A bancarrota não é do povo
Depois da greve geral de dia 15, os protestos incessantes mantêm-se em toda a Grécia. Papandreu manobra, remodela o governo, promete um referendo, apela à unidade nacional, mas o sentimento de revolta aumenta na população que luta pela sobrevivência.
Crise expõe limites e contradições do capitalismo
«Se o novo memorando foi aplicado, terei sofrido, em 2010 e 2011, uma redução global de 50 por cento dos rendimentos. Isto inclui as medidas já aplicadas de redução dos salários, a eliminação do 13.º e 14.º meses e as subidas dos impostos directos e indirectos.»
Estas palavras de Despina Spanou, dirigente da Adedy, a confederação sindical grega do sector público, em entrevista ao L´Humanité (16.06), reflectem a gravidade da situação em que se encontram a esmagadora maioria dos trabalhadores gregos.
A oposição ao novo pacote de austeridade é cada vez mais uma questão de sobrevivência, num país em que o desemprego atinge oficialmente os 16,2 por cento, elevando-se a mais de 20 por cento em termos reais. Este flagelo abate-se com especial gravidade sobre os jovens, 42,5 por cento dos quais estão desempregados, e tenderá a aumentar se o chamado programa de «médio-prazo», exigido pela troika for para a frente.
Entre as várias medidas antipopulares destaca-se a supressão de mais 150 mil postos de trabalho, a flexibilização da legislação laboral, a subida do IVA reduzido de 13 para 23 por cento, cortes nas pensões e benefícios sociais, uma vasto plano de privatizações, que significam mais despedimentos.
A greve geral de dia 15 constituiu uma poderosa resposta dos trabalhadores e outras camadas da população. Fábricas, comércio, repartições públicas, hospitais, todos os transportes, com excepção da aviação, paralisaram durante 24 horas.
Atenas, a capital grega, assistiu nesse dia a várias manifestações com muitas dezenas de milhares de pessoas. Noutras 67 cidades a população saiu às ruas para expressar a sua indignação.
Quando os de cima tremem
Logo no dia seguinte, quinta-feira, 16 a PAME, Frente Militante de Todos os Trabalhadores, voltou a convocar manifestações massivas em Atenas e noutras 55 cidades. No comício na capital, a secretária-geral do partido comunista (KKE) exigiu convocação de eleições «para que o povo possa infligir um primeiro poderoso golpe no sistema político burguês. Quanto mais fraco for o governo que daí resultar, mais fácil será ao povo travar as medidas mais nefastas».
Aleka Papariga apelou ainda à firmeza e determinação na luta: «Não prestem atenção às ameaças de que se o povo não se submeter perderá os salários e as pensões. Eles tentam transferir os seus problemas para o povo. Tentam transformar o seu medo e pânico, ante o desmascaramento do sistema capitalista e da União Europeia, no medo e pânico do povo. Quando os de cima tremem, os de baixo devem passar à ofensiva ainda com mais vigor. A crise na zona euro, na Irlanda e em Portugal é profunda. Esperam-se problemas na economia de Itália e o agravamento da crise em Espanha», lembrou ainda Papariga, considerando que todos os povos serão confrontados com a crise do capitalismo instalada na Europa.
As manifestações prosseguiram no sábado e novas greves e protestos foram convocados para esta semana. No domingo, o primeiro-ministro anunciou um referendo «sobre as grandes reformas» lá para o Outono. No mesmo dia, os trabalhadores da companhia pública de electricidade PPC, responderam com uma greve de 48 horas a partir da meia-noite, prevendo cortes de corrente: «A grande batalha começa! Todos à greve de 48 horas», proclamou o sindicato do sector.
O protesto dos «Indignados»
Entretanto, o chamado movimento dos indignados continua a ocupar a Praça Sintagma, frente ao parlamento, bem como os centros de várias outras cidades. Interrogada pelo L´Humanité (16.06) sobre a natureza deste movimento, Alega Papariga respondeu que o seu partido previa há muito o surgimento de «um movimento de massas popular mais amplo e sem experiência política». «É uma coisa que desejávamos», acrescentou, revelando que membros do partido e da juventude distribuíram folhetos na praça e receberam «reacções positivas».
«Fomos duas vezes à Sintagma de maneira organizada, em massa, nos dias 11 e 15», relatou Papariga, notando que a praça está dividia em duas. Em cima estão as forças nacionalistas e conservadores e em baixo «a multidão espontânea, simples e progressista. Organizam assembleias populares».
«Foi lá que distribuímos os folhetos. Dizem-nos que haverá um partido de pessoas sem partido. Nós não criticamos a Praça em geral, mas esta concepção. A nossa crítica fundamental reside no facto de que não deve haver conflito entre o espontâneo e o organizado».