O ministro e as agências

Jorge Cordeiro

Para quem presumia, na sua inocência, que a intervenção das chamadas agências de notação era determinada por intoleráveis mecanismos de agiotagem destinados a assegurar a acumulação de lucros à custa do rendimento público, desengane-se. Para o ministro Vieira da Silva a culpa dos cortes do rating relativos a Portugal é da «oposição». O raciocínio não deixa de ser surpreendente. Admitindo-se, como se deve admitir na pessoa de um ministro, que ali more o mínimo de capacidade dedutiva capaz de ligar causa a efeito, permanece viva a dúvida sobre se o próprio o diz acreditando no que afirma ou o diz sabendo que mente. Das duas, uma: ou Vieira da Silva admite que afinal o que o Governo pretendia roubar em salários e reformas aos portugueses é moeda de troca e implícita aceitação da agenda de interesses dessas agências e de quem por detrás delas se esconde a embolsar o saque imposto aos estados e aos povos; ou insiste na estafante tecla da acalmia dos mercados à conta da qual, quer PS quer PSD, têm encontrado justificação para construir uma política de acumulação de lucros por parte do grande capital sobre a ruína dos rendimentos dos trabalhadores e das famílias portuguesas. Como alguém medianamente lúcido perceberá, não foi a crise política decorrente da rejeição deste novo pacote de medidas, em si mesma resultado directo de uma atitude ditada unicamente pela agenda e interesses do partido do Governo, mas sim a recusa desse novo insuportável ataque aos rendimentos e direitos dos trabalhadores e da população, que ofendeu os propósitos do grande capital e das instituições europeias ao seu serviço. Ofensa que tanto PS como PSD se disponibilizam para reparar. Dramatizações e jogos de palavras à parte, ambos se desdobram, num lamentável e indigno exercício de abdicação nacional, em juras e promessas de fidelidade ao que de novo a União Europeia (e de quem a determina) decidiu neste último conselho europeu para assegurar os níveis de exploração e de usurpação de soberania política e económica indispensáveis ao florescimento do grande capital transnacional.



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