O dogma

Margarida Botelho

Não, apesar de o Avante! se pu­blicar a 13 de Maio, em plena vi­sita do Papa a Por­tugal, este texto não é sobre os dogmas da Igreja ca­tó­lica. É sobre al­guns dos dogmas da União Eu­ro­peia.

Diz o di­ci­o­nário que, além do sen­tido re­li­gioso do termo, um dogma é uma «pro­po­sição apre­sen­tada como in­con­tes­tável e in­dis­cu­tível». Diz ainda que dog­ma­tismo é o «sis­tema dos que não aceitam dis­cussão do que alegam ou afirmam».

Vem isto a pro­pó­sito da crise e res­pec­tivas «so­lu­ções», que dão origem a horas de de­bates, co­men­tá­rios e sa­ba­tinas com «es­pe­ci­a­listas». Re­petem-se as ex­pli­ca­ções do cos­tume: a ga­nância dos ges­tores, a falta de es­ta­tura dos lí­deres eu­ro­peus, o fe­de­ra­lismo ainda in­su­fi­ci­ente.

Ar­gu­mentos sempre ali­nhados pelo dis­curso das ine­vi­ta­bi­li­dades, das so­lu­ções drás­ticas, dos sa­cri­fí­cios, do ca­minho único. Ou seja: o dis­curso do grande ca­pital e dos seus in­te­resses, com mais ou menos flo­re­ados, con­so­ante o pú­blico-alvo.

É raro, mas às vezes há co­mu­nistas nestes pai­néis de dis­cussão. Em de­bates sobre este tema é claro que os co­mu­nistas de­nun­ciam vi­va­mente a brutal ameaça que as me­didas con­tidas no PEC re­pre­sentam, mos­tram como a União Eu­ro­peia surge como um dos prin­ci­pais ali­cerces da po­lí­tica de classe em Por­tugal, apelam à re­sis­tência e à luta dos tra­ba­lha­dores e do povo.

In­va­ri­a­vel­mente, a re­acção dos res­tantes par­tidos – e res­pec­tivo cor­tejo de co­men­ta­dores – é a de quem tem uma fe­rida aberta em que se põe o dedo e – lá está! – o dog­ma­tismo re­vela-se em todo o seu es­plendor. Como os ar­gu­mentos caem por terra de­pressa, é vê-los ati­rando à laia de in­sulto as firmes po­si­ções do PCP aquando da adesão à CEE ou ao euro.

Nos dias que correm, falar da re­ver­si­bi­li­dade dos tra­tados eu­ro­peus, ques­ti­onar o mer­cado, o fe­de­ra­lismo, a União Eco­nó­mica e Mo­ne­tária, o Banco Cen­tral Eu­ropeu, o neo-li­be­ra­lismo, o mi­li­ta­rismo, a União Eu­ro­peia, trans­formou-se em blas­fé­mias e he­re­sias. A dis­cri­mi­nação, o si­len­ci­a­mento e a ca­ri­ca­tura de quem fir­me­mente trava este com­bate fazem parte do ar­senal usado para de­fender e ali­mentar o pen­sa­mento único. Mas a vida e a luta mos­tram, todos os dias, como são cer­teiras e in­dis­pen­sá­veis as de­nún­cias e as pro­postas do PCP.



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