O dogma
Não, apesar de o Avante! se publicar a 13 de Maio, em plena visita do Papa a Portugal, este texto não é sobre os dogmas da Igreja católica. É sobre alguns dos dogmas da União Europeia.
Diz o dicionário que, além do sentido religioso do termo, um dogma é uma «proposição apresentada como incontestável e indiscutível». Diz ainda que dogmatismo é o «sistema dos que não aceitam discussão do que alegam ou afirmam».
Vem isto a propósito da crise e respectivas «soluções», que dão origem a horas de debates, comentários e sabatinas com «especialistas». Repetem-se as explicações do costume: a ganância dos gestores, a falta de estatura dos líderes europeus, o federalismo ainda insuficiente.
Argumentos sempre alinhados pelo discurso das inevitabilidades, das soluções drásticas, dos sacrifícios, do caminho único. Ou seja: o discurso do grande capital e dos seus interesses, com mais ou menos floreados, consoante o público-alvo.
É raro, mas às vezes há comunistas nestes painéis de discussão. Em debates sobre este tema é claro que os comunistas denunciam vivamente a brutal ameaça que as medidas contidas no PEC representam, mostram como a União Europeia surge como um dos principais alicerces da política de classe em Portugal, apelam à resistência e à luta dos trabalhadores e do povo.
Invariavelmente, a reacção dos restantes partidos – e respectivo cortejo de comentadores – é a de quem tem uma ferida aberta em que se põe o dedo e – lá está! – o dogmatismo revela-se em todo o seu esplendor. Como os argumentos caem por terra depressa, é vê-los atirando à laia de insulto as firmes posições do PCP aquando da adesão à CEE ou ao euro.
Nos dias que correm, falar da reversibilidade dos tratados europeus, questionar o mercado, o federalismo, a União Económica e Monetária, o Banco Central Europeu, o neo-liberalismo, o militarismo, a União Europeia, transformou-se em blasfémias e heresias. A discriminação, o silenciamento e a caricatura de quem firmemente trava este combate fazem parte do arsenal usado para defender e alimentar o pensamento único. Mas a vida e a luta mostram, todos os dias, como são certeiras e indispensáveis as denúncias e as propostas do PCP.