O adeus
Talvez por vezes a contragosto, espero contudo que não, a TV permitiu que o País inteiro testemunhasse o comovido adeus nacional a José Saramago. De entre os jornalistas que para as estações de televisão fizeram a cobertura das cerimónias fúnebres, houve quem achasse que pouca gente havia acorrido para o último adeus ao escritor. Eram decerto profissionais exigentes, mas esqueceram-se de contar com o povo alinhado ao longo do percurso do féretro e sobretudo com o que afluiu ao cemitério do Alto de São João. Talvez também tenham confundido, por um momento, a vinda às ruas para um aceno último e grato a Saramago com a habitual afluência às manifestações convocadas pelo PCP, de facto ainda mais concorridas. A um outro repórter, aparentemente pouco habituado a fazer distinções fundamentais, deu-lhe para confundir divergências pontuais em matérias transitórias com supostas críticas presumivelmente globais de Saramago ao seu Partido, omitindo que o escritor reiteradamente afirmou que estaria com os seus camaradas até ao fim, como esteve. Mas é claro que pequeninas migalhas de inverdade e eventualmente até de infâmia eram inevitáveis: José Saramago era demasiado grande para que não surgissem vestígios dos ódios e invejas que foram como que a prova pública da sua grandeza. De qualquer modo, o facto é que José Saramago teve agora, bem sabemos que tardiamente, uma grande homenagem nacional tão amplamente participada que, não sendo ele um autor de literatura toscamente popular, poderia parecer surpreendente. A explicação reside no facto de Saramago não ter sido apenas um homem do povo, um jovem rural que se tornou operário antes de se ter tornado um intelectual notabilíssimo, mas também um permanente camarada que participou em manifestações da CGTP já depois de escritor consagrado, que constantemente interveio à escala internacional em acções de solidariedade com os explorados e agredidos. E também de ter colocado o povo trabalhador no centro de alguns dos seus mais belos livros, opção que foi sendo conhecida até por quem os não pode ler porque, tal como o Avô Jerónimo evocado perante o rei da Suécia, nunca aprendeu o quase milagre que é a leitura.
Um desenlace impossível
O período que antecedeu a saída do corpo de José Saramago dos Paços do Concelho de Lisboa esteve à altura da circunstância: as intervenções havidas foram justas e belas; a presença e as palavras da vice-primeira-ministra de Espanha como que assinalaram o prestígio internacional do escritor; a música de Bach para violoncelo remeteu para um dos livros de Saramago, «As Intermitências da Morte», onde tem uma presença relevante (o que não foi assinalado por nenhum dos telejornalistas, omissão surgida como indício confirmador das ignorâncias que por aí grassam, triunfantes). A todos estes momentos comovidos, comoventes e também belos não tiveram acesso o senhor Presidente da República, que optou por continuar a mostrar os Açores à família e, reciprocamente, a família aos Açores, e o dr.Jaime Gama, segunda figura deste Estado, entregue a não especificadas tarefas prioritárias e urgentes que se presume serem as do descanso. Do dr.Gama apenas poderá dizer-se que não fez falta nenhuma, sendo aliás duvidoso que alguma vez faça falta onde quer que seja. Quanto à ausência do PR, porém, deverá louvar-se e aplaudir a decisão. Na verdade, não parece que José Saramago alguma vez tenha desejado a presença do professor Cavaco Silva no seu funeral, nem sequer vestido de burel e com corda ao pescoço em público sinal de penitência, depois de o senhor professor ter presidido ao governo que por bruteza cultural lançou veto censório sobre «O Evangelho Segundo Jesus Cristo». Talvez se possa invocar em defesa de Cavaco Silva a sua conhecida ignorância em matéria de cultura em geral e de cultura literária em especial. Porém, como diz o povo, quem não tem competência não se estabelece e, além disso, conhecido e divulgado o escândalo, cabia ao então primeiro-ministro pedir desculpa ao escritor censurado pela decisão de um secretário de Estado directamente inspirado pela Santa Inquisição. Cavaco nunca pediu desculpa, decerto porque a ignorância além de atrevida é orgulhosa. Por isso fez o agora PR muito bem, afinal, em não pôr os pés nos Paços do Concelho onde Saramago enfim repousava. Não porque o escritor pudesse levantar-se e expulsá-lo. Mas por todos ali saberem que esse apenas imaginável desenlace mágico seria, se possível, adequado e justo.
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Nota:
Por um erro de ordem técnica, na última edição do nosso jornal divulgamos uma crónica já publicada na edição de 2 de Junho. Por este erro pedimos desculpas aos nossos eleitores.