Sobre a guerra e a crise

Luís Carapinha

Ao com­passo da mais grave crise sis­té­mica o im­pe­ri­a­lismo clama por guerra

Pros­segue a guerra de agressão contra a Líbia pro­ta­go­ni­zada por um con­junto de po­tên­cias com os EUA à ca­beça. Como era pre­vi­sível, desde que a 17 de Março o Con­selho de Se­gu­rança (CS) da ONU aprovou o ver­go­nhoso man­dato de in­ter­venção, a «zona de ex­clusão aérea» tornou-se no ca­valo de Tróia de uma guerra ter­ro­rista e es­po­li­a­dora que tem como alvo a so­be­rania na­ci­onal e in­te­gri­dade ter­ri­to­rial lí­bias. Dos 15 mem­bros do CS ne­nhum se opôs à guerra, in­cluindo dois dos cinco países com poder de veto, a Rússia e a China, que op­taram pela abs­tenção. Um dos 10 es­tados que vo­taram a favor de uma re­so­lução que num fa­ri­saísmo in­to­le­rável pro­clama como ob­jec­tivo su­premo a «pro­tecção dos civis» foi a Colômbia, pre­ci­sa­mente um dos re­gimes com mais si­nistro re­gisto em ma­téria de di­reitos hu­manos.

An­te­ri­or­mente, o CS já evi­denciara uma ce­le­ri­dade re­corde ao en­dossar o mais que du­vi­doso dos­sier líbio para esse fan­tasma que dá pelo nome de TPI, pro­tó­tipo de um apa­relho su­pra­na­ci­onal de (in)jus­tiça de classe, do qual, por pre­caução e em su­prema hi­po­crisia, nem se­quer os pró­prios EUA são subs­cri­tores…

Em todo este pro­cesso, em que a moral e a ética des­ceram ao nível do sub­solo e a Carta das Na­ções Unidas foi lan­çada à imun­dície, o se­cre­tário-geral da ONU es­teve ao nível do seu perfil, como fa­ci­li­tador e co­la­bo­rador di­li­gente de mais esta em­prei­tada im­pe­ri­a­lista.

 

Ao olhar os ecrãs te­le­vi­sivos e fo­lhear as pá­ginas da im­prensa dos meios da co­mu­ni­cação so­cial do­mi­nante não se en­con­tram os si­nais da de­vas­tação de uma guerra pér­fida que não poupa civis e des­trói me­to­di­ca­mente in­fra­es­tru­turas eco­nó­micas da Líbia. Os pro­pó­sitos re­ac­ci­o­ná­rios e ne­o­co­lo­niais da pre­sente cam­panha con­vertem-se em tabu e o es­can­da­loso e des­ca­rado saque das re­servas so­be­ranas e ac­tivos do Es­tado líbio perde-se nas en­tre­li­nhas. Dia após dia correm as ima­gens caó­ticas dos bandos ar­mados exul­tantes, sobre os quais já não é pos­sível es­conder serem «in­ca­pazes de ga­nhar ter­reno sem o apoio cru­cial dos bom­bar­de­a­mentos ali­ados» (El País.com, 29.03.11). Poucos es­tarão cons­ci­entes de que a ban­deira que os­tentam é a da de­funta mo­nar­quia líbia dos tempos em que o país se cur­vava sob o diktat fo­râneo e os EUA e a In­gla­terra aí dis­po­nham de bases mi­li­tares. Mas que im­porta isso quando se trata de salvar civis?

Ras­mussen, o se­cre­tário-geral de turno da NATO só pensa em salvar civis.

A NATO, que fi­nal­mente tomou de corpo in­teiro as ré­deas da ope­ração Odis­seia Ama­nhecer, amar­radas as con­vul­sões in­ternas sob o véu da con­cer­tação, acaba de es­trear nos céus (e, quiçá, já na terra) da Líbia o no­vís­simo con­ceito es­tra­té­gico apro­vado há cinco meses na Ci­meira de Lisboa. Quando se trata de salvar civis e ou­tras ma­té­rias afins, o back­ground da Ali­ança mi­litar im­pe­ri­a­lista é in­ve­jável. A Ju­gos­lávia ou as guerras em curso no Iraque e Afe­ga­nistão, com todo o seu ro­ti­neiro caudal de atro­ci­dades, aí estão para per­su­adir os mais re­ni­tentes em crer no zelo hu­ma­ni­tário do im­pe­ri­a­lismo.

Pe­ri­goso sinal dos tempos, a in­con­sis­tência de toda esta ope­ração é con­fran­ge­dora.

 

País rico em re­servas de pe­tróleo, gás e água doce, a Líbia en­frenta o es­pectro da di­visão e so­ma­li­zação. Ao in­tervir no país afri­cano em que a vin­cu­lação tribal per­ma­nece po­de­rosa, o im­pe­ri­a­lismo tenta al­cançar em se­manas ob­jec­tivos que na Ju­gos­lávia exi­giram anos.

A contra-ofen­siva da re­acção árabe, desde sempre apoiada pelas grandes po­tên­cias ca­pi­ta­listas, está em pleno de­sen­vol­vi­mento. Mais além da exi­gência fun­da­mental em aplacar os ge­nuínos mo­vi­mentos de re­volta po­pular, o caos e a vaga de­sa­gre­ga­dora que se ins­tala em vastas áreas cons­ti­tuem o re­verso da moeda da cres­cente cen­tra­li­zação ca­pi­ta­lista e da ten­ta­tiva de im­po­sição de uma nova ordem mun­dial he­ge­mó­nica que avança contra o tempo.

Ao com­passo da mais grave crise sis­té­mica o im­pe­ri­a­lismo clama por guerra. Será que Obama vai re­ceber um novo Nobel da Paz? ...

O im­por­tante é saber que sob estes ventos a Hu­ma­ni­dade na­vega rumo à ca­tás­trofe. Há que evitá-lo.



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