Associativismo Desportivo Popular – Questões à espera de resposta
Os problemas e as dificuldades vividas, na actualidade, pelo movimento associativo popular têm origem múltipla. Os dirigentes associativos necessitam de analisar aprofundadamente os diversos componentes da situação se desejarem manter viva uma das mais importantes formas de dinamização do tecido social.
Em relação aos clubes «populares» esta atitude é ainda mais importante. De facto, vivendo o associativismo popular problemas específicos, é indispensável repensar profundamente toda a problemática que envolve a sua actividade numa teia de dificuldades de toda a ordem.
A visão tradicional do associativismo deve permitir elaborar resposta para uma nova realidade, tanto mais quanto se sabe que a sua transformação e até liquidação, faz parte de um projecto de sociedade bem definido. Neste quadro apelar para a tradicional solidariedade, a necessária participação e indispensável assumpção de responsabilidades por muitos elementos da comunidade, é essencial mas não é suficiente.
Um vasto conjunto de questões exige uma análise lúcida e rigorosa, para se encontrarem respostas coerentes e adequadas:
- Como criar condições para que a função do «carola» (benévola, materialmente desinteressada) se possa manter?
- Como fazer reconhecer a sua fundamental função social, de modo a que se passe a entender a sua actividade como um autêntico «serviço público» prestado desinteressadamente à comunidade?
- Que tipo de soluções devem ser reivindicadas para viabilizar esta função de acordo com as transformações sofridas na sociedade?
- Como responder às necessidades de aperfeiçoamento e de desenvolvimento das capacidades destes elementos, consideradas como factores decisivos do progresso social e do desenvolvimento do desporto?
- Como criar condições e qual o quadro em que se deve compatibilizar o esforço dos «carolas» com os profissionais de qualquer categoria?
- Como responder às múltiplas necessidades da profissionalização no sector do desporto?
- De que tipo de profissionais têm necessidade os «carolas» para se poder garantir simultaneamente o carácter democrático do funcionamento do clube e a indispensável eficácia na sua acção?
- Quais as condições que devem ser criadas de modo a conciliar aquela acção conjunta impedindo o aparecimento de conflitos e faltas de coordenação?
- Quais as qualificações que devem ser requeridas a um «carola» para o exercício desinteressado das suas funções?
- Como definir as áreas de acção e as qualificações necessárias para fazer avançar um projecto assente na acção conjunta de benévolos (os «carolas») e de profissionais?
- Como evitar o aparecimento e a proliferação dos falsos «carolas», assim como do falso profissionalismo? No fundo como clarificar a situação de ambos?
- Quais as formas de actuação interna no clube que devem ser encorajadas para garantir uma maior adequação deste às novas condições de vida, de trabalho, de fruição do tempo livre, de formação, etc., dos seus sócios?
O conjunto de questões deste tipo ficou longe de se completar. Apresentaram-se estas formas para o início de uma reflexão que é urgente iniciar e sem a qual a desorientação reinante só ajudará a alcançar os objectivos daqueles para quem a actividade benévola constitui um entrave. Mas proceder, como primeira fase desse trabalho de reflexão, ao levantamento exaustivo dos problemas criados por cada situação concreta constitui uma forma de se poder perceber, com maior clareza, qual o significado da «crise» do associativismo, qual a função que o «carola» deve desempenhar na sociedade actual e qual o papel do clube popular no interior da dinâmica do fenómeno social global. De outra forma, falar da incapacidade do clube, da «incompetência» do benévolo, da «crise» do associativismo, etc., transforma-se numa plangente lamentação da parte daqueles que relembram o passado com saudade, e uma forma objectiva de ataque ao associativismo tal como ele se encontra daqueles que são seus inimigos.
Todos sabem que evitar cair nesta situação não é fácil. A desorientação provocada pela ausência de referências claras e pela complexificação da própria vida social e desportiva, o interesse feroz de certas forças políticas e sociais em acabarem com tudo aquilo que seja exterior ao quadro da rentabilização do lucro, constituem importantes obstáculos que se opõem a um trabalho como o que é aqui preconizado. Mas uma coisa parece ser clara: a vida futura do associativismo (desportivo e outro) depende da capacidade daqueles que o consideram como parte fundamental de um novo projecto de sociedade onde a solidariedade não é palavra oca e a participação algo de real e significativo.