­tramos neste se­gundo dueto de Carlos com Eli­sa­beth um dos con­flitos cen­trais do en­redo: a opo­sição entre os in­te­resses po­lí­ticos do Es­tado e os de­sejos pes­soais. Trata-se no fundo de um falso dueto de amor ou, talvez me­lhor, um dueto de amor im­pos­sível. Isto porque Carlos con­tinua apai­xo­nado por Eli­sa­beth de Va­lois, que co­nheceu antes de esta ter ca­sado com seu pai, o rei Fi­lipe II de Es­panha, tendo-se tor­nado assim sua rainha e “mãe”. No início do dueto Carlos vem pedir à rainha que per­suada o rei a enviá-lo para a Flan­dres. Mas acaba por se des­con­trolar quando esta o trata por “filho”, aca­bando por não con­se­guir ocultar os seus sen­ti­mentos. Con­fessa então con­ti­nuar apai­xo­nado por ela e mostra-se re­vol­tado com a in­di­fe­rença que ela ma­ni­festa. A rainha res­ponde ser o dever de es­posa a única causa dessa in­di­fe­rença.

Carlos pa­rece com­pre­ender, mas su­bi­ta­mente volta a exaltar-se ex­pri­mindo de novo o seu amor aca­bando por se afastar com um grito de dor. Ao ver-se so­zinha a rainha apela à ajuda di­vina.

É sur­pre­en­dente que este dueto de uma ri­queza me­ló­dica ex­tra­or­di­nária e de in­ten­si­dade dra­má­tica, trecho ver­da­dei­ra­mente re­pre­sen­ta­tivo do me­lhor Verdi, nunca seja es­co­lhido para in­te­grar os pro­gramas das galas de ópera. Também neste par­ti­cular este es­pec­tá­culo da Festa do “Avante!” é ori­ginal pro­por­ci­o­nando ao seu vasto pú­blico a fruição deste mag­ní­fico mo­mento de ópera.


Verdi sempre se sentiu atraído pelas ques­tões de na­tu­reza po­lí­tica. Esta sua mo­nu­mental obra com­posta para a ópera de Paris, em 1867 (data da es­treia) e ba­seada na peça ho­mó­nima de Schiller, chega a ser uma es­pécie de tra­tado ope­rís­tico de po­lí­tica. Na minha hu­milde opi­nião trata-se, em ab­so­luto, de uma das me­lhores par­ti­turas ver­di­anas. No en­tanto, não só está longe de ser uma das mais po­pu­lares como ra­ra­mente é re­fe­rida como per­ten­cendo ao grupo das obras-primas do mú­sico de Ron­cole. Para esse re­la­tivo me­nos­prezo con­corre o facto de ser obra di­fícil de levar à cena por vá­rias ra­zões. Des­taco apenas as se­guintes: os ele­vados custos de pro­dução; a ne­ces­si­dade de se poder contar com um grupo de pelo menos cinco can­tores de nível su­pe­rior; a longa du­ração da obra, em par­ti­cular na sua versão ori­ginal, em cinco actos. Ci­ente desta úl­tima di­fi­cul­dade, o autor, com a ajuda do li­bre­tista Ghis­lan­zoni, pre­parou uma versão mais re­du­zida (1882-83), em apenas quatro actos e sempre can­tada em ita­liano (a pri­meira versão, com­posta para Paris, tanto pode ser can­tada em francês como em ita­liano, em­bora ac­tu­al­mente se opte quase sempre pelo ita­liano). Na opi­nião de al­guns crí­ticos a obra en­ferma de um vício pri­mevo: o de ter sido es­crita de acordo com a tra­dição es­ta­be­le­cida por Meyer­beer na ca­pital fran­cesa (longa du­ração, 5 actos, bai­lados, coros, grandes nú­meros de con­junto, etc.) tor­nando-se de­ma­siado pe­sada para os pú­blicos mo­dernos da era da­quilo a que tenho por há­bito chamar a cul­tura zap­ping. Não subs­crevo esta opi­nião desde que a obra seja su­pe­ri­or­mente exe­cu­tada, como me­rece e se exige. Só que de facto é muito com­pli­cado, para mais em tempos de crise, reunir um elenco de grande nível.

