Um poço de virtudes
A crise aí está – em toda a sua dimensão económica e social – a pôr em evidência o fracasso de um sistema e das políticas que o suportam. No plano nacional, a revelar em toda a sua extensão as responsabilidades da política de direita no agravamento da situação do País, no avolumar das desigualdades e injustiças, na vulnerabilidade económica extrema, na dependência crescente.
Na mentira reside a pedra angular do sistema capitalista
No plano mais geral, a expor, como há décadas não era exposta, a verdadeira natureza do capitalismo, o seu carácter predador, as suas responsabilidades na condenação à miséria, à fome e à doença de milhões de seres humanos, na depauperação de países, na pilhagem de continentes.
Evidência que aqueles que observando o mundo e a sociedade com olhos de respeito pela verdade dificilmente imaginariam poder ser negada. Puro e perigoso engano. No poderoso campo dos detentores do sistema dominante, a produção ideológica revela-se tão violenta e tão despida de escrúpulos quanto a natureza opressiva e exploradora das suas relações económicas e sociais.
No arsenal ideológico do capitalismo manipulam-se palavras, subvertem-se conceitos, ilude-se a realidade e sobretudo mente-se. Porque na mentira reside a pedra angular do sistema, a condição para fazer sobreviver e perpetuar as relações de produção que lhe estão associadas, a base doutrinária onde se sustenta e alimenta a exploração. À força da evidência, multiplicam-se argumentos para iludir a realidade, sacudir responsabilidades, reverter em benefício próprio as razões que lhe estão na origem.
Tudo se resumiria, à luz dos propagandistas do capitalismo, a comportamentos desviantes, erros de percurso, deficiente aplicação da cartilha capitalista. Em vez das objectivas contradições insanáveis entre o carácter social da produção e a sua apropriação privada, meros excessos ou impulsos gananciosos; em vez da contradição resultante entre o excesso de oferta e a carência de procura ditada pela perda de poder aquisitivo das massas trabalhadoras, os azares decorrentes de reprováveis comportamentos individuais e éticos; em vez das leis e processos objectivos associados à concentração e centralização do capital, ao lucro e à mais-valia, apenas problemas ditados pela insuficiência dos mecanismos de regulação.
Mentiras muitas, é certo, mas não menor inquietação. No campo capitalista, perante a evidência dos factos e a dimensão da crise, a ordem dada aos seus defensores e difusores, é clara: fingir que se muda para que tudo fique na mesma.
Para lá das mistificações
A expressão de Vital Moreira, carregada de aviso, «a necessária superação do capitalismo não pode ser pretexto para o triunfo de um credo antiliberal», inserida em artigo recente, resume de forma lapidar a inquietação que povoa as suas cabeças. Uma expressão que, resumindo o essencial, se vê acompanhada daquele outro conjunto de mistificações que as circunstâncias recomendam: a «condenação» da auto-regulação para justificar uma regulação pelos estados, ignorando a natureza das políticas e os interesses de classe que prosseguem; a piedosa intenção de promover um «mínimo de igualdade social» à margem da questão decisiva da propriedade sobre os meios de produção e, em particular, dos sectores estratégicos; a instrumentalização do conceito de «mercado», objectivamente considerado, para contrapor economia de mercado à «sociedade de mercado», sem que se explique onde acaba uma e começa outra; a habilidosa contraposição de neoliberalismo ao capitalismo, ignorando a sua indissociável relação e decorrência.
Errados estaríamos se, olhando para o que os principais responsáveis do PS afirmam, acreditássemos que os novos vocábulos que enxameiam os seus discursos – doravante, daqui para a frente, no futuro – correspondessem a um súbito acto de contrição ou a um lúcido reconhecimento da natureza das suas políticas. Um eventual erro que rapidamente se desfaria na frase, tão gongórica quanto ridícula, com que Vital Moreira conclui o citado artigo: «como há décadas ensina a social-democracia europeia, é num mix de liberdade e de solidariedade, de concorrência e de igualdade, de mercado e de Estado que reside a virtude». Guardadas fiquem, assim, para quem as aprecia, as «virtudes» que acompanharão Blair, Guterres, Sócrates ou mesmo Barroso.
