O pai da política de direita

José Casanova

Mário Soares está profundamente irritado com o PCP.

Porquê? Porque, diz ele, o PCP, com «o seu ódio de estimação ao PS», votou contra o PEC IV, levando à demissão do Governo.

Mas pior do que isso – muito, muito pior do que isso – para Soares, foi o facto de o voto do PCP constituir uma «aliança espúria com a direita».

E isso, alianças com a direita, é coisa inadmissível para o impoluto homem de esquerda que é Soares.

Aliás, o currículo de Soares é por demais elucidativo da sua coerência nessa matéria: numa primeira fase, aliando-se a todas as forças da direita, incluindo as mais estreitamente ligados ao regime fascista, Soares pôs o PS a liderar a contra-revolução em todas as suas manifestações, passando pelo terrorismo bombista e pelas várias tentativas de golpes reaccionários. Numa segunda fase, a fase institucional, Soares, em estreita e fraterna aliança com o PSD e o CDS, foi o iniciador da política de direita que, destruindo as principais conquistas da Revolução e colocando Portugal nas garras do capitalismo internacional, conduziu o País ao dramático estado em que se encontra.

Mas a memória de Soares é pequenina. E selectiva.

Acha ele que, na situação presente, a verdadeira atitude de esquerda seria votar a favor desse exemplar instrumento da política de direita que é o PEC IV – com o seu feroz ataque aos direitos e interesses dos trabalhadores, do povo e do País.

E, igual a si próprio, dispara contra o PCP, fugindo de registar a diferença entre o voto do PCP e os votos do PSD e do CDS – o primeiro, numa postura inequivocamente de combate à política de direita; os outros, com o inequívoco objectivo de substituírem o PS na prática dessa política comum aos três.

É certo que de Mário Soares tudo há que esperar; que ele, apresentando-se anti e pró-muita-coisa é, em primeiro lugar – e acima de tudo e à frente de tudo – anticomunista; que, para ele, os princípios são tantos e tão variados quantos os interesses que em cada momento defende.

Mas também é certo que, com opiniões como as acima citadas, exibe orgulhosamente aquilo que é: o pai da política de direita.



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