A questão é que no Don Carlos até mesmo al­guns pa­péis se­cun­dá­rios, como o do Grande-In­qui­sidor, exigem in­tér­pretes do mais alto nível. Daí que quase todos os grande baixos que se ce­le­bri­zaram como in­tér­pretes do papel de Fi­lipe II (um dos prin­ci­pais de todo o re­por­tório para voz de baixo) te­nham can­tado também a parte do Grande-In­qui­sidor. Para mais, neste caso, são também exi­gidos es­pe­ciais dotes te­a­trais, ou seja, bons ac­tores-can­tores ou can­tores-ac­tores. Claro que em todos os casos é sempre me­lhor ter grandes ar­tistas lí­ricos a pisar o palco. Só que en­quanto al­gumas óperas to­leram um de­cai­mento das qua­li­dades téc­ni­co­vo­cais, sem que isso ponha em causa a dig­ni­dade do es­pec­tá­culo, ou­tras há, no en­tanto, e tal é o caso do Don Carlos, em que, sem a pre­sença viva de can­tores-ac­tores de pri­meira água o es­pec­tá­culo fica com­pro­me­tido na sua dig­ni­dade.

Na versão com­pleta, a acção dra­má­tica, ex­tre­ma­mente rica, de­corre em França e em Es­panha, em me­ados do sé­culo XVI, logo após o fim da guerra entre a França e a Es­panha. Con­dição de co­roas.

Questão que vai estar no centro da trama, se bem que a fal­si­fi­cação his­tó­rica, que já vem da peça de Schiller, seja no­tória. O prín­cipe Don Carlos era na re­a­li­dade um ser hu­mano mons­truoso, in­capaz, por ra­zões de saúde, de as­sumir res­pon­sa­bi­li­dades ma­tri­mo­niais e muito menos de es­ta­dista real.

Num mundo me­lhor, esta ge­nial cri­ação ver­diana seria uti­li­zada como ex­ce­lente ins­tru­mento pe­da­gó­gico no âm­bito de vá­rias dis­ci­plinas – do en­sino se­cun­dário até o su­pe­rior.

 

Giu­seppe Verdi
TRA­VIATA

Coro di Zin­ga­relle e Mat­ta­dori”

Num salão pa­ri­si­ense, um grupo de ci­ganos baila e canta du­rante uma festa para en­treter os con­vivas. Bri­lhante mo­mento de mú­sica coral que no en­tanto é ir­re­le­vante para a acção dra­má­tica da ópera ins­pi­rada no ro­mance A Dama das Ca­mé­lias de Ale­xandre Dumas. Acaba por fun­ci­onar como uma es­pécie de in­ter­lúdio coral de­co­ra­tivo, in­tro­du­zindo algum exo­te­rismo ét­nico no am­bi­ente bur­guês pa­ri­si­ense dos anos Oi­to­centos em que a acção de­corre.

 

A força do pre­con­ceito so­cial é aqui tra­zida à ri­balta, apa­re­cendo como ele­mento im­pe­di­tivo da re­lação amo­rosa de Vi­o­letta Va­lery com Al­fredo Ger­mont. Ba­seada em La Dame aux ca­mé­lias (A dama das ca­mé­lias) de Ale­xandre Dumas. Par­ti­tura bem de­mons­tra­tiva de como Verdi era um inex­ce­dível me­lo­dista. Por in­crível que pa­reça,

a obra não ob­teve êxito na al­tura da es­treia. No te­atro La Fe­nice de Ve­neza, no dia 6 de Março de 1853. Um ano mais tarde, numa am­bi­ência po­lí­tica di­fe­rente, ob­teve um su­cesso en­tu­siás­tico e assim con­ti­nuou a ser até os dias de hoje, sempre que é bem in­ter­pre­tada – coisa que talvez não tenha acon­te­cido na ré­cita da es­treia.

