Coisas que um povo não pode aceitar

Vasco Cardoso

Na conferência de imprensa em que o Governo anunciou o pacto de submissão e exploração que representa a intervenção externa do FMI/BCE/UE, o primeiro-ministro José Sócrates foi até onde o descaramento de muitos e a imaginação de outros tantos ainda não tinham conseguido chegar.

Para esconder a real dimensão e gravidade deste pacote de agressão aos direitos dos trabalhadores e do povo português, disse aquilo que este não tinha, para esconder aquilo que realmente contém. Um verdadeiro artista, um demagogo de primeira linha que procurou passar uma vez mais um atestado de estupidez ao povo português. Uma habilidade que, aliás, ajuda a compreender melhor – na lógica dos interesses dos grupos económicos e financeiros – porque é que Sócrates e PS serviram no passado, servem no presente e são aposta para o futuro.

Do lado do PSD e CDS assistimos a outro número. Ambos proclamaram vitória e os dois simularam distanciamentos para esconder o seu efectivo apoio a este golpe.

Mas por mais voltas que o mundo dê, por mais operações mediáticas e informativas – cada vez mais intensas e especializadas em desinformar e formatar –, por mais palavras de circunstância, por mais mentiras e dissimulações que venham a construir, a verdade é que estes três partidos, na continuidade da política de desastre nacional que há 35 anos estão a impor ao País, ficarão para sempre amarrados à pior golpada que foi dada aos direitos do povo e à soberania nacional desde os tempos do fascismo.

Êxitos e vitórias sim, mas para o grande capital nacional e estrangeiro, pois para os trabalhadores e o povo o que aí vem é mais desemprego, mais exploração, mais pobreza e menos salários, menos serviços públicos, menos direitos, menos democracia e soberania. Retrocesso, declínio, humilhação e abdicação nacional, eis o que representa a dita «ajuda».

Se FMI/BCE/UE são o instrumento que o grande capital determinou para liquidar direitos e apropriar recursos, foram PS/PSD/CDS que, de forma ilegítima, lhes abriram a porta. Uma ilegitimidade que nenhuma manobra ou acto formal futuro poderá apagar. Uma ilegitimidade que o povo português terá sempre – pois é nele que a soberania reside – possibilidade de reverter. Uma ilegitimidade que torna mais urgente e necessária a ruptura e a mudança de que o País tanto precisa.



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