Comentário

Euro-desastre

João Ferreira

Image 5707

Segundo os resultados de um inquérito divulgado na semana passada, a maioria dos portugueses consideram que a introdução do euro foi «má» para a economia nacional.

A opinião relativamente ao euro, um dos principais instrumentos do processo de integração capitalista em curso, é uma das questões abordadas neste inquérito, divulgado em Portugal pela FLAD e elaborado em parceria com o German Marshall Fund dos EUA. Os resultados apresentados não deixam de merecer alguma reflexão, sendo certo que inquéritos deste tipo deverão, em qualquer circunstância, ser objecto de uma leitura crítica e precavida.

Os resultados não são propriamente uma novidade. Ao longo dos últimos anos, por diversas vezes, outras sondagens de opinião foram demonstrando o descontentamento da população portuguesa face à moeda única – consequência de uma década de empobrecimento relativo, de compressão dos salários, de redução do poder de compra, de divergência face à média da União Europeia.

Ainda segundo o inquérito, nesta opinião negativa face ao euro, os portugueses são acompanhados pela grande maioria dos povos dos outros países da zona euro (9 em 11 inquiridos no total), incluindo espanhóis, franceses e… alemães! Surpreendente? Então não temos nós vindo a afirmar ter sido este país o que mais beneficiou com a introdução do euro? Não estaremos perante uma contradição? Nem por isso…


Instrumento de dominação e exploração


A par de outros instrumentos, como é o caso das políticas comuns, o euro constituiu um factor fundamental no estabelecimento e aprofundamento das relações de dominação e de dependência entre os estados-membros da UE. Ou, melhor dizendo, entre o centro do sistema (com a Alemanha à cabeça) e a sua periferia (onde nos incluímos).

O euro permitiu um aprofundamento do mercado interno, agora mais unificado, garantindo aos grandes grupos económicos e financeiros das economias mais fortes, às multinacionais destes países, melhores condições de avanço sobre as economias dos diferentes estados-membros, à conquista de novos mercados e de mais lucros.

Ao mesmo tempo, prosseguiu o desmantelamento dos sistemas produtivos e dos mecanismos de protecção das economias mais vulneráveis, que assim ficaram de portas ainda mais escancaradas a este avanço.

Como consequência, os superávites de uns foram crescendo à medida da acumulação de défices por outros. A título de exemplo, em 2008, a Grécia importou mercadorias alemãs no valor de 8,3 mil milhões de euros, enquanto que as suas exportações para a Alemanha representaram apenas 1,9 mil milhões de euros (mais de 4 vezes inferior).(1)

O Euro, e em especial a política do Euro forte, serviu também os interesses do capital financeiro especulativo alemão, na sua estratégia de disputa de terreno face ao dólar e de atracção de capitais.

Mas o euro foi e é também um instrumento de exploração. Um instrumento de classe, que à conta dos critérios que trouxe atrelados (os do pacto de estabilidade) permitiu reduzir os custos unitários do trabalho, comprimir os salários e transferir os ganhos de produtividade do trabalho para o capital.

Os trabalhadores europeus têm-no sentido na pele e isto ajudará a explicar os resultados dos inquéritos de opinião em relação à moeda única. Os trabalhadores alemães não são excepção, bem pelo contrário…

A política económica alemã assente nas exportações – que representam cerca de 50% do seu PIB, sendo que o seu principal destino ainda são os países da UE – constitui a saída do capital alemão face ao empobrecimento do seu mercado interno, em resultado de uma muito significativa compressão da massa salarial. Entre 2002 e 2008, os salários brutos registaram na Alemanha cerca de metade do aumento médio verificado no conjunto dos países da UE.(2)


Renovado ataque à democracia


introdução da moeda única, ao serviço já se viu de quem, foi feita nas costas dos povos europeus e contra os seus interesses. Aliás, tem sido comum aos principais saltos dados no processo de integração o seu carácter antidemocrático.

A intenção assumida dos senhores da UE de prosseguirem e agravarem uma política de exploração e de regressão social à escala europeia, encontra no descontentamento popular uma indiscutível barreira. A transposição desta barreira revela-se crescentemente difícil no quadro de um regime democrático, mesmo que formal.

Assim devem ser compreendidas as investidas contra a soberania dos Estados, a chamada «governação económica» que, segundo nos dizem, é uma «exigência da moeda única». Desde há muito, assim funciona esta UE: cada passo dado justifica o seguinte e legitima o anterior. Até quando?

________________

1 Karl Muller, «Quem levou a Grécia à falência» in http://www.odiario.info/?p=1521

2 Idem, Ibidem



Mais artigos de: Europa

«Racistas no parlamento, não!»

Dezenas de milhares de pessoas manifestaram-se, na segunda-feira, nas principais cidades da Suécia, em protesto contra a entrada no Parlamento do partido de extrema-direita, na sequência das legislativas realizadas na véspera.

Prevenir catástrofes

O Parlamento Europeu aprovou, na terça-feira, 21, um relatório do deputado comunista João Ferreira sobre a prevenção de catástrofes naturais ou provocadas pelo homem.

CE reage às expulsões de ciganos

A Comissão Europeia anunciou, dia 14, a intenção de abrir um processo de infracção contra o Estado francês por discriminação racial, após a divulgação na imprensa de uma circular do Ministério do Interior...

Torturas da CIA

Antigos agentes e um relatório do inspector-geral da CIA confirmam não só a existência de uma prisão secreta na Polónia como a realização de interrogatórios sob tortura, segundo revelou a agência Associated Press (7.09). A...

ETA pronta a negociar

A ETA, organização armada independentista basca manifestou a sua disponibilidade para analisar os passos necessários com vista a uma solução democrática para o conflito basco, incluindo os compromissos a assumir da sua parte. Num comunicado divulgado no domingo, 19, por...