 

Ge­orges Bizet
OS PES­CA­DORES DE PÉROLAS

Au fond du temple saint”

Estamos pe­rante um dos mais con­se­guidos du­etos para voz de tenor e ba­rí­tono do re­por­tório ope­rís­tico em geral e do francês em par­ti­cular. A acção de­corre no Ceilão, na An­ti­gui­dade. Zurga (ba­rí­tono) é o rei dos pes­ca­dores e re­en­contra o seu velho amigo Nadir (tenor) que es­teve au­sente du­rante um longo pe­ríodo. Neste dueto ex­pressam mu­tu­a­mente sa­tis­fação por se terem re­en­con­trado e re­cordam em con­junto o mo­mento em que co­nhe­ceram a sa­cer­do­tisa Leïla por quem ambos se apai­xo­naram. No final, ex­pressão do de­sejo de que nada, nem mesmo essa ri­va­li­dade amo­rosa, os se­pare («que rien ne nous sé­pare»). O tema mu­sical deste dueto re­a­pa­rece ao longo da ópera como sím­bolo da ami­zade que une os dois pro­ta­go­nistas mas­cu­linos, sendo exem­pli­fi­ca­tivo da me­lhor ins­pi­ração me­ló­dica de Bizet.

 

Relata a his­tória de dois amigos, ambos pes­ca­dores, que se apai­xonam pela sa­cer­do­tisa Nadir. Mas a ami­zade que une os dois ho­mens acaba por pre­va­lecer, ven­cendo o cor­ro­sivo ciúme, se­me­ador de con­flito. Com o sa­cri­fício da pró­pria vida, Zurga con­segue salvar o amigo Nadir e a sa­cer­do­tisa en­tre­tanto con­de­nados à morte por ter sido entre eles. A acção de­corre no Ceilão. Ópera em três actos es­treada em Paris no ano de 1863. Doze anos antes da es­treia da Carmen, der­ra­deira cri­ação de Bizet.

 

Gi­o­a­chino Ros­sini
MOSÉ IN EGITTO

Dal tuo stel­lato so­glio”

Adap­tação à ópera de um dos mais co­nhe­cidos epi­só­dios da Bí­blia. Na costa do Mar Ver­melho, os he­breus an­seiam por re­gressar à pá­tria bem amada, li­ber­tando-se da es­cra­va­tura que os egíp­cios lhes im­pu­seram. Vendo o seu povo már­tire en­cor­ra­lado entre o mar e o im­pla­cável exér­cito ini­migo que avança na sua di­recção, Moisés toma a ini­ci­a­tiva de rezar ape­lando à ajuda di­vina. A ca­ti­vante me­lodia da prece é pri­meiro en­toada por Moisés (voz de baixo); de­pois vai sendo re­pe­tida pelos seus ir­mãos. É o mais cé­lebre trecho da par­ti­tura, mas não fazia parte da pri­meira versão. Só foi in­tro­du­zido um ano mais tarde por oca­sião de re­po­sição da obra em cena no S. Carlos de Ná­poles.

 

As óperas có­micas de Ros­sini são muito mais co­nhe­cidas do grande pú­blico do que as sé­rias. Mosé in Egitto é exemplo disso. Até mesmo entre ini­ci­ados não há muitos que te­nham as­sis­tido a uma re­pre­sen­tação ou co­nheçam bem esta adap­tação mu­sico-te­a­tral de um tema bí­blico. Porém, só o co­nhe­ci­mento da ver­tente séria da pro­dução ros­si­niana nos per­mite per­ceber, por exemplo, a im­por­tância que Chopin atribui à mú­sica do autor do Bar­beiro de Se­vilha como factor in­flu­ente no seu pró­prio afã com­po­si­ci­onal. Esta ópera teve vá­rias ver­sões di­fe­rentes e até ou­tros tí­tulos. Ros­sini es­crevia mú­sica a um ritmo alu­ci­nante, al­te­rando com fa­ci­li­dade o an­te­ri­or­mente feito. Mosé foi es­crito para o te­atro de S. Carlos, não de Lisboa, senão que de Ná­poles, por en­co­menda do em­pre­sário e ad­mi­nis­trador Do­me­nico Bar­baia, sendo des­ti­nado à voz da so­prano es­pa­nhola Isa­bella Col­bran (1785-1845), con­si­de­rada a maior so­prano dra­má­tica de co­lo­ra­tura do início do sé­culo XIX, que pas­sado pouco tempo viria a casar com Ros­sini de­pois de ter sido amante de Bar­baia. O com­po­sitor fez uma pro­funda re­visão (al­te­ração, me­lhor seria dizer) da obra tendo em vista a sua re­pre­sen­tação em Paris, em 1827, com o novo tí­tulo de Moïse et Pha­raon e com um novo li­breto.

