As visões «realistas» do associativismo

A. Mello de Carvalho

Aqueles que continuam a acreditar que o Homem ainda é capaz de se dedicar, desinteressadamente em termos materiais, a uma função de utilidade pública, são olhados com desdém e considerados simultaneamente como utópicos visionários ultrapassados por uma realidade que recusa qualquer tipo de idealismo humanista. Aqueles que pensam existir ainda, por debaixo da atitude generalizada do individualismo interesseiro, um apelo, em todos os seres humanos, a uma relação desinteressada e solidária, provocam o riso gozado dos chamados «realistas» e poderosos, ou simplesmente daqueles que nos ventos do «pensamento único», entendem ter a história chegado ao fim, rematada pelo incorrigível neoliberalismo defensor do lucro financeiro a todo o transe.

Por todo o lado, apregoa-se o agravamento constante da «crise de valores» (solidariedade, justiça, respeito pelo próximo, verdade, etc.), para, logo a seguir, se ir buscar a essa crise a justificação para se negarem, realista e pragmaticamente, os próprios valores (a empresa não tem ética, o capital não tem pátria). Em praticamente todos os textos actuais em que se trata do problema do dirigente associativo, começa-se por enunciar a «crise de valores» para, por vezes alguns parágrafos mais à frente, se defender simultaneamente a sua morte a prazo e a transformação do clube de acordo com uma racionalidade de eficácia económica que ignora a ética e, portanto, impedindo que se afirmem os próprios valores que se diz estarem em crise.

Boa vontade, acção desinteressada sem contrapartida financeira, realizada voluntariamente, referida a si próprio e aos outros, com a finalidade de construir uma vida melhor, em que o indivíduo se sinta e seja, de facto, um actor no interior da dinâmica social democratizadora: eis os termos em que se coloca a posição do dirigente desportivo dentro do clube. Para muitos daqueles que se encontram fora deste grande movimento, este é o tal discurso utópico e irrealista, bem intencionado e simpático, mas completamente ultrapassado no seu tempo, vivendo no exterior da sociedade industrializada que é a nossa, e ao arrepio da «3.ª vaga» caracterizada pela eficácia do rendimento, pela competitividade desenfreada e pela realização do máximo lucro.

Mas o facto de estas opiniões surgirem com frequência, e serem praticamente dominantes nos órgãos de informação (aliás, dominados pelos interesses daqueles que praticam aquela racionalidade económica amoral) confere-lhes autêntica razão de ser e legitima-as definitivamente?

Ou, pelo contrário, estaremos perante uma gigantesca manobra de diversão, autêntica lavagem ao cérebro dos mais incautos ou forma de legitimar uma concepção pelo simples facto de ela se afirmar vezes sem fim, repetindo o velho mecanismo de reprodução ideológica ao serviço dos interesses dominantes?

Convém deixar bem claro: a «pós modernidade», concepção que se reclama desta perspectiva, opõe-se determinantemente à modernidade «antiga» das décadas de sessenta e setenta, em que o voluntariado desinteressado constituiu um elemento motor da vida dos indivíduos e das sociedades, e surgiu como resposta às necessidades de viver, trabalhar e fruir a existência (ver o que se passou, entre nós, logo após o 25 de Abril de 1974). Trata-se de uma «história» que convém fazer cair no esquecimento, porque incomoda, ao mesmo tempo que se grita pela crise de valores morais e de comportamentos éticos, afinal características, desde sempre, daquele tipo de pragmatismo.

A entrega apaixonada e desinteressada terá de constituir sempre um elemento central na vida daqueles que desejam definir as finalidades da sua própria existência no exterior de um quadro que os manipula sem limites. Na prática, desapossando o indivíduo da sua real autonomia crítica, provocando uma desorientação em que ele deixa de compreender a dinâmica que determina a sua existência, a Sociedade, no seu todo, não toma em devida consideração as suas necessidades estruturais, substituindo-as ou jogando com elas, fazendo surgir necessidades artificialmente criadas (consumismo desenfreado, precariedade da situação laboral, desumanização da relação inter-individual, competição desregulada e demencial, etc.).

«Gerir a boa vontade», pois é disto que se trata, transforma-se por isso numa outra visão «realista», assente no combate ao processo alienatório e aos mecanismos sociais que impedem que o ser humano, quer se trate da escola, da empresa, da comunidade, etc., constitua o centro em torno do qual tudo deve girar. Eis uma inesperada visão que pode assumir o conceito de «gestão» hoje tão frequentemente empregue pela generalidade dos tecnocratas de serviço. Desta forma apontam-se dois tipos opostos de «realismo», e não é porque o primeiro seja mais profusa e insidiosamente difundido que o segundo perde significado e razão de ser.



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