Seguros que onde Vital (e os interesses que representa) vê virtudes imensas, a maioria dos trabalhadores e do povo reconhece os responsáveis maiores pela situação a que o País chegou, os autores principais dos ataques dirigidos aos seus direitos e condições de vida. «Virtudes» que, com toda a justificação, devem ser remetidas, já nas eleições de 7 de Junho, lá bem para o fundo do poço da política de direita que a social-democracia tão esforçadamente se tem encarregue de prosseguir e aprofundar.
Evidência que aqueles que observando o mundo e a sociedade com olhos de respeito pela verdade dificilmente imaginariam poder ser negada. Puro e perigoso engano. No poderoso campo dos detentores do sistema dominante, a produção ideológica revela-se tão violenta e tão despida de escrúpulos quanto a natureza opressiva e exploradora das suas relações económicas e sociais.
No arsenal ideológico do capitalismo manipulam-se palavras, subvertem-se conceitos, ilude-se a realidade e sobretudo mente-se. Porque na mentira reside a pedra angular do sistema, a condição para fazer sobreviver e perpetuar as relações de produção que lhe estão associadas, a base doutrinária onde se sustenta e alimenta a exploração. À força da evidência, multiplicam-se argumentos para iludir a realidade, sacudir responsabilidades, reverter em benefício próprio as razões que lhe estão na origem.
Tudo se resumiria, à luz dos propagandistas do capitalismo, a comportamentos desviantes, erros de percurso, deficiente aplicação da cartilha capitalista. Em vez das objectivas contradições insanáveis entre o carácter social da produção e a sua apropriação privada, meros excessos ou impulsos gananciosos; em vez da contradição resultante entre o excesso de oferta e a carência de procura ditada pela perda de poder aquisitivo das massas trabalhadoras, os azares decorrentes de reprováveis comportamentos individuais e éticos; em vez das leis e processos objectivos associados à concentração e centralização do capital, ao lucro e à mais-valia, apenas problemas ditados pela insuficiência dos mecanismos de regulação.
Mentiras muitas, é certo, mas não menor inquietação. No campo capitalista, perante a evidência dos factos e a dimensão da crise, a ordem dada aos seus defensores e difusores, é clara: fingir que se muda para que tudo fique na mesma.
Para lá das mistificações
A expressão de Vital Moreira, carregada de aviso, «a necessária superação do capitalismo não pode ser pretexto para o triunfo de um credo antiliberal», inserida em artigo recente, resume de forma lapidar a inquietação que povoa as suas cabeças. Uma expressão que, resumindo o essencial, se vê acompanhada daquele outro conjunto de mistificações que as circunstâncias recomendam: a «condenação» da auto-regulação para justificar uma regulação pelos estados, ignorando a natureza das políticas e os interesses de classe que prosseguem; a piedosa intenção de promover um «mínimo de igualdade social» à margem da questão decisiva da propriedade sobre os meios de produção e, em particular, dos sectores estratégicos; a instrumentalização do conceito de «mercado», objectivamente considerado, para contrapor economia de mercado à «sociedade de mercado», sem que se explique onde acaba uma e começa outra; a habilidosa contraposição de neoliberalismo ao capitalismo, ignorando a sua indissociável relação e decorrência.
Errados estaríamos se, olhando para o que os principais responsáveis do PS afirmam, acreditássemos que os novos vocábulos que enxameiam os seus discursos – doravante, daqui para a frente, no futuro – correspondessem a um súbito acto de contrição ou a um lúcido reconhecimento da natureza das suas políticas. Um eventual erro que rapidamente se desfaria na frase, tão gongórica quanto ridícula, com que Vital Moreira conclui o citado artigo: «como há décadas ensina a social-democracia europeia, é num mix de liberdade e de solidariedade, de concorrência e de igualdade, de mercado e de Estado que reside a virtude». Guardadas fiquem, assim, para quem as aprecia, as «virtudes» que acompanharão Blair, Guterres, Sócrates ou mesmo Barroso.
Seguros que onde Vital (e os interesses que representa) vê virtudes imensas, a maioria dos trabalhadores e do povo reconhece os responsáveis maiores pela situação a que o País chegou, os autores principais dos ataques dirigidos aos seus direitos e condições de vida. «Virtudes» que, com toda a justificação, devem ser remetidas, já nas eleições de 7 de Junho, lá bem para o fundo do poço da política de direita que a social-democracia tão esforçadamente se tem encarregue de prosseguir e aprofundar.