Pas­sava a ser can­tada em francês, e o pri­meiro acto era com­ple­ta­mente novo.

Teve grande êxito, sendo elo­giada por Stendhal e Balzac, que a con­si­derou «um imenso poema mu­sical».

 

Gi­o­a­chino Ros­sini
O BAR­BEIRO DE SE­VILHA

Largo al fac­totum”

Se re­a­li­zás­semos uma son­dagem com o ob­jec­tivo de es­ta­be­lecer qual é, em ab­so­luto, a ária de ópera mais co­nhe­cida no mundo in­teiro esta seria pro­va­vel­mente a mais ci­tada. É can­tando esta ária que Fí­garo, que tra­balha como bar­beiro na ci­dade de Se­vilha, entra em cena. Aliás ela co­meça a ser can­tada ainda fora de cena. É através dela que Fí­garo se apre­senta, ex­pli­cando qual é a sua função so­cial na ci­dade. Ele é o prin­cipal per­so­nagem da ópera. Tendo sido es­crita para voz de ba­rí­tono, a ver­dade é que apre­senta um re­gisto bas­tante agudo, só po­dendo ser muito bem can­tada por um ba­rí­tono com grande fa­ci­li­dade de agudos, como era o caso de Gino Bechi, talvez o me­lhor in­tér­prete de sempre deste papel. Por esta razão, al­guns te­nores dra­má­ticos, com uma cor de voz mais es­cura, têm fa­ci­li­dade em cantar este trecho do re­por­tório de ba­rí­tono. Há um filme com Plá­cido Do­mingo em que o tenor es­pa­nhol con­tra­cena con­sigo mesmo, can­tando a parte de tenor e a de ba­rí­tono.

Se há ópera que se possa con­si­derar ver­da­dei­ra­mente po­pular e amada pelo grande pú­blico é este Bar­biere (Bar­beiro) de Ros­sini, ópera em dois actos es­treada em Roma no ano de 1816, trans­por­tando ainda o seu pri­meiro tí­tulo: Al­ma­viva — uma vez que só mais tarde ad­quiriu o nome pelo qual é hoje uni­ver­sal­mente co­nhe­cida. A ré­cita de es­treia foi um dos mais fa­mosos fi­ascos da his­tória da ópera. Mas a obra não tardou a res­ta­be­lecer-se desse pri­meiro im­pacto ne­ga­tivo, logo ad­qui­rindo no­to­ri­e­dade.

Ba­seada na co­nhe­cida peça se­te­cen­tista Le Bar­bier de Sé­ville de Pi­erre Au­gustin de Be­au­mar­chais, re­lata-nos as ro­cam­bo­lescas e muito có­micas pe­ri­pé­cias vi­vidas pelo conde Al­ma­viva e o seu amigo Fí­garo, bar­beiro da ci­dade de Se­vilha, para con­se­guir con­quistar a mão da me­nina Ro­sina, des­pó­tica e pu­di­ca­mente iso­lada do mundo por von­tade de um tal Dr. Bar­tolo, seu tutor mas também pre­ten­dente. Em­bora par­tindo de es­quemas, fór­mulas e ele­mentos tra­di­ci­o­nais Ros­sini con­segue ser ino­vador, apre­sen­tando uma opera buffa (peça có­mica) di­fe­rente do que era ha­bi­tual. Para se per­ceber isso, bas­tará com­parar este Bar­biere com a obra ho­mó­nima de Pai­sielo (1782) que então es­tava em voga. A fres­cura dos nú­meros de con­junto, com os seus ritmos tre­pi­dantes, a va­ri­e­dade, tanto no plano mu­sical como te­a­tral, a forma como a linha vocal é or­na­men­tada de modo a traçar o perfil da per­so­nagem com enorme sen­tido de humor, os elec­tri­zantes cres­cendi (cres­cendos), tão tí­picos da es­crita ros­si­niana, assim como também a cui­dada ar­ti­cu­lação entre a mú­sica e a acção cé­nica são tudo ele­mentos di­fe­ren­ci­a­dores que nos fazem com­pre­ender porque razão o Bar­beiro de Ros­sini apagou a chama do tra­di­ci­onal Bar­beiro de Pai­si­ello, que hoje nin­guém co­nhece, e se impôs para sempre como ob­jecto es­té­tico ado­rado por todos.

