Vaticínios

Henrique Custódio

Dois economistas norte-americanos, ambos Prémio Nobel da Economia e nenhum aparentado, sequer vagamente, à visão marxista-leninista dos processos económicos mundiais (Paul Krugman foi membro da administração Reagan e Joseph Stiglitz serviu a administração Clinton), pronunciaram-se recente e energicamente sobre o «desvario do défice» que acometeu a Zona Euro.

Krugman denuncia o «masoquismo» da Europa com a sua «mania» de impor planos de austeridade, recordando que «a austeridade pode parecer bem a um país porque reduz a sua dívida, mas não tem em conta o custo que impõe aos vizinhos com as políticas restritivas».

Mas impõe também custos próprios, como sublinha Krugman: «Os aumentos de impostos e os cortes na despesa pública deprimirão ainda mais as economias, agravando o desemprego», além de que «cortar a despesa numa economia muito deprimida é muito auto-derrotista, até em termos puramente orçamentais», uma vez que «qualquer poupança conseguida é parcialmente anulada com a redução das receitas, à medida que a economia diminui». Por isso o Nobel da Economia (2008) é categórico: «Há que criar empregos, agora, e reduzir défices, depois».

Quanto a Joseph Stiglitz (Nobel em 2001), classifica as medidas de austeridade adoptadas por alguns países europeus como «excessivas» e «desastrosas», vaticinando que irão provocar um forte abrandamento económico. E especifica: «As economias europeias vão ser afectadas pelos cortes públicos, que visam reduzir os défices orçamentais e pela subida das taxas de juro».

Neste entrementes, chegou esta semana a Lisboa uma repolhuda delegação tripartida (FMI, BCE e Comissão Europeia) para impor ao nosso País os ditames do «resgate financeiro» que se propõem patrocinar, trazendo na bagagem arrogâncias meticulosas e brutais: cortes profundos nos serviços públicos (Saúde, Ensino e Segurança Social), «flexibilização» (pelos vistos total) da contratação colectiva e o que mais se verá.

Cá no burgo, Sócrates e Passos Coelho mergulham a fundo na «inevitabilidade» deste «resgate», esgadanhando-se ambos por levarem os eleitores a elegê-los como executantes da «obra», que antevêem propícia à concretização de malfeitorias governamentais até agora combatidas pela luta e resistência dos trabalhadores mas, com a cobertura do FMI, talvez finalmente «exequíveis».

E há números que já se conhecem: por três anos de empréstimo, o FMI empochará 520 milhões de euros e os «países europeus» (Alemanha, sobretudo) 1060 milhões de euros – isto só em juros e pago, naturalmente, cá pelo zé povinho.

Com um lucro destes, extorquido brutalmente aos portugueses, não se percebe onde está a «ajuda» da União Europeia nem a qualidade deste «favor»...

Entretanto, Krugman também expendeu um vaticínio: «acredito que há uma possibilidade plausível de a Grécia ser forçada a sair do Euro e esse contágio provocaria sérios problemas a todos os outros» (Portugal, Espanha e Irlanda).

É capaz de ser útil tomar atenção ao homem...



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