Por mor do défice

Anabela Fino
Eles não estão de acordo, não estão satisfeitos e se estivessem no governo fariam mais e melhor, mas tendo em conta o «interesse nacional» vão viabilizar o Orçamento do Estado para 2010. Eles são os dirigentes do CDS e o PSD, que depois de muitos funfuns e gaitinhas, de muitas aparentes hesitações, e de muitos encontros e reuniões com os representantes de Sócrates se apresentaram perante os holofotes das televisões quais Egas Moniz dos tempos modernos, não de baraço ao pescoço mas com a abstenção ao peito, prontos para o sacrifício de viabilizar o OE.
Uns asseveraram que o faziam por «patriotismo», outros porque tinham garantido o «essencial», e ambos os dois por causa do dito «interesse nacional», cujo não se diz o que seja mas que fica sempre bem invocar.
Do documento entregue na Assembleia da República a 26 de Janeiro não se conhecia ainda os pormenores no fecho desta edição, mas do que entretanto veio a lume pode inferir-se, sem margem para grandes erros, que não é a Banca nem as mais-valias da especulação bolsista que vão contribuir para o cumprimento do compromisso assumido pelo executivo com Bruxelas de baixar o défice para menos de três por cento até 2013. Também nada autoriza a suspeitar sequer que seja pela via da mais justa retribuição da riqueza produzida no País, pois entre aquilo que foi saindo de debaixo do véu orçamental conta-se o provável aumento IVA, esse imposto cego que penaliza de igual modo quem muito tem e quem mal tem para viver, seja na conta da electricidade ou no creme para a barba, na reparação do Audi ou no arranjo da torneira. Não consta, de igual modo, que o combate ao défice se vá travar com o aumento do consumo interno – justamente o que entre nós mais contribui para o crescimento da economia – dado que o desemprego vai continuar a aumentar e se afirma à boca cheia que os salários da função pública vão ficar congelados, o que como se sabe serve de bitola ao sector privado em maré de «contenção». E como entretanto já subiu a electricidade – só para falar de coisas essenciais – e se anuncia a liberalização do sector (gás natural incluído), e as prestações sociais – como o subsídio de desemprego – vão continuar à míngua, não é difícil adivinhar, pela amostra, quem vai pagar a factura dos sacrifícios que «todos» teremos de fazer.
Neste contexto, ocorre perguntar de que «patriotismo» fala o CDS ou o que é que o PSD entende por «essencial» para ambos convergirem no «sacrifício» da abstenção. Tendo em conta que há mais de três décadas que os sucessivos governos PS e PSD, com ou sem CDS a reboque, mais não fazem do que nos «vender os anéis» por mor do défice – Ferreira Leite nos seus tempos de ministra das Finanças, lembram-se? – e de nos comer a carne à força de nos fazerem apertar o cinto, legítimo se torna desconfiar que estejam todos agora a afiar o dente para nos roer os dedos. Não duvidamos de que o «interesse nacional» vai estar na ribalta nos próximos tempos. Esperemos que nos entretantos alguém tenha tempo para nos dizer se é mesmo verdade que, numa altura em que a dívida externa de Portugal passa dos 100% do PIB, o Governo se comprometeu com o Fundo Monetário Internacional (FMI) a emprestar a Angola até 200 milhões de dólares (cerca de 140 milhões de euros) já em 2010.


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