Compulsão

Jorge Cordeiro

O congresso do PS será pasto farto para todos quantos se dedicam a fenómenos compulsivos.

Do princípio ao fim, dos discursos aos simbolismos escolhidos, dos filmes exibidos às mensagens apresentadas, o evento e o ambiente que o envolveu é um caso sério de estudo sobre o impulso da mentira, que dificilmente um entendimento leigo, e cientificamente menos elaborado, permitirá alcançar. Descortinar sobre se quem mente assim o faz com a motivação que está associada ou, se fazendo-o, acredita no que diz, mesmo que isso corresponda ao inverso do que diria se seguisse a verdade; ou, ainda, se quem ali o ouvindo acredita por mero fervor clubista ou por força de fenómenos de arrasto emocional que só a psicologia poderá explicar, será coisa que seguramente ocupará os estudiosos da matéria. Um congresso onde tentar descortinar pontos de contacto com a realidade se revela exercício impossível. Ali se agitou o espantalho da direita e dos perigos da sua agenda política com tal convicção que se seria levado a crer que não foi pela mão do PS e do seu Governo que a política de direita conheceu nos últimos anos um impulso e uma acentuação de fazer inveja a PSD e CDS-PP. Ali se verberaram as intenções do PSD em matéria de legislação laboral, das privatizações ou da saúde como se a facilitação e embaratecimento dos despedimentos, a extensão de privatizações concretizadas ou em agenda e o encerramento de dezenas de unidades de saúde não tivessem sido já obra do actual Governo. Ali se tentou construir a imagem de defesa do País que nem a artificial encenação construída pelo agitar de centenas de bandeiras nacionais pode ocultar a assumida posição de abdicação nacional e de venda do País que mais coerentemente recomendaria que ali, naquele espaço, esvoaçassem bandeiras da Alemanha e da União Europeia. E para que a mentira não quedasse inacabada aí tivemos, em versão mais gasta mas sempre tentadora, o número dos «sinais à esquerda» – aquelas peninhas amarelas para tentar fazer do encardido pássaro um lustroso canário – a que o Alegre do costume e o regressado Ferro Rodrigues tão bem se prestam.

 



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