Quem servem?

Henrique Custódio

«O PCP exige ao Governo que seja concretizado o direito de informação que constitucionalmente lhe é devido e é devido ao povo português, sobre as necessidades de facto de financiamento do Estado a curto, a médio e a longo prazo, sobre qual é o montante e a origem da dívida externa», disse há dias Jerónimo de Sousa. A frase foi citada nos jornais e não teve um mínimo de resposta por parte do Governo, enquanto os partidos seus parceiros no «arco do poder» fogem do assunto a sete pés – o que não acontece por acaso.

É que, nela, residem questões-chave sobre a «crise» e o «resgate financeiro» do País a que ninguém quer responder.

Mas o último relatório do Eurostat (de 26 de Abril último) dá-nos umas luzes.

«Um certo número de estados», diz o documento, «foram confrontados com as consequências da crise bancária e a necessidade de tratar os activos desvalorizados (vulgo “tóxicos”). Em alguns casos, isso conduziu à criação de estruturas específicas de engenharia financeira (“défaisance financière” no original), tendo um apoio importante por parte do Estado. Foi o caso da Dinamarca, da Alemanha, da Irlanda, da Letónia, da Áustria, de Portugal e do Reino Unido» (sublinhados nossos).

Já o sabíamos, mas é conveniente vê-lo afirmado pelo Eurostat: Portugal praticou a tal «engenharia financeira» (que, na prática, significou «nacionalizar» os prejuízos dos bancos resultantes da especulação desenfreada dos mercados bolsistas), como se viu notoriamente com o BPN e o BPP – onde foram enterrados pelo menos quatro mil milhões de euros (para se ter uma ideia da enormidade, basta recordar que os cortes aplicados aos salários de  todos os funcionários públicos ascendeu aos mil milhões de euros) –, mas também com todos os outros bancos do País, que receberam avales do Estado na ordem de muitos milhares de milhões de euros.

Portanto, quando toda esta gente papagueia ensurdecedoramente que «o País tem vivido acima das suas possibilidades», está a falar de quê e de quem?

Não é certamente do endividamento público português – o famoso défice – que, também segundo o mesmo relatório do Eurostat, se situa na média europeia e tem mesmo, à frente, países como a Irlanda (32,4% de défice), a Grécia (10,5%), o Reino Unido (10,4%) ou a Espanha (9,2%), seguindo-se finalmente o nosso país com 9,1%. Mas a França (segunda economia da UE) também não anda longe, com um défice de 7% e a Itália para lá caminha, com 4,6% à sua conta.

Pelo que se pergunta: se Portugal, com 9,1% de défice, precisa tão urgentemente de um «resgate da dívida» caucionado pela «troika» FMI/BCE/CE, por que razão os 10,4% de défice do Reino Unido, os 9,2% da Espanha ou, até, os 7% da França não provocaram uma igual urgência?

Que responde a isto o Governo de José Sócrates?

Por que não respondeu com isto, quando foi «pressionado» pela União Europeia para «resgatar a dívida»?

Finalmente, a quem estão a servir – o Governo PS e seus comparsas do PSD e do CDS – quando se dispõem a acatar docilmente as intoleráveis ingerências da «troika do resgate»?

Ao povo português, que os elegeu, é que não estão, de certeza.   



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