Possibilidades
Após mais uma campanha eleitoral dramatizada qb com oportunos casos mediáticos de muita poeira e pouco esclarecimento – ele foi o TGV, a compra de votos, a guerra aos espanhóis, as escutas a Belém, os aforros de Louçã, as gabarolices de Sócrates, as gafes de Ferreira Leite, as feiras de Portas, o sobe e desce das sondagens, as corridas de António Costa que este ano trocou o burro pela bicicleta para gabar as virtudes do Metro... – eis que se chega aos finalmentes da coisa com um cenário digno de ópera bufa e a entrada em cena dos «notáveis» da política situacionista.
Na hora do vale tudo na caça ao voto, os barões do PSD guardam para melhor ocasião os punhais com que se apunhalam uns aos outros pelas costas e tomam o seu lugar na fotografia de família. De Marques Mendes a Rui Rio, de Pinto Balsemão a Santana Lopes, ninguém parece querer faltar à chamada para a rábula do partido unido e pronto para se governar, que isso de governar para o País é outra conversa e não é para aqui chamada. Trata-se de uma reprise, pelo que ninguém corre o risco de se enganar; quanto ao guião, também não requer particulares atenções; tirando um ou outro retoque, ditado pelas circunstâncias, é o mesmo de há trinta e tal anos a esta parte, com provas dadas nas alternâncias do agora governas tu agora governo eu.
A situação não é diferente no PS, onde as alegadas dissidências, divergências, incompatibilidades e rupturas ditas de esquerda deram lugar nos últimos dias a uma impressionante unanimidade entre Sócrates e Alegre, Soares e Ana Gomes, só para citar alguns nomes mais barulhentos, com o fito assumido de cativar os votos necessários para o que agora se chama uma «maioria confortável para governar». O apelo esconde o evidente desconforto de a almejada maioria absoluta estar tão fora do campo das possibilidades que já ninguém se atreve a nomeá-la, mas de tão curta ser a manta destapa o que alguns andaram por aí a esconder, ou seja, que caso se torne necessário repartir os tachos (não confundir com o recheio que esse, quanto muito, baptiza-se com água) está tudo a postos para o que Alegre designou em Coimbra de «esquerda possível», a mesma que «não repugna» a Soares. Falamos, naturalmente, da hipotética aliança do PS com o BE, essa espécie de cereja no bolo de encantar eleitores descontentes, que é como quem diz mude-se alguma coisa para que tudo fique na mesma, a receita já temos inove-se no embrulho. Catapultado no universo mediático para o lugar de charneira virtual, o embrulho, chamemos-lhe assim, faz-se rogado, sobe o tom de voz, guarda os prognósticos para depois do jogo e não avança uma linha que seja susceptível de pôr em causa as possibilidades, não vão os potenciais eleitores descobrir a tempo que se trata de mais do mesmo.
Enquanto isso, a esquerda que é esquerda e não apenas «a esquerda possível» cumpre o seu papel com a coerência que a caracteriza, apelando ao voto, sim, mas ao voto consciente; querendo ganhar votos mas rejeitando a caça ao voto; batendo-se pelo seu reforço mas com jogo limpo; esclarecendo que cada voto recebido é um investimento para a ruptura e a mudança de política. Esse é o voto que conta.
Na hora do vale tudo na caça ao voto, os barões do PSD guardam para melhor ocasião os punhais com que se apunhalam uns aos outros pelas costas e tomam o seu lugar na fotografia de família. De Marques Mendes a Rui Rio, de Pinto Balsemão a Santana Lopes, ninguém parece querer faltar à chamada para a rábula do partido unido e pronto para se governar, que isso de governar para o País é outra conversa e não é para aqui chamada. Trata-se de uma reprise, pelo que ninguém corre o risco de se enganar; quanto ao guião, também não requer particulares atenções; tirando um ou outro retoque, ditado pelas circunstâncias, é o mesmo de há trinta e tal anos a esta parte, com provas dadas nas alternâncias do agora governas tu agora governo eu.
A situação não é diferente no PS, onde as alegadas dissidências, divergências, incompatibilidades e rupturas ditas de esquerda deram lugar nos últimos dias a uma impressionante unanimidade entre Sócrates e Alegre, Soares e Ana Gomes, só para citar alguns nomes mais barulhentos, com o fito assumido de cativar os votos necessários para o que agora se chama uma «maioria confortável para governar». O apelo esconde o evidente desconforto de a almejada maioria absoluta estar tão fora do campo das possibilidades que já ninguém se atreve a nomeá-la, mas de tão curta ser a manta destapa o que alguns andaram por aí a esconder, ou seja, que caso se torne necessário repartir os tachos (não confundir com o recheio que esse, quanto muito, baptiza-se com água) está tudo a postos para o que Alegre designou em Coimbra de «esquerda possível», a mesma que «não repugna» a Soares. Falamos, naturalmente, da hipotética aliança do PS com o BE, essa espécie de cereja no bolo de encantar eleitores descontentes, que é como quem diz mude-se alguma coisa para que tudo fique na mesma, a receita já temos inove-se no embrulho. Catapultado no universo mediático para o lugar de charneira virtual, o embrulho, chamemos-lhe assim, faz-se rogado, sobe o tom de voz, guarda os prognósticos para depois do jogo e não avança uma linha que seja susceptível de pôr em causa as possibilidades, não vão os potenciais eleitores descobrir a tempo que se trata de mais do mesmo.
Enquanto isso, a esquerda que é esquerda e não apenas «a esquerda possível» cumpre o seu papel com a coerência que a caracteriza, apelando ao voto, sim, mas ao voto consciente; querendo ganhar votos mas rejeitando a caça ao voto; batendo-se pelo seu reforço mas com jogo limpo; esclarecendo que cada voto recebido é um investimento para a ruptura e a mudança de política. Esse é o voto que conta.