De visita

Anabela Fino
Na última sexta-feira, centenas de milhares de pessoas vieram «de visita à capital».
O dia estava soalheiro, os autocarros eram fretados, pelo que nada melhor do que uma passeata até Lisboa, tanto mais que o objectivo era «gritar a indignação que sentem contra o desemprego, que sofrem na carne, a pobreza, a incerteza quanto ao futuro, dos próprios e dos filhos e netos, e das ostensivas – e não resolvidas – desigualdades sociais, que em vez de serem corrigidas se agravam».
Foi mais ou menos assim que Mário Soares se referiu (DN de 17 de Março) à «megamanifestação» de dia 13 – a classificação é dele – combinando de forma sub-reptícia insinuações depreciativas com o reconhecimento da grave situação que afecta os trabalhadores portugueses, com o único objectivo de mandar avisos à navegação do Governo, já que na sua douta opinião «uma megamanifestação não resolve nada» mas – ano de eleições obriga –, «alerta os responsáveis para o que tem de ser imperativamente resolvido».
Insinuando que o bom tempo ajudou à mobilização dos manifestantes vindos «de todo o País» e que ninguém teve de se preocupar com o transporte, Soares omitiu aspectos que «por acaso» são determinantes para se avaliar quão profundo é o descontentamento popular e a determinação para a luta. O primeiro «pormenor» é que os trabalhadores, por mais que gostem de passear ao sol da capital em dia de semana, só o podem fazer (não estando de férias) cumprindo greve. O que tem pesados custos, como Mário Soares tem obrigação de saber, mais a mais em tempos de pobreza. Depois, vale a pena lembrar que os preços dos autocarros fretados – módicos que sejam – resultam na justa medida das quotizações sindicais, fonte de receita dos sindicatos que estão ao serviço dos trabalhadores e não em negociatas pouco claras que nada têm a ver com o sindicalismo. Acresce que para este tipo de «visitas» à capital muitos dos manifestantes têm de se levantar de madrugada, preparar o farnel e sujeitar-se à canseira de longas horas de viagem, para já não falar do palmilhar rua abaixo e rua acima nas avenidas lisboetas. É claro que certos comentadores da nossa praça têm como adquirido que trabalhador adora levantar cedo e deitar tarde, não perde uma oportunidade para picnicar sandes, cerveja e pastéis de bacalhau, e não desdenha moer o corpo em «passeios», de habituado que está a fazê-lo a trabalhar. Mas ainda assim, convenhamos não ser intelectualmente muito honesto sugerir sequer que o faz como um pau mandado, ainda que com muito e legítimo protesto atravessado na garganta.
Importa dizer, em abono da verdade, que os recados de Soares ao PS estão dificultados de há muito pela arrogância autista de Sócrates, que ainda esta semana escolheu a reunião da Tendência Sindical Socialista – onde João Proença foi mais uma vez escolhido como «candidato» a secretário-geral da UGT –, para zurzir nos sindicatos da CGTP-IN, que por acaso até são a maioria em Portugal, e perorar sobre «o sindicalismo livre de influências e agendas partidárias» de que a UGT seria o paradigma. Seria risota de ir às lágrimas se não fosse trágico. Perante tal fenómeno, Soares terá de se esforçar muito mais, faça chuva ou faça sol, para não de se confrontar com mais megavisitas.


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