As pistolas de D. Pedro

Anabela Fino
O caso das pistolas de D. Pedro IV, rei de Portugal e imperador do Brasil, furtadas do Museu Militar em 1973 e agora recuperadas pela Polícia Judiciária em Lisboa em vésperas de serem postas a leilão por 100 mil euros, mobilizou as atenções nos últimos dias. O tema não podia ser mais aliciante. Na ressaca das eleições e das análises de quem ganha e quem perde, e quando os tambores de guerra já soam para as bandas do PSD com Passos Coelho, Menezes, Sarmento e sabe-se lá quem mais a posicionar-se no terreno contra Ferreira Leite e a actual direcção social-democrata; quando as expectativas de quem fica, quem entra e quem sai mant`^em as hostes do PS à beira de um ataque de nervos; quando noutras latitudes se engolem soberbas e lambem desilusões; quando tudo isto sucede, dizia, as pistolas de D. Pedro vêm mesmo a calhar. A história das armas, para além de recambolesca, é de resto paradigmática: o autor do furto – ao que consta um jovem nos idos de 70 que se escondeu no Museu Militar e aguardou que as suas portas fechassem para furtar vários objectos – foi detido quatro anos depois da ocorrência e condenado, mas o produto do roubo (qual foi ele, não se sabe) permaneceu desaparecido. Excepto as pistolas de D. Pedro, claro, demasiado vistosas para não se dar conta do seu sumiço e consequente percurso.
Consta que foram vistas em Londres, em 1991, quando a famosa leiloeira Christie's as colocou no mercado; estariam na posse de um alemão, não identificado como convém nestas coisas de obras de arte, e com ele ficaram por as autoridades britânicas valorizarem mais os chorudos negócios de «arte» do que a lei. Às voltas que o mundo dá não escapam as pistolas, as de D. Pedro incluídas, e eis que as ditas voltaram a Portugal para alegria da PJ. Just in time, há que convir, para sem nunca se «descoserem» contando em que mansões descansaram os canos, prestarem ao país natal – simbolicamente, claro – o seu contributo para o futuro. É que, quando uns têm as pistolas e outros as munições, o resultado, sendo uma incógnita, é sempre estimulante.


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