Uma ajuda desinteressada

Filipe Diniz
O arquivo de opiniões do PS encerra tesouros. Uns estão um pouco gastos, porque acaba por cansar deparar com as contradições de sucessivas gerações de troca-tintas.
Mas outros são pérolas. Por exemplo: essa luminária que se chama Augusto Santos Silva produziu (Pú­blico, 8-9-2002) a afirmação, lapidar e inesquecível, de que «o PS não deve afirmar-se nem pró nem contra o ca­pi­ta­lismo: foi nessa re­cusa que se formou o so­ci­a­lismo de­mo­crá­tico».
Esta profissão de fé no mais desavergonhado oportunismo deve estar inscrita em letras de ouro na sede do Rato. Foi com esta ideologia e este ideólogo que o PS deu os passos que faltavam no terreno da política de direita. Nunca desde o 25 de Abril o capitalismo encontrara um partido que, não sendo «nem pró nem contra o ca­pi­ta­lismo», executasse com tão canina obstinação as políticas do grande capital.
Afundou o país na crise, e agora que ela se insere na «mais pro­funda e sin­cro­ni­zada crise fi­nan­ceira do nosso tempo» e com o comércio mundial «em queda livre», nas palavras da insuspeita OCDE, os propagandistas PS estão algo descalços.
Mas, se o pior da crise ainda está para vir, as suas consequências políticas (naturalmente contraditórias) também estão em desenvolvimento, e irão decerto muito fundo.
Uma sondagem divulgada na passada semana nos EUA deixou alguma gente alarmada. Apenas 53% dos norte-americanos consideram o capitalismo superior ao socialismo. Nos que têm idade inferior a 30 anos essa percentagem baixa para 37%. Nessa mesma faixa etária 30% consideram o socialismo superior ao capitalismo.
O choque foi violento. Vários comentadores (citados pelo New York Times) divergiram. Uns opinam que os inquiridos não sabem do que estão a falar. Outros lastimam as fraquezas do sistema de ensino que permite tais devaneios. Outros acham que a culpa é dos conservadores, que chamam «so­ci­a­lista» tudo o que não encaixa nos interesses do grande capital. Alguns, por estranho que pareça, interrogam-se se o capitalismo não terá perdido um pouco do seu encanto com o colapso da economia. Em resumo, estão confusos.
Não poderíamos, com algum egoísmo nacional, enviar em seu auxílio o «so­ci­a­lista» Santos Silva?


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