 

Ama­deus Mo­zart
COSÌ FAN TUTTE

Ah, scos­tati!...
Smanie im­pla­ca­bili”

Esta é a pri­meira grande ária da mei­o­so­prano nesta de­li­ciosa par­ti­tura mo­zar­tiana. Ela ex­pressa o de­ses­pero da per­so­nagem Do­ra­bella em face da ines­pe­rada par­tida do seu na­mo­rado que se supõe ir cum­prir uma pa­trió­tica missão mi­litar e traduz também o seu sen­ti­mento de re­volta e in­dig­nação por a sua criada ter feito troça dela di­zendo que o na­mo­rado não he­si­tará em a trair e que o me­lhor é tratar de ar­ranjar outro o mais de­pressa pos­sível. É um trecho de bra­vura que co­loca sé­rias di­fi­cul­dades téc­nicas àsin­tér­pretes, desde logo pela ne­ces­si­dade de manter o an­da­mento rá­pido.

 

Na apa­rência uma das mais frí­volas óperas ja­mais com­postas; na re­a­li­dade, uma das de maior pro­fun­di­dade fi­lo­só­fica. Três ho­mens dis­cutem sobre a pos­si­bi­li­dade de exis­tirem mu­lheres fiéis. Dois são jo­vens e um é um homem ma­duro, fi­ló­sofo já idoso. Os pri­meiros não têm dú­vidas: basta co­nhecer as suas na­mo­radas, ver­da­deiros mo­delos de fi­de­li­dade amo­rosa. Obe­de­cendo aos prin­cí­pios do ra­ci­o­na­lismo crí­tico, o velho propõe que se in­ves­tigue, re­a­li­zando uma ex­pe­ri­ência. Par­tindo de uma his­to­rieta sim­pli­cís­sima, que pa­rece ter tido origem em epi­sódio real, Mo­zart cons­trói uma das mais ad­mi­rá­veis obras de arte da his­tória da hu­ma­ni­dade. Prova pelo menos de que, mesmo que a fi­de­li­dade con­jugal ab­so­luta não exista, existe pelo menos essa coisa mis­te­riosa a que cha­mamos ge­ni­a­li­dade.

 

Charles Gounod
FAUSTO

Un bou­quet!... O Dieu! Que de bi­joux”

Todos os lei­tores de Tintin co­nhecem esta ária. Era pre­ci­sa­mente com ela que a Cas­ta­fiori, diva da banda de­se­nhada de Hergé, mas­sa­crava os ou­vidos de todos os que com ela se cru­zavam, in­cluindo o ca­nino Milu. Para con­se­guir os seus in­tentos, Me­fis­tó­feles co­locou um cofre cheio de lin­dís­simas jóias no jardim da casa de Mar­gue­rite. Se­du­zida pelo brilho e be­leza dessas jóias ali dei­xadas bem ao seu al­cance, como apa­rente oferta a si des­ti­nada, ela não re­siste a usá-las olhando-se de­pois no es­pelho que também es­tava no mis­te­rioso cofre. A en­can­ta­dora li­gei­reza das li­nhas me­ló­dicas que a de­se­nham faz com que esta seja uma das mais ce­le­bradas árias do re­por­tório ope­rís­tico francês.


Livre­mente ba­seada na obra ho­mó­nima de Go­ethe, a cri­ação de Gounod fica si­tuada muito abaixo do pa­tamar es­té­tico-fi­lo­só­fico da em­ble­má­tica peça que lhe serve de ins­pi­ração.

