Ao domicílio
Foi mais um aniversário de Abril e, em harmonia com uma tradição digna e até democraticamente necessária, seria também uma cerimónia comemorativa no Parlamento com a presença dos eleitos pelo povo e do Presidente da República que ali se deslocaria. Este ano, porém, sobreveio uma dificuldade: a Assembleia havia sido dissolvida, o que significa que os deputados já não estavam ali, digamos assim, reunidos em sessão normal. É certo que, não obstante, continua lá e em funções uma Comissão Permanente constituída por representantes de todos os partidos com assento na AR. Também é certo que os parlamentares «dissolvidos» não estão propriamente proibidos de entrar no Palácio de São Bento. Ainda assim as coisas não estavam como era costume, e essa anormalidade parece ter surgido ao senhor Presidente Cavaco como uma bênção descida dos céus para o proteger, como ele decerto merece; para o proteger precisamente da habitual sessão comemorativa na AR, acto público que em tempo oportuno ele próprio fez saber que não é do seu agrado. E parece possível, provável até, que esse desagrado radique no facto de nessas sessões sempre falar um deputado por cada partido ali representado, acontecendo que um ou outro vem dizer coisas com que o senhor Presidente não concorda, coisas que lhe custam a ouvir. Sendo assim, adivinha-se, ou pelo menos é legítimo supor, que o Presidente Cavaco nem por um momento considerou a possibilidade de manter também este ano uma cerimónia evocadora de Abril no âmbito do Parlamento, ainda que eventualmente com menor número de presenças mas mantendo-se a já tradicional possibilidade de cada partido poder dirigir-se ao País dando conta da sua avaliação do passado, do presente e do futuro. E o facto é que o Presidente da República inventou uma alternativa: comemorar o 25 de Abril na sua própria residência oficial. Seria a comemoração ao domicílio, ideia verdadeiramente inovadora. E foi assim que aconteceu.
A vantagem
A televisão mostrou como foi. A assistência à cerimónia não terá sido muito menos numerosa do que o teria sido em São Bento: terão estado em Belém menos deputados do que estariam na AR, mas talvez a sua ausência tenha sido compensada pela presença de figuras de uma espécie de jet set político, ou satélite da vida política, que surge quando as circunstâncias lhe são propícias. Como era esperável e bem se justificava, lá estavam capitães de Abril, «autoridades civis e religiosas», também gentilíssimas esposas de destacadas figuras e populares a olhar de longe. Mas a diferença na verdade importante residiu nos oradores. Desta vez, e graças à presidencial invenção deste modelo comemorativo, quem escolheu os oradores foi o próprio senhor Presidente Cavaco; e foram eles apenas quatro contando consigo mesmo, e designados a dedo. Haverá quem precipitadamente reflicta que daí resultou apenas economia de tempo, coisa pouca por mais que o tempo seja dinheiro. Mas enganar-se-á: a grande vantagem da inovação foi a de que desta vez não houve nenhuma voz do Partido Comunista Português a incomodar os presidenciais ouvidos com a invocação dos valores de Abril, dos projectos de Abril, das vitórias de Abril, algumas destas destruídas mas outras subsistentes e para cuja defesa constantemente o Partido convoca o povo. Finalmente, o senhor Presidente conseguira arranjar maneira de negar a palavra aos comunistas, pelo menos no decurso da solene celebração do 25 de Abril. Cidadão telespectador habituado a outro modelo de cerimónias oficiais, atrevo-me a supor, com razão ou sem ela, que alguma sensação de alívio, alguma felicidade, inundou o peito do Presidente de todos nós, aliás muito justificadamente, pois não é pequeno feito este de calar comunistas. E se me engano desde já peço desculpa, como me cumpre. Quanto ao mais que as reportagens na TV me permitiram ver e ouvir, nem muito se me impõe como exigindo aqui uma referência nem o espaço mo permitiria. Mas não quero acabar sem incluir aqui uma ou duas notas pessoais: dizer do reconforto que senti por ver agraciados o maestro Pedro Osório e o jornalista Luís Filipe Costa (voz quase sempre esquecida, ou estrategicamente omitida, da manhã do 25 de Abril) e registar a suspeita feliz de que Isabel da Nóbrega se referia a José Saramago quando evocou os que já não podiam estar ali.