Bazófias ou o rabo da pescadinha

Luís Carapinha

O crescente azedume entre os EUA e a China tem implicações que vão muito além da esfera comercial

Mais pesporrente do que exultante, o primeiro-ministro britânico anunciou em Abril, no final da cimeira de Londres do G20 – convocada em virtude da crise mundial do capitalismo –, que uma nova ordem internacional havia sido criada.
Deixando de lado a improvável credibilidade de Gordon Brown e olhando para o receituário saído de Londres – dos gigantescos pacotes de «estímulo financeiro» ao absurdo compromisso de reforma e regulação dos mercados, passando pela pia rejeição do proteccionismo e a promessa vazia de ajuda aos países pobres, sem esquecer o inflamável empenho em assegurar uma recuperação económica «de baixo carbono» – aquilo que se vê é a tentativa obstinada dos EUA e demais potências do G7 para reanimar uma ordem mundial anacrónica e injusta. O lema é: mude-se tudo o que puder ser mudado para que tudo fique na mesma. A manutenção da hegemonia exige um novo paradigma funcional, cujas palavras-chave são mais concentração, desigualdade e exploração.
Cinco meses volvidos, contudo, a incapacidade do capital e da actual ordem económica mundial em dar resposta aos efeitos devastadores da crise por si gerada torna-se mais palpável.
Apesar da injecção em massa de recursos públicos no bolo da acumulação privada, a muito aplaudida recuperação parcial das bolsas – fingindo ignorar as ameaças de novas descidas a pique – e os ténues e fragmentários sinais de estabilização macroeconómica não têm correspondência no plano social, negando a perspectiva de uma recuperação sustentável das economias e do clima económico mundial.

Não admira que, em vésperas de nova cimeira do G20, esta semana em Pittsburgh, nos EUA, se tenham multiplicado os avisos à navegação em todos os azimutes.
Nos EUA, UE e Japão, e em geral no mundo, o desemprego continuará a subir em 2010. No país do Tio Sam, a taxa de desemprego poderá mesmo nunca mais voltar a níveis inferiores aos 4.4% oficialmente registados em 2007 (Bloomberg, 14.09.09). O insustentável sonho do american way of life – que foi sempre só para alguns – converte-se hoje num real pesadelo para um número cada vez maior de trabalhadores e excluídos.
A saída da profunda recessão na maior e, também, mais parasitária economia mundial promete ser a mais lenta e prolongada desde 1945 (idem, idem).
A um ano da onda de choque da falência do Lehman Brothers, o próprio Banco Internacional de Pagamentos (o «banco central mor») não se mostra seguro da recuperação do sistema financeiro…

A crise profunda do capitalismo põe a nu os profundos desequilíbrios e deformações da globalização imperialista.
Com o comércio mundial a sofrer a maior contracção de muitas décadas, o vírus das barreiras comerciais irrompeu nos últimos dias, infectando as trocas entre os EUA e a China. Em causa está a decisão de Obama de agravar as tarifas alfandegárias sobre a importação de pneus chineses. Os dois países, ligados por relações de inter-dependência assimétrica, evitam usar o termo «guerra comercial», mas a China – que no 1.º semestre de 2009 se tornou no maior exportador mundial, ultrapassando a Alemanha e está perto de atingir a meta de crescimento de 8% – enviou à OMC uma queixa contra as práticas abusivas de Washington.
Como nota o International Herald Tribune (14.09), o crescente azedume entre os EUA e a China tem implicações que vão muito além da esfera comercial.

Enquanto uma nova vaga proteccionista ameaça soterrar o sopro do livre comércio e concorrência, sempre alardeado pelo imperialismo mas que, na sua essência, nunca foi mais do que uma prerrogativa dos grandes monopólios, Gates aponta para o perigo das fortalecidas capacidades defensivas da China, que diz ameaçarem o «domínio dos EUA» no Pacífico (AFP, 17.09.09).
O quadro de grande instabilidade, insegurança e incerteza não diminui no mundo, pelo contrário. É preciso uma ruptura para acabar com a pescadinha de rabo na boca do actual sistema político e económico e as suas bolhas e crise estrutural.


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