Os li­bre­tistas Mi­chel Carré e Jules Bar­bier não se pre­o­cu­param com a peça go­etheana no seu todo. Op­taram por con­cen­trar o en­redo uni­ca­mente na his­tória de amor entre Fausto e Mar­gue­rite, coisa que de tal forma in­dignou os ale­mães que estes ainda hoje se re­cusam a uti­lizar o tí­tulo atri­buído. Por isso, sempre que a obra é le­vada à cena em te­a­tros ale­mães o tí­tulo co­lo­cado nos car­tazes é Mar­gue­rethe.

Foi es­treada no Théâtre Ly­rique de Paris, a 19 de Março de 1959.

Re­posta em cena dez anos mais tarde, mas agora na Ópera de Paris (ocor­rência rara, com­pro­va­tiva de bom aco­lhi­mento), co­nheceu uma se­gunda versão. É esta a que mo­der­na­mente é le­vada à cena e nos é fa­mi­liar.

 

Agustín Lara
GRA­NADA

Algumas can­ções po­pu­lares são tão exi­gentes para o cantor in­tér­prete como o é ge­ral­mente uma ária de ópera. Tal é o caso desta ce­le­bér­rima canção de Lara. Por essa razão, desde o acla­mado Mario Lanza ela tem sido can­tada pelos mai­ores te­nores lí­ricos. Coisa que em muito con­tri­buiu para o seu su­cesso junto de todo o tipo de

pú­blicos. Per­mite também pôr em re­levo as qua­li­dades vo­cais do in­tér­prete que, ne­ces­sa­ri­a­mente, não podem ser es­cassas. Esta canção de autor me­xi­cano es­pelha, da me­lhor ma­neira, o ca­rácter in­con­fun­dível da mú­sica po­pular es­pa­nhola.

 

Pi­etro Mas­cagni
CA­VA­LARIA RUS­TI­CANA

In­ter­mezzo”

Este é um ex­pres­sivo mo­mento or­ques­tral ex­traído da pri­meira e mais co­nhe­cida ópera com­posta por Mas­cagni e também um dos mais fa­mosos e emo­ci­o­nantes in­ter­mezzi ins­tru­men­tais de toda a his­tória da ópera. In­ter­mezzo é um trecho pu­ra­mente or­ques­tral que, para além das op­ções es­té­ticas do autor, também serve muitas vezes para as­si­nalar um salto tem­poral na acção dra­má­tica, ou então cumpre a função prá­tica de dar tempo para que se efectue uma mu­dança de ce­nário ou para que os can­tores-ac­tores possam

trocar de in­du­men­tária.

 

Joly Braga Santos
4ª SIN­FONIA
4.º an­da­mento, Hino à Ju­ven­tude

Na sua versão ori­ginal esta sin­fonia tinha um final pu­ra­mente or­ques­tral, clímax da obra; mas mais tarde Braga Santos de­cidiu compor um final coral de­di­cado às Ju­ven­tudes Mu­si­cais, mo­vi­mento as­so­ci­a­tivo de que foi um dos fun­da­dores em Por­tugal (a JMP –Ju­ven­tude Mu­sical Por­tu­guesa).

Porém, a versão com o epí­logo coral é muito ra­ra­mente exe­cu­tada.

Al­guns es­pe­ci­a­listas têm con­si­de­rado que o coro não en­ri­quece a mú­sica, nem mesmo con­tribui para dar ao final da obra maior gran­di­o­si­dade, como seria su­posto e cer­ta­mente pre­ten­dido pelo com­po­sitor.

Pa­rece-me uma opi­nião bas­tante dis­cu­tível. Pes­so­al­mente, tenho pre­fe­rência pela versão coral. Seja como for, este con­certo, ao optar pelo ina­bi­tual também per­mi­tirá ao pú­blico fazer uma com­pa­ração de modo a poder me­lhor fun­da­mentar o seu juízo.

