A crise do capitalismo na Alemanha

Rui Paz

O lucro líquido das sociedades financeiras aumentou 42% entre 2000 e 2005

Na Alemanha, a crise do sistema capitalista irrompe de uma forma cada vez mais brutal. A quebra da produção e o aumento do desemprego é impressionante. Só em Janeiro, o número oficial de desempregados aumentou mais 387 mil em relação ao mês anterior, perfazendo o total de 3 milhões e 489 mil. Mas estas estatísticas não incluem os 200 mil trabalhadores com mais de 58, anos reformados compulsivamente por estarem desempregados; os 300 mil obrigados a trabalhar por um euro à hora; os 400 mil com horários incompletos e salários reduzidos devido à quebra da produção e cujo número não cessa de aumentar; as centenas de milhares de jovens à procura do primeiro emprego; os 7 milhões de alemães que vivem com 345 euros mensais da assistência social e das medidas «Hartz IV», socialmente excluídos e sem qualquer esperança de um futuro melhor; os milhões que trabalham mas não ganham o suficiente para poder viver. Segundo o Instituto Nacional de Estatística, em 2004, ainda antes desta nova vaga de devastação económica, já viviam na miséria 10,6 milhões de pessoas, isto é, 13% da população alemã, enquanto o lucro líquido das sociedades financeiras aumentou 42% entre 2000 e 2005. A crise da indústria automóvel é bem elucidativa de que se está em presença de um problema central do capitalismo sem solução no quadro do sistema.

O chefe da Volkswagen, Winterkorn, revelara recentemente que a produtividade nas fábricas de Wolfsburg e de Zwickau aumentara respectivamente 10% e 15% na passagem do modelo Golf V para o Golf VI. Isto significa que para montar o mesmo número de automóveis passaram a ser necessários menos 10 a 15 trabalhadores. Na BMW, na Mercedes e na Opel o aumento da produtividade chegou a atingir 20%. Como não se verificou nenhuma redução do tempo de trabalho nem aumentos salariais equivalentes, estas subidas espectaculares da produtividade não beneficiaram os trabalhadores mas os accionistas, os quais, não sabendo o que fazer com tanto capital acumulado e impossibilitados de o investir na esfera produtiva devido à miséria generalizada e à perda do poder de compra, voltaram-se para a especulação financeira.

Actualmente a quebra de vendas da Opel é de 36% e a da VW 19%. Eis o resultado de anos e anos de políticas orientadas para os interesses da oligarquia dos mercados, conduzidas por governantes sem escrúpulos e forças políticas submissas ao grande capital, as quais apregoando falsas teorias impuseram a estagnação dos salários, privatizaram e delapidaram os bens do Estado, ofereceram milhões e milhões de impostos aos multimilionários, liquidaram direitos laborais e sociais e fizeram aumentar obscenamente os lucros e os rendimentos da burguesia monopolista enquanto a pobreza e o desemprego alastraram. O mais espantoso é que aqueles que atearam o fogo à economia em nome da infalibilidade do mercado, como as Merkel e os Schröder na Alemanha, os Sócrates e os Barroso em Portugal são os mesmos que hoje desavergonhadamente gritam que a casa está a arder para fazer pagar aos trabalhadores os malefícios da crise, saquear o Estado e continuar a reforçar o poder do grande capital.


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