Maldizer

Leandro Martins
É sempre encantador ouvir José Sócrates reagir a um protesto, por mais pequeno que seja. Mas, quando o protesto se agiganta e não há avenida ou praça em que caiba, quando o protesto lhe surge pela frente – mesmo que o primeiro-ministro fuja para Cabo Verde e escape ao ribombar das vozes – então ele entra em histeria.
Coitado do homem. É claro que um indivíduo assim, tão dedicado ao bem público, que ele entende como serviço prestado aos interesses de um punhado de banqueiros milionários, um homem cuja modernidade não se discute, pois até ousa propor à sociedade portuguesa os casamentos gay e a eutanásia para resolver os grandes problemas nacionais e espalhar pelo País a grande mensagem da «esquerda», há-de sentir-se e ressentir-se injustiçado. O que milhões de portugueses – representados na maior manifestação de sempre por mais de duzentos mil trabalhadores – lhe disseram, é uma incomensurável maledicência.
Foi assim, com esta palavra, catada em conversa de vizinha, que ele reagiu à manifestação de sexta-feira passada, em Lisboa. Andam a dizer mal dele e não pode ser. Não sei se repararam que Sócrates não se incomoda com as más palavras de Manuela Ferreira Leite. Dali não vem nenhum mal ao mundo. Um entendimento é até possível. Basta a Sócrates, no vazio de uma maioria enfezada, deixar de lado aeroportos e altas velocidades. No resto, ambos, com o CDS ou não à mistura, se entendem perfeitamente para arrancar a tanga aos portugueses que trabalham ou que vivem no terror do despedimento ou na tortura da precariedade, ou na miséria das reformas, ou na desesperança de não conseguir trabalho. Desde que os milionários se mostrem satisfeitos com a política de direita que lhes é servida, tudo vai às mil maravilhas. Mas um outro perigo espreita, como se de novo um fantasma assombrasse este canto da Europa.
É que o protesto de sexta-feira contém em si uma exigência ancorada num projecto – a ruptura com a política de direita, uma ruptura que significa erguer uma democracia avançada nos escombros em que a política de direita conduziu o País. E tal democracia, inevitavelmente, pressupõe o socialismo – destestável palavra que faz Sócrates estremecer de pavor.
É que ele sabe que, à frente de tal projecto, mobilizando e esclarecendo – e nunca manipulando – se encontram os comunistas portugueses, cuja abnegada história e vigorosa acção presente representam uma catástrofe para os interesses privadíssimos dos que exploram.


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