Romper ou não romper, eis a questão

Jorge Messias

«A via das reformas democrático-burguesas é um percurso de dilações, de adiamentos, de agonias dolorosas do organismo popular. Os que mais sofrem com esta putrefacção são o proletariado e o campesinato... De outra forma, seria mais fácil aos operários “mudarem as espingardas de um ombro para o outro”, isto é, dirigirem contra a burguesia a arma que a própria burguesia lhes fornece, a liberdade que esta lhes possa conceder, as instituições democráticas que forem surgindo nos terrenos limpos de regimes de servidão. Portanto, para o proletariado é mais vantajoso que as transformações se produzam por via revolucionária... As partes apodrecidas são eliminadas directamente...

Mas o marxismo (também) ensina o proletariado a não ficar à margem da revolução burguesa, a não lhe ser indiferente, a participar nos seus desenvolvimentos da forma mais enérgica, a lutar pela satisfação das suas reivindicações imediatas e pela instalação de condições que tornem possível preparar as forças revolucionárias para a vitória final. (Porque) há “democracias burguesas” e “democracias burguesas”».

V.I. Lenine, «Duas tácticas da social-democracia na revolução democrática».

 

Para o nosso povo, nesta fase dramática da sua história, a distinção marxista da lógica da história tem especial interesse.

Primeiro, foi a afirmação do «25 de Abril», com a devolução ao povo dos direitos, liberdades e garantias que o fascismo lhe negara. A intenção central não era ainda banir do Estado o capitalismo mas transformar as instituições através de legislação democrática que fosse o garante das liberdades básicas. O 25 de Abril venceu graças ao apoio popular. Mas manteve, a nível do poder, as suas raízes burguesas. Foi a sua fase de plena afirmação. Este período durou ano e meio.

Com o 25 de Novembro de 1975 (também militar e burguês mas fortemente capitalista), os argentários recuperaram parte das posições perdidas com a queda do fascismo e com o avanço do esboço de uma sociedade nova. Privatizaram, reprivatizaram, tolheram o passo aos trabalhadores. Fizeram cegos pactos entre os poderes públicos e o grande capital. Foi o início do que continua a ser, por enquanto, a era da «ditadura do capital», o espaço da negação da afirmação democrática.

Importa, entretanto, observar que o percurso desta reocupação senhorial não foi total e ficou pontilhado por desaires ocasionais e por recuos estratégicos impostos pelas classes dominadas. Irá chegar o dia em que se verá como tudo isso foi importante e marcou a caminhada para uma ruptura política inevitável. Muitas das conquistas revolucionárias – no plano laboral, na Segurança Social, na economia, na saúde, etc. – sobreviveram na prática diária dos trabalhadores e nos textos da Constituição de Abril. A etapa da retoma política e financeira em Portugal não foi para os banqueiros uma marcha triunfal, tal como alguns esperavam. E aproxima-se agora a «hora da verdade» quando, frontalmente, os democratas se levantarem em defesa das conquistas e valores da República. A primeira barricada a erguer é já em 5 de Junho, com o nosso voto nas urnas.

 

Os sonhos maus dos encapuzados

 

Entre escândalos e revelações, a hierarquia religiosa bem poderá tentar as técnicas do silêncio e da abstenção mas não escapará à denúncia pública dos seus ambiciosos projectos de expansão. Os tempos que actualmente passam são particularmente propícios a esse esclarecimento.

O capitalismo mundial está em crise. Bispos e encapuzados são tentáculos do gigantesco polvo dos banqueiros. E as cúpulas católicas representam pilares do sistema capitalista. Não apenas por o apregoarem dos púlpitos que ocupam. A hierarquia pratica também o capitalismo mais «selvagem», totalmente despido de qualquer escrúpulo ético. Gere em todo o mundo centenas de «paraísos fiscais» onde a única palavra de ordem é não olhar a meios para atingir um só objectivo: enriquecer. Usa as suas universidades como uma extensão do governo capitalista mundial. Constrói impérios financeiros a partir de uma malha impressionante de trusts bancários cujas estratégias e financiamentos obedecem às directrizes do Vaticano. É parte interessada no saque dos pobres.

Quando lhe falam em ruptura, o encapuzado todo se arrepia. Recorda: «As hierarquias têm origem divina, os homens nasceram para sofrer e é preciso saber perdoar».

Discurso que já só engana aqueles que procuram ser enganados.



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