O quarto e úl­timo an­da­mento, Lento, é o mais longo, sendo cons­ti­tuído por três sec­ções prin­ci­pais: uma lenta in­tro­dução se­guida de duas sec­ções te­ma­ti­ca­mente di­fe­ren­ci­adas. Chamo a atenção para a in­ter­venção dos quatro trom­petes que dão um brilho es­pe­cial à so­no­ri­dade global da or­questra através da cri­ação de um fundo rít­mico. É, se­gundo os es­pe­ci­a­listas, uma pas­sagem tec­ni­ca­mente bas­tante di­fícil de exe­cutar. Com este seu final de grande efeito a 4º sin­fonia de Braga Santos tem sido das mais aca­ri­nhadas pelo pú­blico. Acla­mada em Por­tugal e no es­tran­geiro, onde, fe­liz­mente, se tem tor­nado cada vez mais co­nhe­cida.

 

Giu­seppe Verdi
Na­bucco

Va, pen­siero...”

Cele­bér­rimo coro pa­trió­tico em que mú­sica e povo se unem for­mando um todo único. Ex­pressão do pro­fundo de­sejo de li­ber­dade e au­to­nomia do povo ita­liano em me­ados do sé­culo XIX. Verdi es­ta­be­lece um pa­ra­lelo entre a si­tu­ação dos he­breus opri­midos no tempo de Na­bu­co­do­nosor e a do povo ita­liano do seu tempo. Isso lhe irá con­ferir de ime­diato enorme fama, pres­tígio e o es­ta­tuto de pri­meiro grande com­po­sitor de Itália.

 

É a ter­ceira ópera com­posta por G.Verdi, cons­ti­tuindo um marco na sua car­reira de mú­sico por ter sido a par­ti­tura que em de­fi­ni­tivo es­ta­be­leceu a sua re­pu­tação. Ob­teve grande e ime­diato su­cesso, para mais no prin­cipal palco de Itália, o Scalla de Milão. Um triunfo que até essa al­tura o com­po­sitor que se iria tornar a prin­cipal fi­gura da mú­sica ita­liana do sé­culo XIX ainda não tinha co­nhe­cido. Em 4 actos, com li­breto da au­toria de­Te­mis­tocle So­lera ba­seado numa peça de Eugène Anicet-Bour­geois e Francis Cornue, foi es­treada em Milão no ano de 1842. A acção de­corre em Je­ru­salém e na Ba­bi­lónia no re­cuado ano 587 a.C., du­rante o rei­nado de Na­bu­co­do­nosor II (o Na­buco, pro­ta­go­nista da ópera), rei da Ba­bi­lónia. É o ano em que se dá a to­mada de Je­ru­salém pelos as­sí­rios. Pa­re­cendo estar a falar de um tempo muito dis­tante, Verdi envia po­de­rosa men­sagem po­lí­tica para os seus con­tem­po­râ­neos no in­te­rior da Nação ita­liana, lu­di­bri­ando ha­bil­mente a cen­sura da época. Os es­pec­ta­dores ita­li­anos desses anos Oi­to­centos logo en­ten­diam que os he­breus da ópera eram eles pró­prios, ci­da­dãos de uma Itália ocu­pada, opri­mida e hu­mi­lhada.



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Grande Gala de Ópera

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O au­tên­tico pa­tri­o­tismo é o que, à luz dos va­lores do hu­ma­nismo, uni­ver­sa­liza as qua­li­dades de uma Nação.

Im­buído deste es­pí­rito que a crise con­voca, o mega es­pec­tá­culo de aber­tura volta a trazer a ópera à Festa, de­pois do su­cesso al­can­çado em 2009. Mas desta vez a gala é, pela sua di­mensão assim como pelo seu con­teúdo ar­tís­tico, bem mais am­bi­ciosa.

O es­pec­tá­culo ofe­rece-nos ori­ginal com­bi­nação ente dois uni­versos: o da ópera e o da sin­fonia. Será por isso gala lí­rico-sin­fó­nica in­vulgar, desde logo pela sua rica di­ver­si­dade: tre­chos cé­le­bres do re­por­tório lí­rico reúnem-se com ou­tros des­co­nhe­cidos do não ini­ciado.

