Morreu João Falcato
Faleceu, no passado dia 31 de Julho, o camarada João Alves Teixeira Falcato, um dos mais ilustres e esclarecidos médicos da sua geração e um notável marxista, humanista, autodidacta e poliglota (dominava sete línguas).
Nascido em Estremoz em 1931 filho de um construtor de carroças, foi-lhe destinada a profissão de oleiro, para a qual recebeu a respectiva habilitação. Mas exerceu-a por pouco tempo, pois nunca abandonou os estudos – aos 20 anos, saiu da sua terra e rumou a Lisboa onde se matriculou na Faculdade de Medicina. Embora tenha tido que se sustentar – dando aulas e fazendo traduções e sebentas – concluiu o curso com altas classificações.
A sua actividade antifascista iniciou-a ainda em Estremoz, aos 17 anos, primeiro na campanha eleitoral de Norton de Matos e depois como membro activo da Juventude Comunista e do MUD. Aderiu ao PCP em 1956. Desde a sua chegada a Lisboa que foi um dos mais activos membros da célula do Partido na Faculdade de Medicina, tendo feito parte de uma lista para a Associação de Estudantes em 1953 que, após a vitória eleitoral, foi dissolvida pela PIDE, que encerrou a associação. Mais tarde, em 1958, foi elemento proeminente da comissão de estudantes apoiante da candidatura do Arlindo Vicente, tendo sido membro do seu secretariado. Foi de particular relevo a sua intervenção no processo de unificação desta candidatura com a de Humberto Delgado.
Escapando à repressão que se seguiu à farsa eleitoral, João Falcato foi para a Suíça, onde teve que fazer mais três anos e meio na Universidade de Zurique para lhe ser concedido o diploma de médico, obtendo a melhor classificação do seu curso. Ingressou nos quadros da Roche, onde ficou até ao 25 de Abril.
No 1.º de Maio de 1974 estava em Portugal e não mais regressou à Suíça. Por cá, transformou-se num dos mais destacados construtores do Serviço Médico à Periferia – berço do Serviço Nacional de Saúde. Com o 25 de Novembro, foi afastado.
João Falcato trabalhou ainda como perito da CGTP-IN, representando no Tribunal do Trabalho os interesses dos trabalhadores com lesões laborais, e como vice-presidente do Gabinete de Planeamento da Saúde de Moçambique. Esteve ainda como director da sub-região da África Oriental da Organização Mundial de Saúde. Traduziu ainda várias obras do alemão, do russo, do inglês e do francês.