Como se isto não bas­tasse, o pro­grama in­clui ainda can­ções po­pu­lares e peças co­rais sin­fó­nicas que não são ópera.

Te­remos assim, uma ar­ti­cu­lação não só iné­dita em es­pec­tá­culos desta na­tu­reza como também de ele­vada exi­gência téc­nico-ar­tís­tica para os seus pro­ta­go­nistas (ma­estro, can­tores, or­questra, coro). Um es­ti­mu­lante de­safio que Avante! e Gi­násio Ópera (co-pro­du­tores do es­pec­tá­culo) qui­seram en­frentar.

 

João Maria de Freitas Branco

Compositores

JOSÉ VIANA DA MOTA (1868-1948) Português, nascido na ilha de São-Tomé, filho de pais portugueses, a verdade é que Viana da Mota possuía uma mentalidade pouco lusíada, fruto da sua educação e vivência até aos 32 anos na...

Maestros, Solistas e Coros

Kodo YamagishiMaestro Foi maestro assistente em montagens de óperas no Festival de Verão de losterneuburg (1997), no Festival Haydn de Eisenstadt (1998 e 1999) e no Opern Air em Gars am Kamp (2001 e 2002) (Áustria). Em 2000 foi director musical de L’Enfant et les...

Somos todos construtores da Festa do Avante!

A pouco mais de uma se­mana da aber­tura das portas da Quinta da Ata­laia, os mi­li­tantes co­mu­nistas e muitos de­mo­cratas amigos do PCP em­pe­nham-se na cons­trução da maior ini­ci­a­tiva po­lí­tico-cul­tural na­ci­onal, ta­refa para a qual todos somos cha­mados a con­tri­buir.

Alves Redol e Manuel da Fonseca nasceram há 100 anos

Num ano em que a ex­po­sição po­lí­tica do Es­paço Cen­tral da Festa do Avante! é de­di­cada ao 90.º ani­ver­sário do Par­tido, Li­ber­dade, De­mo­cracia, So­ci­a­lismo: um Pro­jecto de Fu­turo, são evo­cados dois ex­po­entes da cul­tura na­ci­onal e que são, ao mesmo tempo, parte in­te­grante da his­tória do PCP – Alves Redol e Ma­nuel da Fon­seca, ambos nas­cidos há 100 anos.

Promover a Festa

Mais de 30 pessoas participaram, sábado, na Barragem de Montargil, num concurso de pesca desportiva, que teve como objectivo promover a Festa do Avante!. Esta iniciativa, organizada pela Comissão de Freguesia de Montargil do PCP, visou, de igual forma, valorizar a pesca...

Abrir caminhos para uma sociedade mais justa

In­ter­ro­gado sobre se «po­derá o mundo de hoje ser re­pro­du­zido pelo te­atro», Ber­tolt Brecht res­pondeu: «Uma coisa fica, porém, desde já, fora de dú­vida. Só po­de­remos des­crever o mundo ac­tual para o homem ac­tual na me­dida em que o des­cre­vemos como um mundo pas­sível de mo­di­fi­ca­ções». Apro­vei­tando este ra­ci­o­cínio, Ma­nuel Men­donça e Pedro Lago ex­pli­caram ao Avante! o que o vi­si­tante da Festa po­derá en­con­trar nos três dias do Avan­te­atro, es­paço que vai manter as artes de palco, já tra­di­ci­o­nais, com uma pro­gra­mação que in­clui te­atro, te­atro para a in­fância, dança, mú­sica e o ci­nema do­cu­men­tário.

Encontro solidário e internacionalista

Pre­sente na Festa do Avante! desde a sua pri­meira edição, o Es­paço In­ter­na­ci­onal dis­tingue-se pela viva ex­pressão da luta dos tra­ba­lha­dores de todos os con­ti­nentes, e da so­li­da­ri­e­dade dos co­mu­nistas por­tu­gueses para com as ba­ta­lhas tra­vadas pelos povos contra o im­pe­ri­a­lismo e a ex­plo­ração, pelo pro­gresso e jus­tiça so­cial, pela so­be­rania e in­de­pen­dência, pelo so­ci­a­lismo.